A igreja de Nossa Senhora da Conceição da Louriceira, aldeia da actual União de Freguesias de Malhou, Louriceira e Espinheira (integrada no Concelho de Alcanena), é um valioso monumento artístico onde o século XVI se mantém com variedade de testemunhos. Foi antiga freguesia autónoma, a que pertenceu também, até 1855, a vila de Pernes, tendo a Louriceira passado de seguida a fazer parte do Concelho de Santarém, do qual se desvinculou em 8 de Maio de 1914 para integrar o Concelho de Alcanena.
A igreja está justamente classificada desde 1996 como Imóvel de Interesse Público. Tanto a sua arquitectura quinhentista como o seu recheio de talha, de escultura e de azulejaria merecem uma demorada visita. Trata-se de um edifício de remotas origens medievais. Diz a tradição que data do século XII e que (embora sem base documental credível) já estava ao culto no ano de 1151, mas nada resta dessas épocas arcanas.
Certo é que tudo o que nela se admira nos nossos dias é muito mais tardio, fruto da reconstrução quinhentista realizada a partir de 1532 e que foi motivada, quase de certeza, pelo efeito do terramoto de 26 de Janeiro do ano anterior, que teve efeitos devastadores em toda a região de Santarém.
A reconstrução deveu-se ao patrocínio de um casal de benfeitores sobre os quais pouco se sabe, Vicente Alves e sua mulher Maria Eanes. As obras tardo-góticas e proto-renascentistas que chegaram aos nossos dias datam dessa campanha iniciada em 1532: espaços com abóbadas artesonadas, as fantásticas gárgulas zoomórficas (estudadas pelo historiador de arte Eduardo Tavares), a pia baptismal, algumas imagens de pedra e os portais lavrados (com fina decoração zoomórfica nas bases).
Já a obra da capela-mor e o risco do altar de São Sebastião, de cunho tardo-renascentista, datam de fase mais tardia, coincidente com o final do reinado de D. João III, podendo ser devidas às encomendas custeadas pelo nobre Lopo Dias Fayn (ou Paim), um cavaleiro da casa real que jaz com sua mulher sob lápide armoriada datada de 1560, à entrada do presbitério. No fecho da cúpula da torre pode ver-se outra data, 1561, a qual situa bem essa fase de aprimoramento artístico do templo. Uma custódia de prata, na sacristia, remete também para essa mesma fase.
Uma terceira campanha, nos meados do século XVII, proveu o notável revestimento da nave com azulejaria de uma rica padronagem polícroma que integra «registos» com cenas marianas e mereceu o elogio especializado de João Miguel dos Santos Simões. Seguiu-se a obra de talha dourada dos novos altares barrocos. A igreja era uma das mais ricas da região, tendo sido depauperada pela passagem das tropas napoleónicas em debandada após a derrota das invasões francesas, a elas se devendo vários furtos e destruições.
Merece destaque nesta crónica uma peça que tem estado mais esquecida e tem o maior interesse. Situado na parede lateral da banda do Evangelho, admira-se um pequeno retábulo pétreo onde se venera a imagem de São Sebastião e que é testemunho da campanha tardo-renascentista realizada cerca de 1560. Esta peça de micro-arquitectura merece cuidada atenção. Não é tanto a presença da escultura do santo, lavrada em calcário policromado, que justifica especial destaque (embora tenha certa qualidade), mas sim a singular morfologia com que o retábulo-nicho foi concebido.
O que tem maior interesse artístico, de facto, é a erudição italianizante do risco clássico do retábulo de pedra, debuxado por alguém formado na nobre arte da Arquitectura e que conhecia os tratados do Renascimento: alguma coisa das Medidas del Romano de Diego de Sagredo (Toledo, 1526), célebre tratado vitruviano que teve duas edições portuguesas (1541 e 1542) e, também, os modelos clássicos apresentados nos I Sette libri dell’architettura (saídos entre 1537 e 1551) do arquitecto bolonhês Sebastiano Serlio. É essa sabedoria de desenho que justifica especial atenção, pois o risco do remate do nicho em forma de reticulado, só por si, é uma versão deveras singular a partir dessas fontes!
O retábulo, lavrado em pedra calcária de Porto de Mós, data de cerca de 1560 e está estruturado com sobriedade de linhas e proporções, envolvendo o nicho central que abriga a escultura do santo. Foi infelizmente repintado, o que exige restauro. O modo como o anónimo tracista compôs a edícula com remate em meia esfera, ornado no remate do nicho com ‘stuffetta’ clássica com filetes doirados (ao invés do tradicional tema da vieira), revela desenho irrepreensível de alguém que possuía, como se disse, conhecimentos de erudição tratadística clássica.
A micro-arquitectura retabulística supera, em efeito de ‘concinnitas’, outros casos que se assinalam nesta região rica em pedreiras, como aquele que um seguidor de Nicolau Chanterenne lavrou na igreja de Santa Cruz da Batalha, ou os que o arquitecto leiriense Pedro Moreira realizou já no fim do século XVI no convento de São Francisco de Leiria e na igreja de São Vicente de Aljubarrota. A tipologia destes nichos-retábulo de cânone renascentista terá continuidade regional (mais simplificada, com remates em vieira) em capelas da região de Alcanede (Mata de Rei, Alqueidão do Rei, Espinheira, Xartinho, Prado) ou na ermida de Nossa Senhora da Tojeirinha em Alqueidão da Serra (Porto de Mós). Vários destes altares pétreos foram feitos em datas anacrónicas já bem dentro do século XVII!
Os artistas do foco coimbrão ligados à esfera do grande escultor João de Ruão (c. 1500-1580) tinham este conhecimento da concinnitas da arquitectura all’antico. Creio que este pequeno retábulo tardo-Renascença da igreja da Louriceira se inscreve precisamente nesse âmbito de influências e nesse ciclo cultural. Ou seja, remete para artista de Coimbra e mostra mais uma vez o cuidado que o templo ribatejano mereceu da parte de quem a reconstruiu (1532) e redecorou (c. 1560) em sucessivas campanhas de gosto aggiornato.
Quanto à imagem de São Sebastião, um protector contra a peste, é uma peça em calcário policromado com 90 cm de altura, infelizmente com repintes. O artista anónimo representou-o desnudo (apenas com o perizónio) e de aspecto muito jovem, com corte de cabelo à romana e cáligas nas pernas, e amarrado a um tronco de árvore nodosa em forma de Árvore da Vida que, como bem observou Ruy Ventura, tem cinco ramos que simbolizam as chagas da Paixão de Cristo. Segundo o mesmo historiador de arte, a imagem da Louriceira, é «…datável da segunda metade do século XVI e nascida decerto em Coimbra no ambiente que acolheu o Renascimento aí inscrito por João de Ruão e espalhado pela sua oficina e pelos seus imitadores».
O facto de se tratar de um santo mártir romano que protege os povos das epidemias explica o surto devocional que São Sebastião também aqui no Ribatejo gerou. Na vila de Azinhaga, por exemplo, ergue-se uma capela que foi dedicada ao santo aquando da grande peste de 1570. Na Quinta do Alviela, nesta aldeia da Louriceira, existia em 1758 uma antiga capela dedicada ao mesmo santo (homónimo do rei entretanto nascido em 1554 e desde cedo ungido como uma espécie de rei-santo). Nas Lapas (Torres Novas), São Sebastião confunde-se com o próprio D. Sebastião numa pintura de Gaspar Soares de c. 1580.
Tal explica a razão de ser de existir na igreja da Louriceira, com a sua irmandade, um altar de culto sebástico, com seu retábulo erudito. Infelizmente, os repintes sofridos pela peça – tanto a imagem como o conjunto retabular – reclamam intervenção de restauro, que a sua qualidade bem justifica.
A história da Louriceira está também pejada de lendas e tradições históricas mais ou menos inverosímeis. Uma delas liga o referido fidalgo Faim à família do poeta Luís de Camões, aventando mesmo que ele teria nascido na referida Quinta do Alviela. Tal tradição não tem base de sustentação, ainda que venha reforçar, mais uma vez, os vínculos de Camões com Santarém, vila natal de sua mãe, e com o Ribatejo, onde teve familiares, relações de amizade com outros poetas (em Vaqueiros, Vale de Figueira, Almeirim e Constância), e comprovada fonte de inspiração nos campos do rio Alviela.
A terminar, este altar tardo-renascença do tempo de Camões foi um dos casos de estudo discutidos durante a recente Jornada de Cultura e Arte que decorreu na própria igreja, organizada pelos Drs. Luís Duarte Melo e Gabriel Feitor, e que integrou o programa das Jornadas Europeias do Património.
Nota bibliográfica: Decreto nº 2/96, Diário da República, I Série-B, nº 56, de 6-III-1996; Gustavo de Matos Sequeira, Inventário Artístico, Distrito de Santarém, Academia Nacional de Belas Artes, 1949, pp. 15-17; Catarina Oliveira, «ficha» do inventário do IPPAR, 2005; Francisco Henriques Portais para o espaço do divino: geometria e narrativa no retábulo escultórico do Renascimento, FBAUL, 2016; Francisco Lameira, José João Loureiro e Virgolino Ferreira Jorge, Retábulos na Diocese de Leiria, Univ. do Algarve, 2017, pp. 64-71; Ruy Ventura, «ficha» in Catedral e Museu – Diocese de Santarém, Museu Diocesano de Santarém, 2021, pp. 332-333; e Luís Duarte Melo, Crónica da Igreja de Alcanede, Alcanede, 2022.
Agradecimentos: ao Padre Dionísio Leite, prior de Louriceira; ao Dr. Luís Duarte Melo; ao Dr. Gabriel Feitor, Vereador da Cultura da C.M. Alcanena; ao Dr. Eduardo Tavares; ao Dr. Jorge Gabriel Henriques; ao poeta Dr. Ruy Ventura; ao senhor Casimiro, investigador da Louriceira; a Graça Maria Padinha; ao Prof. Fernando António Baptista Pereira (FBAUL); à Doutora Carla Alexandre Gonçalves; ao Dr. Paulo Renato; à Prof. Maria José Redondo Cantera (Univ. de Valladolid); e ao Doutor Francisco Bilou (CME).
