Os Vulture of Portugal lançaram nesta semana, sem qualquer aviso prévio, o videoclipe de “Gone Before I Rust”, primeiro single do novo álbum da banda. Um lançamento silencioso, quase um gesto de auto-sabotagem consciente — talvez um pequeno suicídio comercial — totalmente alinhado com a letra que atravessa toda a canção: “you slowly fade until you fade away”.
O vídeo foi gravado em Santarém, cidade que não surge como cenário turístico nem postal ilustrado, mas como território emocional. As ruas, os espaços e o silêncio constroem o retrato de um ponto específico no tempo: o lugar onde estamos agora — e tudo o que nos trouxe até aqui.
O personagem que atravessa o vídeo é Christian Lee Rodrigues, um alter ego. Um corpo onde a banda se revê.
É alguém que toda a gente reconhece em Santarém — não porque seja conhecido, mas porque é familiar. Um imigrante coreano, deslocado por definição, que fala apenas inglês, a língua que se supõe universal, mas que na verdade não compreende totalmente. Comunica, mas não pertence. Está presente, mas não encaixa.
No fundo, é isso que a personagem representa: aquilo que a banda sente que é — e aquilo que muitos são, por um motivo ou outro. Os diferentes. Os desencontrados. Os que avançam com o peso às costas, mesmo quando a linguagem, o lugar ou as expectativas nunca foram feitos para eles.
Este não é um retrato acusatório, nem uma declaração política direta. É antes o reconhecimento de que há aqui um diamante em bruto — uma cidade, uma cultura, pessoas — ainda por lapidar. O vídeo não aponta o futuro; limita-se a mostrar o ponto exato onde nos encontramos e as fissuras acumuladas até aqui.
Gone Before I Rust foi gravado entre os Estúdios Valentim de Carvalho e o Studio 105, em Santarém, com mistura e masterização de Suse Ribeiro. O vídeo foi realizado pelos Vulture of Portugal em colaboração com André Silva, com parte das filmagens a decorrer no Teatro Taborda que abriu portas ao projeto de forma discreta, mas essencial.
Este lançamento marca o início de um novo ciclo da banda — mais cru, mais direto e menos preocupado em explicar-se.
