Recentemente beneficiada por obras de conservação e restauro, a igreja da Misericórdia da vila de Pernes é um dos exemplos mais interessantes de erudição arquitectónica seiscentista da Diocese de Santarém, com a sua traça unindo o desenho em ‘estilo chão’ à cultura clássica de inspiração tratadística, que se rnato especialmente visível no monumental arco de pedraria que abre para a capela-mor e na sua cenográfica cúpula apainelada.

Esta Santa Casa remonta a 1587, quando uma antiga confraria do Espírito Santo deu origem à actual Misericórdia, dando-se começo à construção da igreja em pleno Rossio da vila. Tal é descrito pelo historiador Simão Fróes de Lemos (1726) com larga dose de pormenores sobre o investimento que moveu as confrarias locais na obra do «formoso templo», que correu célere. Em meado do século XVII, uma ampla reforma construtiva deu à igreja a sua feição actual, incluindo o revestimento de azulejos de padronagem polícroma da nave e do arco cruzeiro (incluindo o painel da ‘Mater Omnium’ no pano da fachada), bem como o conjunto de telas que o pintor santareno Miguel Figueira aqui veio pintar e foram recentemente beneficiadas pela empresa de conservação e restauro Capitellum.

Tais obras de arte mostram que os provedores, mesários e benfeitores desta instituição de fraternidade alinhavam no século XVII pelo gosto estético dominante no Reino, o estilo proto-barroco, e tinham recursos para se rodearem de bons artistas. Um desses benfeitores será o que se fez misteriosamente retratar, com sua cabeleira e óculos, na base do púlpito e que mereceu, aliás, análise numa destas crónicas (Correio do Ribatejo de 6 de Abril de 2024).

É sobretudo a erudição da arquitectura que merece o primeiro destaque por parte dos visitantes mais atentos: integra um imponente arco triunfal porticado, de boa pedraria lavrada, com cunhais em ‘rusticado’, e uma capela-mor coberta de cúpula com caixotões assentes em tambor e trompas de ângulo (estas, com quatro telas representando o quatro Evangelistas, pintadas Miguel Figueira). Tudo revela o risco de um bom arquitecto ainda de educação maneirista (um Couto, ou um Frias) conhecedor dos tratados italianos, como os de Sebastiano Serlio e Pietro Cattaneo, e da prática da engenharia militar.

Mas é o grande painel da parede direita da capela-mor da igreja que merece agora a nossa atenção. Sempre me intrigou esta composição de desconcertante temática profana, constituindo por isso mesmo uma presença inusual numa Misericórdia portuguesa… O que se representa em interpretação iconológica pode e deve ser uma ‘Alegoria à Fundação da Misericórdia de Pernes’. A cena decorre num ambiente tenebrista no interior de um salão com mobiliário singelo e um pavimento em perspectiva (que será o antigo Definitório da Santa Casa). Vemos, à esquerda da composição, a chegada de um cavaleiro e, no exterior, um pajem que segura a montada cansada da viagem. O nobre personagem, ataviado a rigor, penetra na sala e faz-se anunciar por um jovem lacaio a um homem idoso, trajado de negro, que repousa num cadeirão de espaldar, à direita, em pose de meditação, aguardando a visita ilustre. Poderá tratar-se da evocação do primeiro Provedor da Santa Casa, cujo nome não chegou aos nossos dias…

Estranha representação esta, de facto. Nada existe de similar em nenhuma outra das Misericórdias portuguesas. De que se pode tratar? Será uma alusão a um acontecimento de importância local, sem dúvida. Inclino-me para o anúncio oficial do alvará régio de 23 de Maio de 1594 pelo qual Filipe I de Portugal confirmou a fundação da Santa Casa local a partir da antiga Confraria do Espírito Santo. Na ocasião, teria vindo um emissário desde Lisboa trazendo a boa nova, muito bem acolhida na vila.

Defronte desta pintura, uma outra grande tela, também de cabeça semicircular, encima a tribuna dos irmãos e mostra-nos uma outra iconografia incomum nas Santas Casas de Misericórdia portuguesas: a Parábola do Filho Pródigo. Trata-se, neste caso, da Alegoria ao Bom Acolhimento, uma referência à Obra Corporal de Misericórdia que manda «Abrigar os Peregrinos e Viajantes» — um tema de máxima actualidade neste nosso tempo em que a exclusão e a xenofobia imperam em níveis absolutamente insuportáveis…

Posso atestar que ambas as telas são de Miguel Figueira, artista activo entre 1639 e 1690, pintor da Câmara Municipal de Santarém, com obras na Misericórdia de Torres Novas (1640), na igreja do Santíssimo Milagre (1646), na das Abitureiras (c. 1660), na ermida da Senhora da Graça em Póvoa de Cós (1670) e na actual quinta de Nossa Senhora da Saúde. Deve ter nascido por volta de 1620 e cedo se mostrou convertido ao gosto do tenebrismo proto-barroco, por corresponder àquilo que a necessidade do mercado religioso exigia. Penso que a passagem por Santarém em 1633-34 do pintor lisboeta Gregório Antunes, seu possível mestre, o marcou (veja-se o Correio do Ribatejo de 26 de Janeiro de 2024). Ademais, embora seja pintor de bitola secundária, é interessante que manifestasse pruridos de «artista liberal», pois em 1641 reivindicou em nome da «nobreza da Pintura» o lugar de irmão de primeira condição na mesa da Misericórdia de Santarém, vendo preterida a sua corajosa demanda (sobre esse litígio, veja-se o Correio do Ribatejo de 27 de Outubro de 2023).

Além de pintor de óleo, Miguel Figueira era também hábil nas modalidades de fresco e brutesco. Em 1652-53 foi responsável da pintura de arcos e colunas da igreja do Milagre (onde já pintara, em 1646, as quatro grandes telas da nave). Aquando do restauro recente da igreja da Misericórdia de Pernes, apareceram na tribuna, sob os rebocos, uma convencional figuração de São Francisco de Assis a receber os estigmas e uma decoração de brutescos, esta última com motivos similares à que Figueira pintou na referida igreja de Santarém.

A cronologia das telas da Misericórdia de Pernes anda próxima de cerca de 1660, data em que a nova capela-mor se erguia (existe uma data de 1665 gravada no arco triunfal, que atesta o término dessa campanha). Embora de discreto pincel, inscrevem-se no gosto tenebrista dominante nos programas de encomenda sacra da Contra-Reforma. O grau de profanismo que envolve o tema da alegoria fundacional, aliás, não deixa de assumir um profundo significado religioso, tal como os mesários de então pretenderam registar deixando assim memória arcana das suas origens.

A Micro-História vive de subtilezas e sobrevivências (grandes historiadores como Emmanuel Leroi-Ladurie ou o recém-falecido Carlo Ginzburg deixaram-nos páginas luminosas dessa via de pesquisa). Saber ler os sinais da História local é caminho ingrato, difícil, suado, mas o único que assegura bons frutos. Percebemos melhor os homens, a sociedade, as ideias, os amores, as crenças e os medos. A Ciência Histórica faz-se de pequenos indícios, de minúsculas luzes que brilham na penumbra. O ofício do investigador em História devia ser sempre a interrogação desses sinais, por mínimos que sejam.

Também em História da Arte tudo começa assim. Antes dos mais altos voos que as ‘grandes obras’ solicitam, urge saber dialogar com todas as formas, gestos e sinais com significado, mesmo que se trate de produção regional dita ‘menor‘. Sob esse prisma olhei para este quadro de Pernes (que não é nenhuma obra-prima, bem longe disso) para sentir o peso de uma ‘petite histoire’ local considerada digna de ser pintada para a posteridade, mas cujo sentido a desmemória fez, entretanto, esquecer…

O que vemos é a recepção a um ilustre cavaleiro que vem da corte de Lisboa anunciar uma boa nova. Tratou-se de legitimar a fundação de uma irmandade através do alvará régio que a vinha creditar ‘ad aeternum’ para gáudio das populações. A leitura iconológica permite agora avançar mais no seu conhecimento. Sim, as obras de arte falam. Precisam dos interlocutores, do tempo demorado do olhar. E, por vezes, falam.

 

Agradecimentos penhorados a Raúl Violante, Presidente da Junta de Freguesia de Pernes, e a Manuel João Maia Frazão, Provedor da Santa Casa de Misericórdia, pela oportunidade da visita, e também a Vicente Batalha (homem das Artes do Espectáculo e autor de um recente livro de metamorfoses e memórias, em que a sua Pernes naturalmente brilha), a António Monteiro, e a Pedro Raimundo (da União das Misericórdias Portuguesas), pelas opiniões trocadas envolvendo esta minha pesquisa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

Uma Cripto-História de Santarém (64) – Uma Pia de Água Benta de ignoto significado na Igreja Matriz de Malhou (Alcanena)

A igreja do Espírito Santo, matriz de Malhou, aldeia integrada na União de Freguesias de Malhou, Louriceira e Espinheiro, no Concelho de Alcanena, é…

Uma Cripto-História de Santarém (66) – O Retábulo dos antigos Paços do Concelho de Santarém em 1638

Situado no largo Visconde Serra do Pilar, na chamada Praça Velha, pulmão da antiga vila, e defronte do flanco esquerdo da igreja de Marvila,…

Uma Cripto-História de Santarém (62): A imagem de São Bernardo de Claraval na aldeia do Espinheiro (Alcanena) e as suas influências antroponímicas

A igreja de Nossa Senhora das Encarnação do Espinheiro, aldeia rural do Concelho de Alcanena (hoje integrada na União de Freguesias de Malhou, Louriceira…

Uma Cripto-História de Santarém (74): Uma esquecida lenda Antoniana na Santarém do Século XIV

A aura lendária que envolve Santo António de Lisboa, o mais popular santo do hagiológio nacional, nascido em 1195 na capital portuguesa com o…