Em fevereiro de 2026, a situação no Golfo Pérsico é de extrema tensão militar e incerteza geopolítica, marcada por um confronto direto iminente entre os Estados Unidos e o Irão, antes chamado de Pérsia, e com Israel também envolvido. Diariamente assistimos aos relatos dos comentadores, dos generais e almirantes dos diferentes canais, falando da importância geográfico-política da região e suas águas, da penetração e evolução militar americana, das táticas, ação naval e armamentos. O Irão tem as suas Forças Armadas e a Guarda Revolucionária em alerta máximo, com a sua marinha pronta para o fecho do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, como retaliação, realizando nas suas águas exercícios militares, incluindo a utilização de drones e mísseis, em preparação para um possível conflito.

Será mais uma guerra na região, porquanto estas águas do Golfo Pérsico e do Mar Arábico tiveram ao longo de séculos outras guerras. Na última, em 1990-1991, brilharam os generais americanos Norman Schwarkopt, Collin Powell e Peter De la Billiere mas muito antes desde o século VI a.C. que outros generais não menos famosos por aquelas águas haviam brilhado como Ciro II fundador do Primeiro Império Persa situado no sudoeste da Ásia e Ásia Central, Dario o Grande, Alexandre o Magno e até alguns portugueses como Afonso de Albuquerque e o Almirante Rui Freire de Andrade, cujos actos e perfis ficaram para a História. Sim, cinco séculos atrás fomos nós portugueses protagonistas de mais uma guerra na região da Pérsia, hoje Irão, contra todo o Islão. Sozinhos, em diferentes ilhas desse país permanecemos e aí fomos durante cem anos verdadeiros combatentes, poucos, mas tesos. 

As nossas principais “bases” foram: o Forte de Nossa Senhora da Conceição, na Ilha de Ormuz (Irão), a principal “porta de entrada” para o Império Persa continental, consolidando o domínio de Portugal sobre as rotas comerciais entre a Índia e a Europa no século XVI e o Forte de Caçapo (Khasab), originalmente construído pelos portugueses no início do século XVII e que  tinha como função principal guardar a entrada estratégica do Estreito de Ormuz  o controlo da navegação e o fornecimento de água doce às armadas que cruzavam o estreito.

O reino de Ormuz situa-se numa pequena ilha chamada Djarun, nas águas do Leste do Golfo Pérsico. É conquistado em Abril de 1515 por Afonso de Albuquerque quando 2º Vice-rei da Índia, que o torna vassalo de Portugal. O interesse por esta ilha desértica e salgadiça vinha já desde 1508, e, apesar dos problemas de falta de água, o que pesou nesta decisão, foi o facto de ser um centro político poderoso no Golfo Pérsico, transitando por aqui não só a rota que ligava a Ásia à Europa, via Alepo e o nó de redes comerciais intra-asiáticas, conectando regiões tão distantes entre si como a Mesopotâmia, a Pérsia, o Bengala, a Índia ou a Insulíndia. Embora sendo ilha inóspita, João de Barros refere “ser cidade bonita, verde, abastada e escala de mercadorias parecendo que o mundo é hum anel e Ormuz hua pedra preciosa engastada nelle”.  

A fortaleza, interrompida em 1508, quando Albuquerque era então o Capitão-mor para o mar da Arábia, é finalizada em 1515 e tem o nome de Nossa Senhora da Conceição, tendo sido considerada no início do século XVII a mais inexpugnável do Império, recebendo a designação de “a cidade mais importante que os reis de Portugal têm nas partes da Índia”; dispunha de 70 peças de artilharia, um aquartelamento para 500 soldados e enormes cisternas de água. A falta de água foi resolvida com a ocupação de lugares para a sua captação como foi o caso da conquista de Comorão na costa iraniana, Xamel na ilha de Laraak e Queixome na ilha de mesmo nome, todas vizinhas de Ormuz, na costa Leste da Pérsia, hohe Irão. Enquanto únicas fontes de água potável estas eram bem guardadas, pois os locais tinham o hábito de as vir inquinar, com grandes quantidades de sardinha apodrecida.  

Sem problemas de maior, fossem estes por aumento dos tributos a prestar, fosse pela cedência da alfândega local ao Estado da Índia, com os portugueses ficando responsáveis pela parte das despesas do monarca ormuziano, D. Manuel assumia em 1523, o título de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”. Os portugueses dispondo de uma frota poderosa, apoiados em fortificações nas suas margens e no mar de Omã, dominaram aquela região por mais de um século.

 Com a presença portuguesa agora no Golfo Pérsico e na costa de Omã, outras cidades se submeteram ou foram submetidas pelos portugueses após a conquista de Ormuz: na costa de Omã, Curiate, Calaiate, Mascate, Soar e Limá, de 1515 a 1650; Caçapo, de 1515 a 1656; Sibo, Borca e Matra, de 1622 a 1650.  Nas águas dos actuais Emiratos Árabes Unidos, Corfacão, Libedia e Julfar, de 1515 a 1650; Doba e Quelba de 1623 a 1654; na Ilha de Barém, Muharraque e Manamá de 1515 a 1602 e no Qatar, Zubara de 1515 a 1602. 

Esse grande número de espaços e suas fortalezas no Golfo Pérsico e territórios vizinhos, trouxe a necessidade de haver homens para as diversas tarefas que a presença portuguesa impunha, o que levou o Estado da Índia a contratar e pagar aos árabes locais, os “lascares” ou lascarins, da palavra persa laxhkari (soldado) passando estes a fazerem parte essencial das guarnições terrestres e até navais portuguesas. Não é por acaso que a actual moeda da Arábia Saudita, Irão, Omã e Iêmen chama-se rial, devido à influência histórica, pois vem da moeda portuguesa “real”. Dada a maioria das guarnições destes pequenos fortes serem geralmente lascares e pouco numerosos em homens de armas, o capitão seria preferivelmente um militar já forjado em guerra nas praças portuguesas do Norte de África. Algumas destas pequenas praças, agora portuguesas, foram comandadas por graduados locais, tal como Gulam Edin, dada a sentida necessidade, na segunda metade do século XVI, de admitir gente estrangeira, pois, a população portuguesa não alcançava ainda um milhão e meio de pessoas. Esta contratação também se estendeu aos pescadores, porque conhecedores das correntes e ventos, passaram a ter nas suas fainas, a obrigação de controlar a costa, avisar da aproximação de barcos inimigos aos fortes ou ainda o de alertar para a aproximação de tempestades e sempre que necessário, transportar nas suas embarcações, os dhows, ajuda e reforços. No Golfo e costa de Omã muitas palavras usadas na construção naval destes barcos locais, a que os portugueses rapidamente se adaptaram, são derivadas da língua portuguesa tais como kawiya (cavilha), kobert (coberta), kalafet (calafate), kurva (curva), etc.

Em 1546, os Otomanos (sunitas, da Turquia) e os Safávidas da Pérsia (xiitas) os dois principais ramos do islão envolveram-se em múltiplos conflitos e guerras. Os otomanos tomam posse de Baçorá, na foz dos rios Tigre e Eufrates, no extremo Noroeste do Golfo Pérsico, hoje Iraque. Para aqui virão os seus navios. Em 1552, uma grande armada otomana liderada por Piri Reis, foi enviada do Suez para o Golfo Pérsico. Após conquistar Mascate aos portugueses, aparece ele de surpresa em Ormuz e saqueia a cidade, cercando-a durante cinco meses, obrigando os portugueses a refugiarem-se na fortaleza. Porém a ameaça de reforços portugueses vindos da Índia e o esgotamento dos abastecimentos levaram ao malogro desta expedição turca.  Por não ter derrotado as forças portuguesas, por ordem do Sultão do Império Otomano, Suliman I, o Magnífico, tido na Europa e Ásia por invencível, foi o almirante Piri Reis decapitado. Executado Piri Reis  o sultão substituiu-o por Murat Reis como “almirante da frota do Oceano Índico”.  Havia a necessidade de fechar a porta do Golfo às armadas otomanas (continua na próxima edição). 

(Bibliog.: M. Allawatti, D. Couto, J. Ferreira, A. Wilson).

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