O investigador Mário Sousa Cardoso, longos anos colaborador deste jornal e um apaixonado pela história da cidade de Santarém, faleceu na noite de ontem, 19 de Outubro, na sua casa, em Lisboa, aos 94 anos de idade.

O investigador foi presença habitual nas páginas deste jornal, onde publicou dezenas de artigos ao longo de mais de três décadas que contribuíram para melhor conhecermos a história da nossa cidade, justificando plenamente a sua presença em retrato na Galeria de Notáveis do Correio do Ribatejo.

As exéquias fúnebres terão lugar em Santarém, no cemitério dos Capuchos, não sendo ainda conhecidos dia e hora do funeral.

Mário de Sousa Cardoso nasceu a 10 de Julho de 1932, no número 28 da Travessa dos Pasteleiros, próximo da primitiva praça Velha, actual largo Manuel António das Neves ou dos Pasteleiros, sendo filho do coronel Alfredo da Silva Cardoso e de D. Manuela Cardigo de Sousa Cardoso.

Os seus progenitores eram descendentes de famílias que se fixaram em Santarém respectivamente nos séculos XIX e XVIII. Os seus avós maternos tinham ligações familiares com o comerciante Manuel Marques de Sousa, estabelecido na Praça Velha, actual praça Visconde de Serra do Pilar, antes de 1873, enquanto o seu avô paterno se fixou em Santarém, em 1891, ao instalar uma oficina de marcenaria no Largo dos Pasteleiros.

Aos sete anos iniciou os seus estudos matinais na Escola Primária do Pereiro sob a orientação do Professor Rito. À tarde, a Professora Maria Júlia Paixão orientava-lhe os trabalhos escolares e os estudos caseiros. Nos tempos livres jogava com bolas de trapos acompanhado pelos amigos enquanto percorria espaços do centro histórico como o Largo dos Pasteleiros, o Largo da Graça, a Travessa da Judiaria e o Largo do Taborda.

Na década de 40, quando o pai foi colocado como capitão no Regimento de Infantaria n.º 7, em Leiria, Mário Cardoso passou a frequentar o externato leiriense D. Dinis. Aí veio a conviver com os irmãos João e José Mattoso (Professor Catedrático jubilado) e José Medeiros Marques (advogado).

Mário Cardoso regressou a Santarém quando o pai foi mobilizado como expedicionário para a ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, ficando a cargo do avô materno. Passados dois ou três anos, Alfredo Cardoso foi colocado como Comandante da Companhia da Guarda Fiscal, na Figueira da Foz, sendo acompanhado pela família. Aí, Mário Cardoso frequentou o Liceu Bissaia Barreto onde foi aluno do pedagogo e poeta amarantino Dr. Ilídio Sardoeira.

Quando o pai foi promovido e colocado em Lisboa, a família Cardoso regressou a Santarém. A frequência do Liceu Sá da Bandeira trouxe-lhe novos colegas e amigos com quem convivia nos bilhares dos cafés Central e Portugal ou nas actividades desenvolvidas pela Associação Académica de Santarém.

Na década de 50, o coronel Alfredo Cardoso passou à reserva e instalou-se definitivamente em Santarém, onde recomeçou a construção de maquetas de madeira dos monumentos da cidade, conforme as que tinha apresentado na Exposição-Feira de 1936, com destaque para a Torre das Cabaças. Mário Cardoso passou a colaborar com o pai na pesquisa de fontes e interpretação das mesmas com vista a reconstituir da forma mais credível Santarém antiga. Neste período, Mário Cardoso passou a frequentar a Faculdade de Ciências de Lisboa onde desenvolveu trabalhos nas áreas do Desenho Biológico, Fotografia Microscópica, Botânica e Zoologia. Perante a aproximação do cumprimento do serviço militar, mudou os estudos para a Faculdade de Letras de Lisboa onde sofreu influência dos Professores Delfim dos Santos e Joaquim Veríssimo Serrão. Em 1953, começou a cumprir o serviço militar em Artilharia 4, na cidade de Leiria.

Perante a dificuldade em integrar-se novamente na discência universitária, casou-se em 1957 e passou a trabalhar na área da contabilidade no escritório da Sociedade Central de Cervejas. Após o 25 de Abril, fez formação em auditoria financeira, área onde concluiu a sua carreira profissional. Paralelamente, as suas pesquisas mantiveram-se mesmo após o falecimento do seu pai. Para isso muito contribuíram António Ferrão Baptista, funcionário dos Monumentos Nacionais e profundo conhecedor do Convento de S. Francisco e Jorge Custódio.

Em 1977, organizou com Florindo Custódio, Bertino Coelho Martins, José Fidalgo Pereira, João Gomes Moreira e Jorge Custódio a exposição “Santarém – A Cidade e os Homens” com o objectivo de dar a conhecer a história da cidade à população, mas também de alertar para a defesa do património conservado, destruído ou esquecido. Em consequência da referida exposição foi criada a Associação de Defesa e Estudo do Património Histórico e Cultural de Santarém, da qual foi sócio fundador e onde se empenhou nas décadas de 80 e 90.

Durante a preparação da candidatura de Santarém a Património Cultural, Mário Cardoso trabalhou na investigação da evolução urbana da cidade. Da informação recolhida surgiu o livro “As Muralhas de Santarém – Interpretação e Enquadramento Histórico e Arqueológico”, publicado em 2001.

Santarém perdeu um profundo conhecer do subsolo da cidade e um filho que se interessava muito por contar a sua história aos outros.

Nesta hora de profundo pesar, o Correio do Ribatejo endereça à família enlutada e amigos, os mais sentidos pêsames.

 

 

 

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