Durante décadas, a repressão do Estado Novo foi vivida em silêncio por muitos dos que, em Santarém, se opuseram ao regime. Prisões, vigilância, interrogatórios e medo marcaram percursos individuais que, na maioria dos casos, permaneceram dispersos na memória pessoal ou diluídos em arquivos pouco explorados. Hoje, esses percursos ganham forma, nome e contexto num trabalho que identifica 292 presos políticos ligados ao concelho, revelando uma dimensão da história local até agora pouco sistematizada.
O livro Resistência Antifascista em Santarém (1926-1974) resulta de um levantamento assente nas fichas da PIDE/DGS existentes na Torre do Tombo, integrando um movimento mais alargado de recuperação da memória da repressão em Portugal. “Trata-se de construir um registo o mais fiável possível dos presos políticos, contribuindo para a preservação da sua memória”, explica o historiador Jorge Custódio.
Os 292 nomes identificados correspondem, na realidade, a um número superior de detenções — cerca de 370 — uma vez que vários opositores foram presos mais do que uma vez. Ainda assim, os autores admitem que o levantamento está longe de estar fechado. Há casos que poderão não ter sido registados, seja por perda de documentação, seja porque algumas detenções foram efectuadas por outras forças policiais e não ficaram documentadas nos arquivos da polícia política.
Mais do que um exercício de inventariação, o trabalho procura compreender o que esteve na origem dessas detenções. “Os presos políticos não podem ser analisados isoladamente: são o resultado concreto das lutas pela liberdade”, sublinha Jorge Custódio. Essa leitura permite deslocar o foco da repressão para a resistência, devolvendo contexto e sentido histórico aos dados recolhidos.
A partir desse cruzamento, emerge um retrato sociológico marcado pela diversidade. A oposição ao regime no concelho de Santarém não estava confinada a um grupo específico, antes atravessava diferentes sectores da sociedade. Nas freguesias rurais, destacam-se os jornaleiros e trabalhadores agrícolas, frequentemente associados a revoltas motivadas pela fome, pela precariedade e pela falta de trabalho. Já no espaço urbano, a resistência surge ligada a comerciantes, profissionais independentes, estudantes e alguns sectores das profissões liberais.
“Confesso que não esperava que fossem tantos presos políticos”, admite Jaime Fernandes, antigo opositor ao regime e co-autor da obra. O seu percurso — marcado pela militância antifascista e pela experiência de prisão — atravessa o livro e confere-lhe uma dimensão que ultrapassa a investigação académica. “Sentimos que era importante não desperdiçar o conhecimento directo do que foi a luta contra o regime”, acrescenta.
Essa dimensão vivida traduz-se também na evocação de momentos e espaços concretos da resistência local. Estruturas como o Cineclube de Santarém, o Círculo Cultural Scalabitano ou as iniciativas da Comissão Democrática Eleitoral assumiram um papel central na formação de consciência política e na mobilização contra a ditadura. “Foi nesses espaços que se despertaram consciências e se criou um impulso que viria a desembocar no 25 de Abril”, recorda Jaime Fernandes.
O livro permite, assim, compreender Santarém como um território onde se cruzaram diferentes formas de contestação — políticas, sociais e culturais —, protagonizadas por actores diversos e com motivações distintas. Essa pluralidade ajuda a explicar a consistência da oposição ao regime no concelho e a sua inserção num quadro mais amplo de resistência a nível nacional.
Nesse contexto, o 25 de Abril de 1974 surge não como um acontecimento isolado, mas como o culminar de um processo prolongado. Décadas de repressão e de luta contribuíram para fragilizar o regime e para criar condições favoráveis à mudança. No caso de Santarém, essa dinâmica terá tido reflexos também no meio militar.
Jaime Fernandes, que cumpria serviço na Escola Prática de Cavalaria quando foi preso, recorda que alguns oficiais acompanhavam discretamente iniciativas da oposição e que existiam contactos preparados para um eventual cenário de resistência na cidade, caso o golpe falhasse em Lisboa. A ligação entre a sociedade civil e sectores militares ajuda, assim, a compreender melhor o papel desempenhado pela cidade no desfecho do regime.
Outro dos elementos destacados pelos autores é o Presídio Militar de Santarém, utilizado em vários períodos como espaço de detenção de presos políticos. O edifício, actualmente desactivado e em estado de degradação, é apontado como um lugar central da memória da repressão. Nesse sentido, defendem a colocação de uma lápide evocativa com os nomes dos presos identificados, à semelhança do que já acontece em locais como Peniche ou Caxias.
Mais do que um edifício, trata-se de um testemunho físico de um período marcado pela ausência de liberdade e pela violência exercida sobre quem ousava contestar o regime. A sua preservação e valorização assumem, por isso, um significado que ultrapassa a dimensão patrimonial, afirmando-se como um acto de memória colectiva.
É precisamente essa dimensão que atravessa toda a obra. Para Jaime Fernandes, recordar o que foi a ditadura é essencial num tempo em que o distanciamento pode conduzir à banalização: “É importante manter viva a memória do que foi o 25 de Abril e daquilo que significou viver sem liberdade”.
Ao cruzar investigação e testemunho, números e experiências, o livro devolve à história local os rostos e as vozes de quem resistiu. Num concelho onde a repressão deixou marcas — muitas vezes silenciosas —, esse exercício de memória contribui para uma compreensão mais completa do passado e para uma leitura mais consciente do presente.
