O sector vitivinícola português vive um dos momentos mais exigentes das últimas décadas. Excesso de stock, quebra de consumo interno, custos de produção em alta e uma guerra de preços nas prateleiras dos supermercados.
Em vésperas de mais uma Gala dos Vinhos do Tejo que vai decorrer este sábado, no IVV de Almeirim, procurámos saber junto de Luís de Castro, presidente da Comissão Vitivinícola Regional Tejo, como é que a região está a enfrentar esta “tempestade” e que futuro se desenha para os vinhos do Tejo daqui para a frente.
O responsável defende o incremento progressivo do nível de certificação e o peso do volume de vinho exportado relativamente ao volume total da Região, bem como o aumento do reconhecimento e notoriedade dos seus vinhos junto dos prescritores de compra e consumidores, a fim de criar melhores condições para a sua venda.
“O difícil, hoje em dia, não é produzir bons vinhos, todos os nossos Produtores o fazem, nos vários escalões de preço. O difícil é vender bem esses vinhos”, salienta Luís de Castro na entrevista ao Correio do Ribatejo, na qual defende o patrocínio do governo a uma campanha junto da opinião pública em prol dos vinhos certificados, onde fizesse “o contraditório da campanha feroz anti-vinho que tem vindo a provocar a diminuição do seu consumo responsável” e premiasse a restauração nacional que pratique “preços mais justos para os vinhos nacionais que constam das suas cartas de vinho”.
Estamos perante a maior crise do vinho em Portugal nos últimos 30 anos? Se sim, como a descreve, em números e em sentimento dos produtores?
Infelizmente estamos a atravessar uma crise que não é temporária e que parece ter vindo para ficar. Aliada à diminuição de consumo e seus hábitos, temos ainda uma diminuição do poder de compra.
Na nossa região sentimos uma redução ainda não significativa da quantidade de vinho certificada bem como da exportação. Isto significa mais dificuldades para os nossos Produtores num ano em que deveremos ter um crescimento significativo, de cerca de 15 a 20%, na produção de uvas.
“As marcas estão a ter de inovar para projectar autenticidade, relevância e despertar o interesse desta nova Geração, já que as categorias tradicionais de vinho e a terminologia descritiva já não têm hoje o impacto que tinham anteriormente.
Temos hoje vinho a mais em Portugal. Como chegámos aqui? Foi um problema de plantar demais, de beber menos, ou de dificuldades na exportação? O consumo per capita em Portugal caiu drasticamente. Os jovens estão a trocar o vinho pela cerveja, pelos cocktails, pelas bebidas sem álcool. O vinho perdeu espaço nos hábitos do consumo. Em sua opinião porquê?
Temos vinho a mais em Portugal assim como em Espanha, Itália, França e por aí fora. Não nos podemos esquecer que entre o momento em que se decide plantar uma vinha e o momento em que a mesma começa a produzir passam vários anos. Plantou-se vinha porque o consumo na altura crescia e agora, com o consumo a diminuir, produzimos mundialmente acima das necessidades. Isto não é apenas um problema português, mas sim global. Quanto à exportação, Portugal até tem vindo a melhorar, mas a competição é feroz e agora com mais oferta que procura a situação tende a piorar e o preço médio a baixar.
De facto, nas décadas de 1990 a 2010 o sector do vinho viveu um boom significativo, impulsionado por um crescimento exponencial no seu consumo nos principais mercados de exportação tendo aumentado também o seu número de consumidores. A indústria do vinho respondeu a esta tendência, aparentemente duradoura, com uma expansão audaciosa.
As mudanças desencadeadas pelos confinamentos (COVID) vieram dar origem a um novo ciclo, mas apesar dos repetidos encerramentos no retalho e no canal HoReCa, as vendas de vinho cresceram.
Nos anos posteriores aos confinamentos antecipou-se uma retoma nos gastos empresariais e de consumo. No entanto, o que sucedeu, em vez disso, foi uma vaga de novos desafios: taxas de juro a subir vertiginosamente com aumentos de encargos das famílias e empresas; escassez de fornecimentos dos secos; perturbações logísticas generalizadas; falta de mão-de-obra; turbulência geopolítica, incluindo a invasão da Ucrânia pela Rússia, que desencadeou uma crise energética global a que se somou agora a guerra Israel-Irão.
Todos estes acontecimentos foram imprevistos, reformularam o comportamento do consumidor e a dinâmica dos mercados globais de modo a que, dificilmente, se conseguirá voltar à situação que existia antes de 2020.
Estas situações colocaram desafios directos aos esforços dos produtores da nossa Região que vieram dificultar o restaurar dos níveis de crescimento pré-COVID nos vários mercados estratégicos da Região.
Entretanto os chamados Millennials (nascidos entre 1981 e 1996) e a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) estão a atingir a idade legal para consumir álcool em grande número, mas em comparação com as gerações anteriores, estes consumidores mais jovens tendem a ter menor rendimento disponível e adoptam comportamentos sociais que divergem fortemente dos seus pais e avós e estão habituados a consumir bebidas com mais açúcar.
As marcas estão a ter de inovar para projectar autenticidade, relevância e despertar o interesse desta nova Geração, já que as categorias tradicionais de vinho e a terminologia descritiva já não têm hoje o impacto que tinham anteriormente. Colaborações com artistas, celebridades e designers ajudam as marcas a manter-se relevantes. Designs inspirados na cultura urbana tornam o vinho visualmente apelativo e partilhável nas redes sociais.
A interacção social, anteriormente um momento-chave para o consumo de vinho, mudou dramaticamente. Millennials e Geração Z têm muito mais probabilidade de interagir através de plataformas digitais do que através de encontros presenciais — que outrora eram momentos naturais para o consumo de vinho.
O tempo passado em frente a ecrãs rivaliza ou mesmo supera agora o tempo passado em socialização presencial, enfraquecendo um dos pilares e momentos tradicionais do consumo de vinho.
Os membros da Geração Z que se envolvem com o vinho também mostram interesse por regiões e países produtores não tradicionais, práticas sustentáveis e novos estilos de vinho — Orange wines, pet nat, vinhos aromatizados, aumento de consumo de vinhos brancos, tintos mais leves e servidos mais frescos, mais doces, etc.
Também adoptam opções de vinhos com menor graduação ou mesmo de zero teor alcoólico e estão receptivos a novos formatos de embalagem tornando o vinho mais acessível e sustentável para diferentes ocasiões de consumo.
De facto a indústria do vinho a nível mundial, para sobreviver, terá de reinventar-se e de adoptar novas formas de se manter relevante no estilo de vida e dentro dos valores desta nova Geração de consumidores porque as gerações anteriores dos Baby Boomers, (nascidos entre 1946 e 1964), e da Geração X (nascida entre 1965-1980), que foram a força motriz por detrás do crescimento da indústria do vinho nos chamados “Anos Dourados” têm cada vez menos expressão e esta mudança demográfica está a redefinir as dinâmicas do mercado de vinho no mundo desenvolvido, na maioria dos mercados internacionais mais maduros.
Existe também o factor de moderação do consumo de vinho que é, em grande parte, impulsionada por preocupações com a saúde, mas estudos de consumidores feitos pela IWSR (empresa especializada em análise de mercados) também destacam como igualmente importantes as preocupações financeiras. 40% das pessoas nos 17 maiores mercados de vinho afirmaram estar a consumir menos vinho devido a uma redução geral no consumo de álcool, enquanto que 28% afirmaram que estavam a reduzir os gastos com vinho, e 23% disseram que estavam a beber menos porque o vinho se tornou mais caro.
Prevê-se que esta moderação no consumo se mantenha e que as tendências ligeiramente descendentes no consumo global de vinho continuem, o que não são boas notícias.
Em suma: Estes declínios reflectem não só mudanças demográficas, mas também uma perda de relevância cultural e de alterações nas preferências de estilo de vida. O vinho aparenta já não ser visto como a escolha automática de bebida pelos consumidores mais jovens.
“A indústria do vinho a nível mundial, para sobreviver, terá de reinventar-se e de adoptar novas formas de se manter relevante no estilo de vida e dentro dos valores desta nova Geração de consumidores
A Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícolas (ANDOVI), que representa todas as regiões vitivinícolas de Portugal, e até a própria CAP, saudaram o apoio anunciado pelo Governo destinado aos viticultores do Douro, mas consideram urgente que esse apoio se estenda às restantes regiões vitivinícolas que enfrentam dificuldades semelhantes, nomeadamente ao nível do escoamento da produção e da quebra dos preços das uvas. Quer comentar?
A ANDOVI depois de consultar os seus Associados, entre eles o Tejo, decidiu e bem não só congratular-se pelo facto do Governo, com dinheiros públicos, estar a acudir aos Viticultores do Douro, como a chamar a atenção do Governo que nas restantes 13 Regiões se viviam situações semelhantes e que perante este cenário, o Governo deveria decidir a extensão dos apoios directos aos viticultores de todas as regiões com Denominação de Origem e Indicação Geográfica afectadas por dificuldades de escoamento da produção. Deveria ainda fortalecer as verbas destinadas à promoção do vinho português através do reforço das parcerias com as CVRs, tanto no mercado nacional como nos mercados externos, como resposta estrutural – e não apenas de emergência – à actual quebra do consumo, bem como a adopção de medidas de médio e longo prazo que contribuam para corrigir os desequilíbrios estruturais do sector, nomeadamente através de uma melhor regulação e acompanhamento do mercado dos vinhos de mesa (nacionais e importados), do ajustamento entre produção e consumo, da adequação da produção à evolução da procura — incluindo o actual desequilíbrio entre vinhos tintos e brancos — e da redução da pressão concorrencial resultante do crescimento das importações. Pediu-se também a atenção do Governo para a crise que actualmente afecta a vitivinicultura portuguesa e que exige uma resposta nacional, coordenada e estrutural. O apoio ao Douro é positivo e necessário, mas não pode ser a única resposta a um problema que se estende a todo o território vitivinícola nacional.
O sector em Espanha tem vindo a receber apoios para os factores de produção (energia, combustíveis, fertilizantes…) mais de 30 vezes superiores aos que estão a ser dados aos agricultores portugueses. Assim vai ser muito difícil competir no mercado ibérico…
Não só em Espanha como em França e porventura noutros países, os Governos estão atentos ao que se passa e como sabem que estas dificuldades atingem um grande número de famílias, como acontece no nosso país, estão a tomar medidas para apoiar o sector. Desconheço em concreto as medidas que o Estado espanhol tomou, mas a ver só pelo apoio dado ao custo dos combustíveis devem ter sido maiores que as do nosso país. Quando se refere a mercado Ibérico penso que se refere à exportação de vinhos de Portugal e Espanha para outros países e que no caso espanhol pode vir a beneficiar pelo facto de haver mais apoios governamentais lá do que cá. Isso é verdade, mas não é de agora porque em termos dos apoios à exportação os processos de apreciação, prazos de análise e aprovação dos projectos e prazos de reembolso dos respectivos pedidos de pagamento continuam morosos e burocráticos. Esta situação urge melhorar como única forma de evitar as graves dificuldades de tesouraria daí resultantes para todas as entidades e Produtores que se candidatam a estes fundos, o que nada contribui para fomentar a venda dos nossos produtos, quer no mercado interno quer no externo.
Apelamos, portanto, que a agilização destes processos, que tem vindo a ser feita, continue, a fim de nos podermos concentrar cada vez mais no essencial, que é vender mais e melhor, em vez de perdemos tempo e energias a ultrapassar burocracias muitas das vezes inúteis.
Um viticultor do Tejo hoje ganha dinheiro com a vinha? Com a uva a ser paga, em alguns casos, abaixo dos 30 cêntimos, como é que se sustenta a produção?
Com muita dificuldade e corremos o risco de vir a assistir ao seu abandono.
O poder está hoje na grande distribuição. Como é que a CVR vê esta guerra de preços com vinhos a 1,99€ na prateleira? Isso não destrói a imagem de Portugal como produtor de qualidade?
A Grande Distribuição tem o seu papel e não se pode demonizar nem responsabilizar a mesma de tudo de mal que está a acontecer. Se há vinhos na prateleira a esse preço é porque alguém acordou isso com a Grande Distribuição. Isso sucede em todos os países e não apenas no nosso e com todos os produtos e não apenas com o vinho. O mercado é livre.
A falta de mão-de-obra para a vindima e para a poda tornou-se estrutural. Como é que a região está a resolver isto? A mecanização é a única saída?
No Tejo assistimos cada vez mais à adopção de processos mecanizados e não só nas vinhas o que beneficia os custos e a operacionalidade da produção. Para que os custos com a vinha diminuam e não ponham em risco a qualidade dos frutos esse parece uma via obvia.
“Penso que a Região tem dado provas evidentes que não é uma região apenas de volume e que os seus vinhos se têm cada vez mais afirmado pela sua qualidade
O Tejo é a região com mais vinha em Portugal, mas ainda é muitas vezes vista como região de volume e não de valor. Essa imagem já mudou ou continua a ser o nosso maior combate?
Penso que a Região tem dado provas evidentes que não é uma região apenas de volume e que os seus vinhos se têm cada vez mais afirmado pela sua qualidade. Não são nem melhores nem piores que os vinhos das outras regiões, quanto muito são diferentes e reflectem os seus terroirs. Este preconceito, a continuar a existir, é muito injusto e tem de ser combatido, em primeiro lugar pelos que são daqui da Região. No estrangeiro isso não existe. Vamos, pois, continuar com os nossos Produtores a trabalhar no sentido de dar maior reconhecimento Nacional e Internacional à região, aos seus Produtores e vinhos.
Temos castas únicas como a Fernão Pires, que é a casta mais plantada de Portugal e nasceu aqui. Porque é que ainda não conseguimos transformá-la numa bandeira tão forte como o Alvarinho, por exemplo?
A Casta Fernão Pires tem uma qualidade e elasticidade pouco comum noutras castas de vinho. Desta casta surgiram, nos últimos anos, excelentes vinhos de entrada de gama, quer tranquilos quer frisantes, espumantes, vinhos topo de gama, com e sem madeira, vinhos licorosos e até aguardentes. Temos realizado inúmeras Master Class´s no estrangeiro com o apoio dos nossos embaixadores nos países estratégicos de exportação com vinhos 100% Fernão Pires e com muitíssimo êxito.
Este trabalho de divulgação, que pode vir a transformar a casta numa bandeira da Região, é um trabalho moroso e ainda vai a meio caminho.
O mesmo sucede com os nossos vinhos monocasta Castelão que têm vindo a ganhar cada vez maior notoriedade, nacional e internacional.
Temos agora quatro terroirs muito distintos – Bairro, Charneca, Campo/Lezíria e agora Serra. O que falta para o Tejo conseguir explicar a sua diversidade?
O quarto terroir – Serras – não surgiu do nada; isto é, não foi criado sem ter tido previamente estudos que suportassem essa decisão.
De facto, a CVR decidiu, em 2020, fazer um estudo de solos de toda a Região. Esse estudo veio demonstrar que havia uma zona da Região que, devido às suas condições edafoclimáticas, faria todo o sentido passar a ser um novo terroir. Esse assunto foi levado à apreciação da Região que concordou e depois de ultrapassada alguma burocracia a CVR apresentou, em Janeiro de 2025, esse terroir à imprensa nacional e passámos a ter quatro terroirs.
A partir daí, quer em Portugal quer no estrangeiro, o quarto terroir tem sido sempre apresentado.
Penso que nada falta ao Tejo para explicar a sua diversidade que também tem sido tema constante de outras Master Class´s, quer em Portugal quer no estrangeiro.
O enoturismo está a crescer no Alentejo e no Douro a uma velocidade enorme. E no Tejo? Por que continuamos a ter tão poucas portas de adegas abertas apenas a 70 kms de Lisboa?
Quer no Alentejo quer no Douro essa actividade do Enoturismo teve início há muito tempo e está já muitíssimo bem implantada. Nós só estamos a dar os primeiros passos, infelizmente. Acho que isso se deve ao facto dos nossos Produtores, na sua maioria, terem outras actividades agrícolas, economicamente mais importantes que o vinho, e de só recentemente pensassem que a actividade do Enoturismo pode ser um complemento muito importante para a viabilidade e sustentabilidade económica de todo o seu negócio e da sua actividade vitivinícola.
Para o Tejo, o Enoturismo, nas suas diversas facetas e enquanto associado a várias actividades culturais, desportivas, ou de lazer, é uma actividade importante a desenvolver pelos nossos Produtores, porque atrai todas as gerações de consumidores, inclusive os mais jovens, e pode servir de forma eficaz não só para captar esses novos consumidores como gera vendas imediatas.
Vamos ter mais uma Gala dos Vinhos do Tejo, no decorrer da qual se reconhece o papel de todos os agentes do sector. É um momento de afirmação da região Tejo? Novidades da Gala deste ano?
Não posso aqui revelar quem vai ser premiado nos diversos momentos de distribuição de prémios no próximo dia 26. Vamos entregar os prémios do 12.º Concurso TEJO GOURMET, onde premiamos a Restauração Nacional, e, no que aos vinhos diz respeito, vamos também revelar os resultados do 16.º Concurso Vinhos do Tejo, que se realizou recentemente.
Serão também atribuídos os prémios da Empresa Dinamismo, Empresa Excelência, Enólogo do Ano, e Prémio Carreira.
“Os nossos objectivos estratégicos são aumentar progressivamente o nível de certificação e o peso do volume de vinho exportado relativamente ao volume total da Região
O Plano de Promoção da CVR Tejo aposta em quê nos próximos três anos? Mais exportação, mais valor na grande distribuição, mais enoturismo?
Os nossos objectivos estratégicos são aumentar progressivamente o nível de certificação e o peso do volume de vinho exportado relativamente ao volume total da Região, bem como definir os nossos mercados estratégicos de exportação para o período e focar investimento nos mesmos com vista a melhorar eficácia e maximizar resultados. São ainda focarmo-nos em acções, quer no mercado interno quer externo, que aumentem o reconhecimento e notoriedade da Região e dos seus vinhos junto dos prescritores de compra e consumidores, a fim de criar melhores condições para a sua venda. Incrementar a utilização de processos digitais nas futuras actividades de marketing, comunicação e vendas a par das acções chamadas tradicionais. Colocar os valores da sustentabilidade, da conservação da natureza e do bem-estar do planeta e do consumidor como objectivos prioritários da Região e trabalhar conjuntamente com a Rota dos Vinhos do Tejo no sentido de incrementar a actividade de enoturismo na nossa Região.
A sustentabilidade e as alterações climáticas: o Tejo, sendo uma região quente e de regadio, é das mais vulneráveis. Já há produtores a mudar castas, a subir para o Bairro, a alterar datas de vindima? O vinho branco e o rosé estão a crescer, o tinto a cair. A região está a adaptar o seu perfil produtivo a essa nova realidade?
Pensamos que a Região do Tejo até é das que melhor poderá enfrentar as alterações climáticas que são bem visíveis e este ano mais do que nunca.
A antecipação do início das vindimas é algo que não é de agora, quanto às castas o que acontece é que se estão a privilegiar as castas autóctones mais conhecidas (Fernão Pires e Castelão) que também estão muito bem-adaptadas à região e são ‘amigas’ dos Produtores.
Quanto ao facto de haver um aumento do consumo de branco isso até nos beneficia dado que temos mais vinho branco que tinto, quanto ao rosé esse crescimento quase que não existe.
Já quanto ao perfil produtivo, a região aprovou, no ano passado, uma alteração ao seu caderno de especificações e passou a poder certificar vinhos parcialmente desalcoolizados para poder permitir aos nossos Produtores produzir vinhos do Tejo mais em consonância com esta tendência de vinhos de baixo teor alcoólico.
Para um jovem que queira hoje instalar-se como viticultor na região o que lhe diria que tem de fazer diferente do que o seu pai fez?
À partida, tem de ter alguma coragem para se lançar num sector que está a passar algumas dificuldades. Tem também de assumir desde logo que as maiores dificuldades não estão do lado da produção, mas sim do lado da venda e que deve estar bem preparado tecnicamente não só para produzir bons vinhos, mas sobretudo para os saber vender. Vai ter de viajar muito para conhecer os mercados para onde terá obrigatoriamente de vender os seus vinhos o melhor possível. Para isso não deve descurar a sua preparação de marketing e os seus ‘skills’ comerciais.
“O difícil, hoje em dia, não é produzir bons vinhos, todos os nossos Produtores o fazem nos vários escalões de preço. O difícil é vender bem esses vinhos
Se tivesse de pedir uma única medida urgente ao Ministro da Agricultura para salvar o sector, qual seria?
O difícil, hoje em dia, não é produzir bons vinhos, todos os nossos Produtores o fazem nos vários escalões de preço. O difícil é vender bem esses vinhos. Para isso existem ajudas governamentais que para se obterem obrigam a processos muito morosos e burocráticos, para além de que no caso de aprovação dessas ajudas as respectivas verbas demoram muito tempo a serem devolvidas. O sr. ministro não tem, infelizmente, uma varinha mágica para resolver duma penada os nossos problemas, mas o que pediria ao sr. ministro seria o mesmo que temos vindo a pedir à tutela, há longo tempo: aumentem e agilizem todos esses processos de apoio e não os compliquem mais.
Pediria também que patrocinasse uma campanha junto da opinião pública em prol dos vinhos certificados e fizesse o contraditório da campanha feroz anti-vinho que tem vindo a provocar a diminuição do seu consumo responsável e também que se patrocine e premeie toda a restauração nacional que passe a praticar preços mais justos para os vinhos nacionais que constam das suas cartas de vinho.
Em 2030, como quer que os portugueses olhem para um vinho do Tejo na prateleira?
Os portugueses não precisam de esperar tanto tempo para ter esse prazer pois podem desde já comprar excelentes vinhos do Tejo em qualquer escalão de preço. Ao comprarem um vinho do Tejo podem estar certos que adquiriram um vinho fresco, empolgante, de estilo diferenciado, com qualidade e a bom preço.
João Paulo Narciso
