No dia 19 de março, Dia do Pai e também dia da minha cidade, nasceu a Lídia.
Há coincidências que parecem querer dizer qualquer coisa. Não sei se dizem. Mas gosto de pensar que sim.
A Lídia é filha do meu filho Afonso, aquele cujo nascimento, se fechar os olhos, ainda consigo colocar algures na semana passada. E, no entanto, aquele bebé cresceu, tornou-se homem e, de repente, colocou-me ao colo uma filha. A sua filha. A minha neta.
Há seis meses e meio que o centro do meu universo mudou ligeiramente de lugar.
Dizem que ser avô é ser pai duas vezes. Não sei se concordo. Talvez seja melhor do que isso.
Quando somos pais, estamos demasiado ocupados a ser pais. Há horários, febres, noites mal dormidas, escolas, preocupações, decisões, medos que não confessamos e uma permanente sensação de que estamos a improvisar. Navegamos à vista. Fazemos o melhor que sabemos, com o tempo de que dispomos e com a eficácia possível. Amamos profundamente, claro, mas nem sempre temos disponibilidade para parar e simplesmente observar.
Com os netos parece existir outra espécie de tempo.
Não necessariamente mais horas no relógio. Mais tempo dentro de nós.
Podemos ficar longos minutos a olhar para uma bebé e a descobrir coisas absolutamente extraordinárias que, vistas de fora, são provavelmente banalíssimas. Um olhar mais atento, um sorriso que começa a ganhar intenção, uma mão que tenta agarrar o mundo. E imediatamente imaginamos talentos, personalidades, futuros. “Ela percebe tudo.” “Reparaste como está atenta?” O avô perde rapidamente qualquer espécie de objetividade.
Assumo-o sem dificuldade: a Lídia é, simplesmente, a bebé mais bonita do mundo.
É inútil apresentarem-me candidatas alternativas. O concurso está encerrado e o júri é manifestamente parcial.
Talvez seja também isto ser avô: recuperar o direito ao deslumbramento.
Com os filhos desejamos sobretudo prepará-los para a vida. Com os netos talvez tenhamos finalmente tempo para assistir à vida a começar.
Há também uma serenidade diferente. Sabemos já que algumas preocupações passam, que as crianças crescem depressa demais e que muitos dos momentos que pareciam comuns eram, afinal, irrepetíveis. Talvez por isso um avô olhe mais devagar.
Quero vê-la descobrir as primeiras palavras, os primeiros passos, as primeiras escolhas. Quero perceber se vai gostar de música como o pai, se terá alguma inquietação herdada, se correrá, dançará, lerá, viajará ou fará precisamente tudo aquilo que nunca imaginámos para ela.
Mas não tenho pressa.
Por enquanto basta-me aquilo que faço tantas vezes: olhar para ela. E babar-me todo.
Pode não ser uma definição académica.
Mas, neste momento, para mim, ser avô é exatamente isto.
