Entre as muitas peças que se acham em reserva no núcleo arqueológico do Museu de São João de Alporão, em Santarém, existe um relevo do fim do século XV que representa, inserido numa moldura rectangular, um «homem silvestre» de feições rudes, vestido de folhagem, com a maça de pedra na mão direita e segurando um escudete com as armas de Avis. 

Trata-se de uma peça escultórica (nº de invº MMS/000432) que integrava a cimalha de um arco situado junto aos Paços do Concelho (na praça de Marvila), de há muito desmantelado, e que a tradição local identificava com tratando-se do príncipe Abidis, o mítico fundador de Scálabis, filho do herói grego Ulisses e da princesa Calipso. 

Estamos no auge da Dinastia de Avis e no impacto da política expansionista em que este tipo de iconografia medieval ganha novo fulgor justamente por evocar os ‘outros’, os povos estranhos do Universo, em busca de sentidos precisos de identificação.  É deveras inusual, no caso desta escultura, a apropriação da figura do Homem Selvagem como referência ao alegado fundador de Santarém. 

 A identificação deste Homem Silvestre como Abidis, assim dando nome ao arco de que fazia parte decorativa, explica-se como um esforço local para assinalar a ancianidade da vila, integrando a figura do príncipe, filho de Ulisses, como espécie de herói escalabitano responsável pelo seu nascimento e fama e, mais ainda, pela sua equívoca designação toponímica: Scala Abidis, identificada como terra de Abidis ou escada de Abidis.

Trata-se, todavia, de mais um exemplo de uma iconografia de sinal fantástico que surge com abundância na arte medieval europeia ligada a mitos muito enraizados nas populações: uma versão do sátiro da mitologia clássica, do deus Silvano dos bosques, do famoso Green Man dos mitos arturianos ou, mesmo, do anacoreta santo Onofre da hagiologia cristã. Tudo isto mereceu a Ernst Gombrich, aliás, uma análise sobre o sentido psicológico deste tipo de representações na arte europeia do fim da Idade Média.  

Na arte portuguesa do século XV (e ainda no XVI), em tempo de Expansão ultramarina, o tema ressurge com suas fortes reminiscências mediévicas ligadas ao imaginário dos contos de cavalaria e das misteriosas criaturas das florestas, mas também como reflexo da aproximação a outros povos. Autores como Paulo Pereira, Pedro Dias, Fernando António Baptista Pereira, Maria José Goulão, Luís António Mata, Carla Varela Fernandes, Dionísio David, Carolina Proença e Joana Antunes, entre outros, estudaram estas representações na nossa arte decorando arcos, abóbadas, altares, capitéis historiados, túmulos, ou animando com seu tónus exótico as iluminuras do Gótico e do ‘Gótico-manuelino’. 

 Com o Renascimento nascente, todavia, esta estranha figuração com ressonâncias pagãs das lendas do Rei Artur passa a identificar os povos antediluvianos do planeta dotados de bondade inata e desprovidos da mancha do pecado original, tal como defendia o Humanismo cristão. Ou seja, a literatura e a arte tenderam a racionalizar o mistério fantasista destes exóticos ‘green men’ silvestres e a humanizar o seu sentido de eternos bárbaros, reconfigurando-se a sua simbologia com a nova ideia do Bom Selvagem. Independentemente do acerto destas interpretações por parte de alguns humanistas dos séculos XV-XVI, esta é matéria que exige aprofundamento tanto inventarial como de contexto teórico – e, neste âmbito, a peça escultórica de Santarém ganha interesse especialíssimo, até pelas suas referências abidianas ao mito fundacional da vila, merecendo esse especial esforço de interpretação histórica, iconológica, política e simbólica.

Como atestam Maria Ângela Beirante e Luís António Mata, a redefinição urbana operada no fim do século XV e início do XVI nos bairros da vila, com inerentes mudanças topográficas, pode explicar reformulações, como a do chamado Arco de Abidis, no contexto das medidas de reorganização das Mourarias e como marca da absorção desses espaços pelo poder concelhio. Por isso a Ordem de Avis, onde assentava o poder dinástico de então, tinha presença patrimonial e jurisdicional na vila, o que justifica o escudete que o Homem Silvestre ostenta. Tal destaque dado às armas de Avis na escultura que rematava o arco no acesso à antiga Mouraria só pode mesmo reflectir o peso do poder régio da Segunda Dinastia portuguesa na economia da vila santarena. Deve seguir-se esta pista certeira, que explica muita coisa, inclusive a referência popular ao mito fundacional.

A existência desta pedra relevada num lugar público de Santarém, a própria praça de Marvila, junto ao Senado municipal e ao espaço da feira com a designação de Arco de Abidis (ou seja, no centro nevrálgico da vila) parece mostrar, também, que aqui se seguiam com atenção os debates do Humanismo quatrocentista em torno de uma ideia inclusiva ligada à bondade da Expansão em curso. Ou seja, os artistas então activos na vila souberam integrar o tema do Homem Silvestre na sua agenda repertorial, dando-lhe sentidos identitários e ideológicos precisos. 

Era importante assumir a fundação de Santarém como derivada da passagem de Ulisses, após a guerra de Tróia e em busca da sua ilha de Ítaca, quando fundou Lisboa e teria tido um filho, Abidis, gerado com a princesa Calipso, filha de Gorgoris, rei dos Cunetas. Seria esse menino, lançado ao rio numa cesta que subiria o Tejo, e salvo e alimentado por uma loba (ou corça, em variação da lenda), quem viria a fundar Santarém (Scala-Abidis) algures no século XI ou XII a.C., tornando-se o seu primeiro rei lusitano ! Um dos autores que mais força deu à lenda de Abidis foi o cronista alcobacense Frei Bernardo de Brito na sua célebre Monarquia Lusitana (1597). Seguiram-lhe o rasto os cronistas de Santarém do século XVIII. Já para os santarenos do tempo dos chamados Descobrimentos, reforçar esse mito das suas próprias origens fazia todo o sentido. Trata-se todavia (como hoje está plenamente demonstrado por autores como Luís Mata) de um erro de leitura paleográfica já detectado e corrigido, mas que se arrastou no tempo e se tornou um mito fundacional… 

O chamado Arco de Abidis foi demolido em 23 de Fevereiro de 1876, segundo refere o sempre bem informado Cónego Joaquim Duarte Dias em nota manuscrita no Arquivo da Misericórdia de Santarém, onde também assinala a identificação popular que era dada ao Homem Silvestre como o alegado filho de Ulisses. Outra fonte imagina o relevo como sendo João Santareno, o Rey Pelayo, alcaide de Santarém, ostentando as Armas da Vila. Estas efabulações não têm suporte histórico e documental, como se disse, mais do que as asas fantasistas do mito… 

Que a ‘vox populi‘ transformasse o Homem Silvestre do Arco do Senado em improvável príncipe Abidis, essa é a mesma história tão recorrente em outras cidades (veja-se a Lisboa/Ulisipo…) quando se fala do peso das memórias fundacionais na vida dos povos… Falsa que seja, merece ser criticamente memorizada e, como tal, lembrada. Daí o grande valor histórico, iconográfico, iconológico, artístico e simbólico do relevo de Santarém que aqui se estuda e que bem merecia estar exposto.

 

NOTA 1: Agradeço ao historiador Luís António Mata (CMS) a cedência da fotografia da peça e as informações facultadas a seu propósito, bem como a António Monteiro, Eduardo Tavares, Graça Padinha, Higino Faria, Paulo Renato, José Raimundo Noras, Ricardo Costa e Nuno Domingos as conversas frutuosas sobre o significado desta pedra e o pretenso mito fundacional de Santarém.

 

NOTA 2: A maça de pedra que o Homem Silvestre ostenta é, afinal, uma tosca ramagem arbórea do tipo das que surgem, por exemplo, nas estelas sepulcrais quatrocentistas de freiras da Ordem de Avis, expostas no Museu Arqueológico de Alcanede…

 

BIBLIOGRAFIA: E. H. Gombrich, The Sense of Order: A Study in the Psychology of Decorative Art, London, Phaidon, 1984; Maria Ângela Beirante, Santarém Medieval, Lisboa, 1980; idem, Santarém Quinhentista, Lisboa, 1981; Paulo Pereira, A Obra Silvestre e a Esfera do Rei: Iconologia da Arquitectura Manuelina na Grande Estremadura, Coimbra, 1990; Dionísio David, Escultura Funerária Portuguesa do Século XV, Lisboa, FCSH, 1990; José Miguel Correia Noras (coord.), Catálogo, in S. João de Alporão na História, Arte e Museologia, Santarém, 1994, pp. 145-165; John Matthews, Quest for the Green Man, Spirit of Nature, London, 2001; Manuel J. Gandra, Portugal Sobrenatural: Deuses, Demónios, Seres Míticos, Heterodoxos, Marginados, Operações, Lugares Mágicos e Iconografia da Tradição Lusíada, Lisboa, Ésquilo, 2007; Carla Varela Fernandes, A Imagem de um Rei: Análise do Túmulo de D. Fernando, Lisboa, 2009; Luís António Mata, in Modos, medos e mitos no tempo de Cabral, exp., Casa do Brasil, Santarém, 2015; Joana Antunes, O Limite da Margem na Arte em Portugal (Sécs. XIV-XVI), Univ. de Coimbra, 2016; e Carolina Proença, Entre as Folhas: O Homem, os Monstros e os Animais Verdes na Arte Medieval Portuguesa (Séculos XII-XV), Lisboa, FCSH, 2021.

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