Antiga capela de Santo António no Mosteiro de São Francisco (século XIII).

A aura lendária que envolve Santo António de Lisboa, o mais popular santo do hagiológio nacional, nascido em 1195 na capital portuguesa com o nome de Fernando de Bulhões e falecido em Pádua em 1231, é uma coisa absolutamente extraordinária ! Contam-se às dezenas os milagres e intercessões atribuídos ao monge franciscano, que deram origem a uma iconografia artística muito variada e extensa e que conta em Portugal e nos seus espaços de influência com incontáveis testemunhos.

Encontramo-lo, assim, representado em escultura, em pintura, em azulejo, em gravura, em medalhas, em têxteis, em peças de ouro e prata, em desenhos, em iluminuras, etc. Ora o vemos a pregar aos peixes, a curar a perna amputada de um jovem, a salvar o pai da forca depois de bilocular entre dois sítios, a restaurar o cântaro de uma menina que se quebrara, a discursar em todas as línguas imagináveis, a falar com o Menino Jesus que lhe surgiu em orações, a livrar pessoas endemoninhadas, a converter os hereges albigenses, a saír ileso de uma tentativa de envenenamento, a recuperar um livro furtado numa biblioteca, a curar um menino caído no caldeirão fervente, a salvar um operário de ser esmagado por uma pedra, a achar o anel perdido do bispo de Córdova, a assegurar o casamento de uma jovem rejeitada por um nobre, a restaurar um campo de trigo maduro que fora destruído, a recuperar as uvas de uma videira sem frutos e, como se não bastasse, ainda o vemos como militar com soldo a proteger os exércitos portugueses em várias batalhas contra espanhóis e holandeses, turcos e gentios…

Face a tantos milagres, que atingem a meia centena, e sendo tanta a popularidade granjeada pelo santo taumaturgo, o papa Gregório IX procedeu à sua canonização em 1232, um ano volvido sobre a sua morte, dando início a um culto de escala globalizada que se mantém muito vivo por todo o Mundo. Dos muitos ciclos de arte franciscana portuguesa que representam uma parte destes milagres, as pinturas setecentistas da igreja de Santo António em Lagos constituem um bom exemplo dessa riqueza iconográfica. E os grandes artistas não deixaram de dar testemunho da figura do santo, considerado padroeiro de Lisboa, em óptimas representações eruditas. Mas os testemunhos de arte, devoção e fé assumidos pela iconografia antoniana estendem-se, também, aos ex-votos populares (estudados pelo padre Henrique Rema), aos azulejos historiados (estudados por Joaquim Eusébio), aos registos cerâmicos (estudados por Margarida Almeida Bastos e Fernando Peixoto Lopes), às figurações militares do santo (estudadas por Maria Adelina Amorim e Augusto Moutinho Borges) e aos tradicionais ‘Tronos de Santo António’ das festividades e dos peditórios. No concelho de Santarém temos a assinalar, com bom exemplo de ciclo antoniano, as pinturas maneiristas da Capela de Santo António em Pernes que narram cinco milagres do santo.

Santo António, com as armas de Portugal (xilogravura alemã do século XV, Oxford); desenho do santo milagreiro (pintor Rouslan Boniev, 2012); e milagre da mulher endemoninhada de Santarém (artista-artesã Graça Padilha, 2025)

É justamente em Santarém que se situa um dos milagres menos conhecidos que envolvem Santo António. Numa cidade com tantas lendas históricas, esta é aliás a mais esquecida. A tradição situa-a no Mosteiro de São Francisco, erguido a partir de 1242 junto ao Chão da Feira, e muito beneficiado no fim dessa centúria por réditos de D. Afonso III e D. Dinis. Uma das primeiras capelas aí erguidas foi, naturalmente, dedicada a Santo António (a primeira do lado da Epístola). Aí se acha a sepultura de Estêvão Anes (1290), e se admira uma bem lançada abóbada artesonada, bem como vestígios de uma arcaria ogival, elementos que mostram a sua ancianidade e importância gótica primeva.

A lenda conta que nesse Mosteiro se venerava uma antiquíssima imagem de Santo António, em madeira policromada, com cinco palmos de altura. A dita imagem ainda existia no reinado de D. João V, embora «já tão velha, que para se lhe encobrir alguns defeitos, que lhe teem causado os dilatados tempos da sua existência, a devoção dos fieis, para lhe disfarçar a sua muita antiguidade, lhe vestem por cima da mesma escultura, outro habito de seda, e téla…». Deixa de ser referida nas fontes posteriores e ter-se-á perdido com o esvaziamento dos acervos do Mosteiro aquando da exclaustração pós-1834.

Um dos cronistas do mosteiro, o Padre Inácio da Piedade e Vasconcelos (1676-1747), refere a existência da imagem e o peso que assumia nas devoções locais, inspirando actos de intercessão. É precisamente este reputado escritor, académico e também artista (foi amador de arquitectura e escultor de barro) que no célebre livro ‘Historia de Santarem Edificada’ (Lisboa, 1740, Parte II, Cap. XVIII, pp. 192-195) nos descreve este pouco conhecido milagre de Santo António, alegadamente ocorrido nessa capela em tempos do rei D. Dinis.

O que nos conta o bom padre Inácio é que a milagrosa imagem, coeva da fundação do Mosteiro, tinha feições de tal modo atraentes que, «enfeitiçando os coraçoens de quem o vê, lhes acende na alma as chamas da mais fervorosa devoção».  Assim sucedeu com uma mulher que, diz a sua crónica, «trazia no corpo o inimigo comum de nossas almas, que a molestava terrivelmente», com a presença do Diabo a atormenta-la e, «com tal astucia e subtileza do maligno espirito», a recomendar-lhe o suicídio como única forma de expiar pecados antigos e aceder à salvação.

No dia de Santo António, a mulher decidiu ir afogar-se num pego junto ao Tejo, cumprindo a ordem diabólica, mas entrou antes na igreja de São Francisco para orar na capela do seu santo de devoção. Sucedeu então o prodígio: a imagem de Santo António, com as mãos erguidas para o céu, provocou na mulher um leve sono, e esta, ao despertar, achou ao pescoço um escrito do santo avisando-a contra «o engano do tentador» e com umas palavras latinas contra a tentação do demo: «Ecce Creucem Domini: fugite partes adversae»… Logo se arrependeu do acto que ia cometer, afastando o demo…

Esta é a lenda miraculosa que mostra Santo António a livrar uma pobre mulher, na Santarém do século XIII, da tentação demoníaca que a iria levar ao suicídio. Mais diz o padre Inácio que o rei D. Dinis, estando em Santarém e sabendo do sucedido, pediu o «escrito» para ser preservado entre os tesouros de relíquias na Corte. A imagem, essa, logo cresceu em popularidade e devoção por parte das pessoas: «ficou esta santa Imagem tida em grande veneração, não só do povo daquela Villa, mas de todas as pessoas que sabem dos seus prodígios, pois se tem averiguado não haver anno algum, que deyxe de fazer milagres».

Consta, enfim, que em 1619 Filipe II de Portugal (III de Espanha), ao visitar o Reino, e sabendo deste antigo milagre de Santarém, teria pedido a imagem do Menino Jesus que Santo António largara dos braços ao erguer as mãos para o céu, e que os frades tinham resguardado, para a levar para Castela. Mas se o fez ou não, minguam as referências. O probo Inácio da Piedade e Vasconcelos duvida mesmo dessa tradição, a que não se pode dar «inteiro credito…, pois não o achámos escrito em papel algum».

Não acho rasto deste milagre de Santo António – mais um ! – na vasta bibliografia dedicada aos prodígios antonianos, desde Francisco da Gama Caeiro, a Fernando Félix Lopes, Henrique Rema, Nicha Ganho, Maria Adelina Amorim, Joaquim Eusébio e outros estudiosos da vida, milagres e iconografia do santo. Por isso, numa terra como Santarém, onde o lendário é não só abundante como dele se perpetuaram tantos ecos através da iconografia artística, o milagre da mulher endemoninhada salva por Santo António é merecedor de uma referência. Mesmo que a imagem que deu corpo à lenda se perdesse, e que não tivesse havido iconografia a rememorar o alegado prodígio, trata-se de um raríssimo milagre de Santo António que o tempo esqueceu…

 

Nota final 1: na ausência de quaisquer representações iconográficas desta lenda miraculosa, a artista Graça Maria Padinha, artesã-escultora de Santarém, entendeu recriá-la no âmbito de um ciclo sobre ‘Lendas de Santarém’. Neste caso, por falta de iconografia antiga, a artista propôs-se destacar, em interpretação livre, a singularidade fantástica da figura da endemoninhada, aliando o conflito entre a tentação e a conversão ao sentido narrativo da história.

Nota final 2: na anterior Crónica nº 73, erradamente numerada como 72, faltou a referência final ao facto de o manuscrito inédito de Alexandre Herculano vir integralmente transcrito e estudado no livro de Vítor Serrão e Mário Rui Silvestre ‘Manda-me Amor Camões…’ (Edições Cosmos, 2026).

Acresce o facto de que no próximo ano decorrem 150 anos sobre a morte do grande historiador, em 1877, o que impõe da parte da Câmara Municipal de Santarém um programa adequado para assinalar a efeméride.

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