Em 1976, o pintor Eurico Gonçalves (1932-2013), professor do ensino primário e nome destacado do chamado ‘automatismo surrealista’, publicou um livro chamado ‘A Pintura das Crianças e Nós’ (Porto Editora) onde valorizou o ensino das artes como essência da formação dos mais jovens.

Nessa obra pioneira, o Eurico (com quem muito privei) definia a perspectiva pedagógico-artística de que a Escola falecia e falece desde as suas primícias no que toca ao ensino primário e mesmo pré-primário, lembrando a importância do inconsciente criativo. Defendia, assim, o papel da Educação pelo Desenho, a Modelação e a Pintura e, mesmo, a presença de conhecimentos básicos da História da Arte nos programas escolares de 1º ciclo.

As metodologias de aprendizagem que conduzem ao pleno desenvolvimento dos mais jovens eram, assim, a agenda primordial deste professor-pintor, um reconhecido especialista no conhecimento da expressão plástica das crianças. A designação da Escola Básica Eurico Gonçalves, no Lumiar, é um exemplo da homenagem que Lisboa prestou ao seu legado pedagógico.

De facto, o pulsar das artes está inscrito nas profundezas do nosso mundo interior, o que o torna a razão de ser da Psicologia da Arte e, naturalmente também, do Ensino Artístico quando dotado da sensibilidade que, já em 1945, Jean Dubuffet encontrava na dimensão daquilo que chamou ‘Art Brut’, a criação que nasce em quem está indemne de cultura artística, caso das crianças, ou seja, a «operação pura» que nasce dos próprios impulsos (in ‘L’homme du commun à l’ouvrage’, ed. 1973). Atento a Dubuffet, o Eurico falava também das experiências da médica brasileira Nise da Silveira (1903-1999) no célebre Museu das Imagens do Inconsciente, por si criado, destacando as ligações íntimas entre Pintura, Psicologia da Arte e História Crítica das Artes com os mecanismos do Inconsciente Criativo na formação das crianças através do Desenho.

É neste contexto que olho com surpresa, e também com inexcedível prazer, para a «estátua» de Luís de Camões que os alunos do Jardim de Infância da freguesia de Achete (Santarém) produziram em data recente para ornar o jardim-escola que habitam todos os dias, sob estímulo da sua professora, a Educadora de Infância Joaquina da Conceição, e sob orientação artística do Pintor Carlos Amado. Trata-se de uma escultura (pois disso se trata…) onde vinte e seis crianças de várias nacionalidades, entre os três e os seis anos de idade, pensaram Camões com olhos de ousadia e de irreverência, assim associando a sua escola às comemorações nacionais do nascimento do vate.

A peça, construída em materiais recicláveis, é de uma estranha beleza, mostrando a figura do poeta em pose instável, com seu gibão vermelho de mangas golpeadas, com o brilho e loucura de um D. Quixote ou mesmo de um Polifemo, a segurar na mão direita o tomo manuscrito de Os Lusíadas (moldado numa tela ornada com uma caravela) e com a pena insolitamente colocada na mão esquerda. À inocência primaz do acto criativo junta-se o tónus de irreverência: surgiu um Camões que nem é o herói mitificado pela historiografia tradicional nem, muito menos, o pobre poeta usado e abusado como bandeira de velhas glórias imperiais…

Esta peça acrescenta à longa lista da iconografia artística que desde o século XVI tem imaginado o retrato do Príncipe da Poesia portuguesa uma interpretação deveras interessante. Camões nasceu em 1524, talvez em Santarém conforme às mais recentes e fundadas hipóteses, e faleceu em Lisboa em 1580 (ou em 1579) pobre, enfermo e precocemente envelhecido. Dele só se conhece um retrato executado em vida, uma imagem triste e melancólica criada pelo pintor Fernão Gomes que fixou a efígie do poeta nos últimos anos de existência. A interpretação dos meninos de Achete não segue essa iconografia e afasta-se, também, das figurações tradicionais do século XVII com a coroa de louros, a espada e a couraça de soldado (por Manuel de Faria e Sousa, Adrian Pauwels, Pedro de Villafranca ou Richard Fanshaw).

O Camões do Jardim Infantil de Achete devolve-nos a figura de um Camões em traços e formas de grande ousadia: a imagem do génio incompreendido, do intelectual incómodo, do miserável vagamundos que mira o futuro com a convicção de um iluminado.  Com as devidas distâncias, quase nos faz lembrar, pelo desespero do olhar enlouquecido, os traços de Domingos Sequeira nos estudos para a tela ‘A morte de Camões’, o célebre quadro que levou em 1824 ao Salon de Paris…

As crianças que assim repensaram a figura de Camões (seguindo na orientação geral a batuta do Pintor Carlos Amado) não conheceram por certo a iconografia citada, mas perceberam como dar forma ao génio do poeta. E que forma? A do drama pessoal de um homem perdido nas tempestades do Mundo, mas que ousou pensar a mudança dos tempos e das vontades com o coração inflamado de utopias: «o mundo carregado de mudança».

E a este propósito, merece citação o livro de Frederico Lourenço ‘Camões — uma Antologia’ (Quetzal, 2024) e o surpreendente anexo onde, a pp. 625-630, imagina o verdadeiro retrato do vate. Trata-se de uma inesperada ficção em torno de um retrato de Camões mandado fazer pelo conde de Linhares, que Frederico Lourenço corporaliza num improvável pintor chamado Simão Vasques que está prestes a terminar o retrato do vate. Estamos no dia 24 de Junho de 1578, num palacete dos Noronhas, em Alfama, «sob uma brisa perfumada de cravinho e canela e um cheiro de pão a cozer»; a dada altura, surge este imaginário diálogo: «…Estará a dizer que favoreci ou que abrutalhei Luís Vaz? Transfiro o meu olhar do Camões vivo para o Camões pintado na tela. Cabelos: pouco abundantes, ruços e grisalhos. O olho que lhe resta é claro, azulado. Não é um homem belo, de forma alguma. Mas mesmo assim granjeou a estima dos gémeos (filhos do conde): aos olhos deles, ele é Aquiles, é Eneias, é Viriato. ‘Cruel é a vossa imaginação de pintor, Simão Vasques. E feros são vossos pincéis’. D. Fernão olha-me sem mover o rosto, direcionando para mim tão-só os olhos. Depois diz:.. ‘Um Polifemo aqui pintaste, um mostrengo, um Adamastor’».

Pois é mesmo esta imagem de Camões-Polifemo, Camões-Adamastor, Camões-anti-herói, Camões-marginal, Camões-Velho do Restelo que encontro na figura moldada pelas crianças da aldeia de Achete. Este é, diria mesmo, um dos mais interessantes e insólitos Camões criado por artistas em tempo de comemorações nacionais! Daí a razão de ser de uma crónica que, fugindo às temáticas dominantes nas oitentas anteriores, não deixa de tratar de um mesmo assunto na dimensão dos seus múltiplos afluentes: a força perene do discurso das artes.

Volto a Eurico Gonçalves, que conheci através do crítico de arte Rui Mário Gonçalves (1934-2014), seu irmão e meu colega na Faculdade de Letras. Ouvi-o muitas vezes discorrer sobre o tema da Educação pela Arte e pelo imperativo de a situar precisamente ao nível do ensino das crianças. Ele lembrava, também, as abordagens pioneiríssimas do médico alemão Hans Prinzhorn, autor do célebre ‘Artistry of the Mentally Ill’ (1922), onde o diagnóstico para enfrentar a esquizofrenia e as doenças mentais advinha justamente da Pedagogia Artística, tal como recomendado no ensino das crianças. O alvo do aprendizado era sempre a inocência, matriz e fonte dos imaginários da criação. Eram (e são) também campos perigosos; sabe-se aquilo que, com a investida de Hitler contra as ‘artes degeneradas’, sucederia a Prinzhorn, mais um intelectual entre as milhentas vítimas da barbárie fascista…

As novas gerações do Pós-Guerra vieram valorizar o ensino da criação artística como forma eficaz de aprendizagem dos mais jovens. Acontece que as artes têm coração: com a sua prática espontânea e com o estímulo à criação livre, e à sua fruição, aprende-se mais facilmente a desenvolver as capacidades e a adquirir princípios de plena cidadania. A eficácia do método pedagógico está absolutamente comprovada, mas tal precisa de ser enfatizado quando vemos nos nossos dias a brutal regressão que decorre de um ensino sem professores e com recurso à Inteligência Artificial e a outros equipamentos de uma pedagogia com alma absolutamente deslocada.

É raro ver artistas tão jovens como estes meninos de uma escola de periferia (Achete) a fugirem aos discursos tradicionais da História oficial que impuseram a imagem do poeta como o incontestado Herói da Pátria. Por vias distinta, os alunos do Jardim de Infância desta aldeia santarena apresentam uma quase-estátua em que o pobre autor de Os Lusíadas, por sinal canhoto, parece carregar todos os dramas e sonhos do Universo. Será ingénua, ‘primitiva’, sem escolaridade, mas as formas têm audácia, e o olhar do poeta é ardente: sim, é Arte.

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