É possível dedicar-se uma crónica a uma simples artéria de uma cidade? Pode uma rua ser vista, em si, como uma obra de arte? Pois assim olho a Rua Braamcamp Freire, cujo nome na antiga toponímia santarena era Rua da Amargura. Tanto na sua unidade estética, constituída pela série contínua de fachadas de palacetes, solares e casas comuns (algumas delas com azulejos oitocentistas e renques de jacarandás), como na sua valia arquitectónica específica (no caso do solar do historiador que dá nome à rua ou no das Escadinhas do Milagre), existe uma forte sensação visual que convida à paz interior, ao súbito bem-estar e, mesmo, a uma espécie de reencontro interior.

A cenografia desta rua tem alma: apesar dos pesares que alguns sinais de abandono acentuam, o nosso Mundo como que se pacifica ao descer a antiga rua da Amargura a partir do largo Pedro Álvares Cabral, junto ao Mosteiro de Nossa Senhora da Graça, até ao Chafariz de D. Rita (ou d’El-Rei) e voltando a subir até ao largo António Pedro Monteiro, no bairro do Pereiro, junto ao sítio do antigo convento das Capuchas e à Casa Madre Luísa Andaluz. Um percurso que está gravado nas minhas vivências, desde criança, e que continua pleno de referências e de memórias.

Vista assim, a minha cidade parece-me uma das mais belas do Universo. Tem sete colinas, muitos séculos com arquitectura preciosa, muitas obras de arte, muitos trechos com memória, e mil histórias da grande História portuguesa a espreitar em cada recanto. Tem paisagem urbana, vistas desafogadas para a lezíria, lendas de encantar, pulmão social e, sempre, segredos por desvendar que ainda se guardam nos arquivos, nos afectos e nas pedras.

O título popularmente dado à artéria, até ser baptizada em 1922 com o nome do historiador e político Anselmo Braamcamp Freire (1849-1921) pelo facto de albergar no antigo palacete dos Barões de Almeirim a Biblioteca Municipal por si doada à cidade, tem origem longínqua e explicação obscura: porquê rua da Amargura? No recente livro ‘Dicionário de Toponímia de Santarém’, de José Raimundo Noras e António Lino Canavarro, dedicado aos arruamentos do Centro Histórico, afirma-se (p. 81) que o topónimo é associado pelo povo ao declive da rua e à amargura causada pela sua subida. O investigador António Monteiro, por seu turno, regista o nome de Rua do Chafariz dado à artéria em documentação seiscentista do arquivo da Misericórdia.

Dizem-me outros investigadores e amigos que tal nome deriva do facto de ser o percurso inevitável dos pobres condenados que, saindo da cadeia municipal junto ao Senado, no largo de Marvila, iam cumprir pena capital no Outeiro da Forca. Vox populi: será, não será? O troço irregular do percurso como que atesta a veracidade dessa tradição: o declive é sempre de esforçada subida…

Todavia, o facto de se tratar também do trajecto da antiga Procissão dos Passos da Paixão de Cristo, ou seja, a Via Sacra, que assinala as várias quedas de Jesus e a agonia do caminho do Calvário, é que deverá justificar a toponímia da rua.

Nessa popularíssima procissão o nome encontra explicação lógica: a Rua da Amargura é a subida à Gólgota. Com a segunda metade do século XVI, a Contra-Reforma católica deu grande destaque a tais procissões quaresmais nas nossas cidades e vilas, recriando os passos que Jesus percorreu, com a cruz às costas, entre o Pretório de Pilatos e o Calvário onde foi crucificado. Os Passos ou Estações são habitualmente catorze, dedicados cada um a um dos momentos significativos do doloroso percurso em que se evoca o Caminho da Cruz. Vários altares de rua historiam cada episódio específico da Via Crucis, com as quedas de Jesus, o passo da Verónica, o encontro com Maria e as mulheres de Jerusalém, o apoio de Simão Cireneu no carregamento da cruz, e o Calvário propriamente dito.

Nas cidades portuguesas, o número de altares dos Passos oscilou; ignoro quantos existiram nas ruas da vila de Santarém nos tempos áureos em que a procissão se iniciou, no século XVI, prosseguindo com pompa nos XVII, XVIII e XIX em que a percorria esta e outras ruas em que as varandas das casas se ornavam de colchas e outros têxteis, assinalando assim a Via Crucis.

Um dos altares dos Passos sobreviventes encontra-se ainda hoje junto à igreja do Santíssimo Milagre, ao lado do pórtico principal, assinalando o percurso dessa antiga procissão. Tem frontão quebrado e estrutura maneirista simples, tendo o vão (antigamente ornado com um painel da Via Sacra) ocupado hoje com um azulejo de 1996 que assinala o célebre milagre eucarístico alegadamente sucedido no século XIII na próxima Rua das Esteiras. Um outro Passo situava-se defronte da igreja da Misericórdia, tendo sido demolido em 1897 quando se ergueu a singular Casa Neo-Árabe que ainda hoje surpreende os visitantes do Centro Histórico. Pelo menos, um destes Passos deveu-se a mãos do habilitado mestre pedreiro Luís Rodrigues, muito activo para a Santa Casa da Misericórdia e para a Câmara Municipal no primeiro terço do século XVII.

Desde o fim do século XVI que a popular procissão do Senhor dos Passos surge referida nos Livros de Receita e Despesa da Câmara Municipal de Santarém (por sinal guardados no arquivo da Biblioteca Braamcamp Freire) e com referência nas contas da Misericórdia e nas notas oitocentistas do cónego Joaquim Duarte Dias. Já em 1585, pelo menos, se registam as contas que a procissão envolvia, bem como a ordem das irmandades que desfilavam, as obrigações mesteirais inerentes, as esmolas que se recolhiam, os trabalhos de carpintaria com o andor, a pintura das bandeiras que saíam no percurso, etc. Nos livros do século XVII, observa-se mesmo que houve anos com despesas significativas com estes altares dos Passos, que tinham pinturas alusivas ao Caminho do Calvário.

Também na vila de Pernes a prática de tal procissão se documenta desde 1630. Ainda remanesce nos nossos dias. Sabe-se que a veneração ao Senhor dos Passos, seguindo as várias estações da Via Sacra, envolveu a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia e a Paróquia de Nossa Senhora da Purificação. Com maior sorte do que em Santarém, a Via Crucis de Pernes ainda resguarda alguns dos altares de rua com as «estações dos Passos».

Volto a percorrer, agora a esta luz, a antiga Rua da Amargura, como tantas vezes fiz e faço há mais de meio século. Acima das vãs lisonjas do Mundo e das frágeis espumas de areia, existe esta realidade: uma rua que é uma síntese, um farol de identificação que dá sentido a todas as coisas, como se os vulcões e guerras de súbito se calassem e toda a aridez murchasse face à luz colorida dos jacarandás e à irregularidade da calçada antiga!

Sinto, no meu caso de eterno apaixonado, que esta rua é pomar certo onde brilham frutos perenes. Ela é, em si, uma obra de arte que continua a respirar. Como toda a nossa cidade, a rua precisa de mais carinho, de respeito pela sua memória viva, de esforço de reabilitação do Centro Histórico em que se insere. Aliás, toda a Santarém reclama uma adequada revalorização dos seus espaços, tarefa que incumbe às tutelas e também às pessoas, e que sempre tarda.

No percurso da Rua da Amargura – e da antiga procissão dos Passos – brilham várias casas, solares e recantos, um deles as Escadinhas do Milagre, jóia da vila medieval que Maria Ângela Beirante valorizou e que Augusto Braz Ruivo representou num belo desenho de 1959. Há trinta e quatro anos, infelizmente, foram alvo de um trabalho de alargamento por causa das obras no edifício da antiga casa de Luísa Andaluz, à esquerda, e substituiu-se e encurtou-se o empedrado! Recordo a justa indignação que se fez ouvir contra tal vandalismo (Rosalina Melro, Pedro Canavarro, Florindo Custódio, e outros, ergueram a voz através da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém). Em vão: a verdade é que também as ruas se deixam doer…

Uma das paisagens urbanas que nunca deixou de me marcar é precisamente esta artéria que liga o largo da Graça ao bairro do Pereiro, passando pela Biblioteca Braamcamp e o Chafariz de D. Rita. A perfeita visão de um micro-cosmos, o Mundo reencontrado: afinal, Património, Poesia, Arte, Amor, uma Rua de Cidade, serão mais do que referências neutras, páginas do passado, meras rotinas? Acredito que são bem mais que isso: são páginas de beleza, pulmões de identidade.

A Micro-História de uma simples rua como esta pode ser mesmo uma obra de arte. O espírito do lugar, já o dizia Françoise Choay, também é matéria artística. Que quer dizer uma imagem? Que quer dizer um conceito?  Que quer dizer uma rua? Tantas coisas.

 

Agradecimentos a todos os que comigo discutiram o assunto e enriqueceram a pesquisa com opiniões e testemunhos: a António Monteiro, Clemente Galvão, Eduardo Tavares, Graça Maria Padinha, Isabel Claudino Santos, Jorge Semedo de Matos, José Raimundo Noras, Luís Mata, Manuela Marques, Martinho Vicente Rodrigues, Nuno Domingos e Raúl Violante, o meu obrigado.

Nesta rua, que pertence indelevelmente às minhas memórias desde tenra idade, nasceu minha Mãe Maria Virgínia Guimarães da Silva a 13 de Novembro de 1926 em casa que já não existe, defronte das Escadinhas do Milagre.

 

NOTA: Devo ao amigo António Monteiro outra tradição para o nome Rua da Amargura: dever-se-ia ao facto de no século XIX lá existir uma casa de prostitutas que era sujeita a visita regular do médico da Misericórdia.

Quanto aos Passos, um artigo de Mário de Sousa Cardoso no Correio do Ribatejo de 31-8-1998, para o qual me chamou a atenção, regista a demolição dos vários altares dos Passos que existiam nas ruas da cidade. Segundo documentos camarários de 1880 a 1897, foram destruídos (por obstruírem ruas ou já não terem utilidade devido às desactivação das procissões) vários Passos: junto ao mosteiro de São Domingos, defronte da igreja da Misericórdia, e à entrada da praça de Marvila. O do largo do SS. Milagre foi, pelas mesmas razões, deslocado para a fachada da igreja.

 

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