“A Golegã é berço de toda a tradição e de toda a modernidade do mundo equestre”

Entrevista patente na edição impressa de 8 de Novembro.

A Golegã é, por estes dias, o centro nevrálgico do Ribatejo. O evento tripartido, que junta a Feira de S. Martinho, a Feira Nacional do Cavalo (iniciada em 1972) e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano (desde 1999) cruza tradição com oportunidades de negócio. Veiga Maltez, o médico e também criador de cavalos que faz questão de, por estes dias, trajar a rigor, preside à autarquia e igualmente a um evento que espera atrair milhares de visitantes nacionais e estrangeiros para apreciarem os mais belos exemplares da raça lusitana.

O que é que se pode esperar desta feira? O que desejamos é que sejam sempre edições corrigidas e melhoradas. Cada Feira procura ser o desfile daqueles que mostram a identidade e cultura Ribatejana – principalmente em termos de arte equestre – mas, também, a Portuguesa, porque, nas últimas décadas, o cavalo estendeu-se a todo o país, de norte a sul, quando dantes parecia estar confinado ao Ribatejo e Alentejo. No fundo, achamos que se trata de um evento que é sempre, todos os anos, alvo de uma tentativa de melhoria e requalificação: já está tudo criado, está tudo inventado e, portanto, os princípios desse evento estão cá, temos é de adaptar práticas e valores às circunstâncias. Temos a preocupação enorme de fazermos um ensaio permanente da simbiose entre tradição e modernidade, porque se trata de uma Feira com raízes no século XVI (1571): passou a Feira Nacional do Cavalo em 1972 e, em 1999, também a Feira Internacional do Cavalo Lusitano. Portanto, foi passando de geração em geração e este desfile, que é a Feira da Golegã, é feita de muito daquilo que nós fomos e daquilo que nós somos hoje também: a nossa maneira de estar e a nossa maneira de ser por aqui, dignificando a ruralidade.

É um certame que se vai renovando continuamente todos os anos. Portanto, quais são as novidades da Feira da Golegã? Eu tenho a noção que poucos sabem a génese da Feira de São Martinho. Um dos sustentos da Feira, no seu início, era o cavalo, o poldro de três anos que chegava do campo aqui a casa dos criadores e fazia o seu debute. Depois, vinha o cavaleiro tauromáquico que o comprava e dois anos depois o apresentava na feira já em alta escola, já no toureiro. É nessas raízes que nos queremos sustentar: na apresentação do poldro na feira. Daí que o mais importante dia da Feira de São Martinho não é o 11. Esse é o dia da festa, da ‘algazarra’. Mas o dia importante para a nossa feira, para a Feira Nacional do Cavalo e Feira Internacional do Cavalo Lusitano é sempre o dia do concurso do cavalo de sela, dos poldros de três anos, e depois dos cavalos mais velhos de quatro anos e depois os cavalos montados. Esse é que para nós o dia importante: que, no fundo, mostra o sustento e o desenvolvimento da nossa feira que remonta a 1571, ao tempo de D Sebastião. Este ano, vai estar presente na Feira uma delegação do Instituto Ferial de Badajoz, que organiza vários eventos relacionados com cavalos naquela cidade espanhola, nos quais a Golegã tem-se feito representar numa lógica de parceria e intercâmbio. À feira da Golegã, trazem este ano a apresentação equestre “Ibéria”.

Para além deste momento que destacou, existem outros que queira referir? Destaco ainda o dia 7, dedicado aos criadores, mas que junta também os Cavaleiros Tauromáquicos. A ideia começou no ano passado e este ano repete-se com o desfile de Cavaleiros pelas 19:00, com homenagem ao cavaleiro Joaquim Bastinhas. Nesse mesmo dia realiza-se um espectáculo Equestre do Centro Equestre da Lezíria Grande, com a presença da Escola Portuguesa de Arte Equestre. O último dia da feira, 11 de Novembro, coincide com o dia de São Martinho, em que habitualmente se realiza o cortejo e bênção dos Romeiros, com a participação de centenas de cavaleiros. Em termos culturais, destaque para quatro exposições a inaugurar durante a feira: Pintura “A Saudade da Emoção Lusitana”, de Sabine Marciniak, Pintura e Escultura de Beatrice Bulteau. Aguarelas e Cerâmica, de Ana Dias e Francisco Dias e Fotografia “Feira da Golegã”, de Marco Fernandes, esta na Casa Relvas. Eu penso que estes momentos, para mim, são os mais importantes da Feira porque, no fundo, o que nós queremos é sempre a agilizar todas as várias modalidades equestres, todas as provas: sejam de obstáculos, de atrelagem, ou de equitação de trabalho. Queremos fazer uma sinergia e, realmente, quando se fez a Feira Internacional do Cavalo Lusitano, como é óbvio, nós queremos elevar o nosso cavalo, porque fui sempre da opinião que esta é a Feira Nacional do Cavalo, não a Feira do Cavalo Nacional e, portanto, é o cavalo nacional sob o ponto de vista em que todos os cavalos de outras raças também estão aqui presentes, desde que sejam nados e criados no nosso país.

Essa modernidade, em co-habitação com a tradição que já vem do século XVI, é um dos segredos do sucesso desta feira? Não tenho dúvida nenhuma que é assim. Isto não é nenhuma reinvenção ou recriação folclórica. É um espectáculo espontâneo que passou de geração em geração. É a nossa tradição, é a nossa identidade cultural. Nós somos aquilo que fomos e temos que respeitar aquilo que nos transmitiram. Portanto: quem queira estar connosco, que cumpra as regras do jogo. Serão sempre bem-vindos. É evidente que nestas alturas pode haver um ou outro excesso, que até toleramos porque somos flexíveis, mas com aquelas regras, normas e regulamentos que estabelecemos.

A proibição introduzida, no ano passado, de circulação a cavalo e em carros de cavalos entre as 2 e as 7 da manhã no Largo do Arneiro e ruas adjacentes é para manter? Vai-se manter, claramente. Eu penso que uma grande maioria dos protagonistas da Feira e os próprios residentes apoiam esta decisão. No primeiro ano, existiram algumas resistências, porque mudar é sempre complicado, mas penso que as pessoas se adaptaram bem e agora já interiorizaram que é uma norma e um padrão para cumprir porque protege as pessoas, sobretudo, e protege também os animais. A Golegã, durante a Feira Nacional do Cavalo, é um espaço de descompressão mas não é um espaço para que não se cumpram regras: não vou aceitar cavalos a altas horas da manhã maltratados, com cavaleiros ébrios. Queremos ter uma feira onde possamos descomprimir na realidade, mas queremos que se cumpram regras e, sobretudo, que haja respeito pela segurança de pessoas, bens e cavalos. Se formos à feira de Jerez de la Frontera ou à feira de Sevilha estamos condicionados pelas horas. Os cavalos são recolhidos às 7 da tarde. Na Golegã, isso não se passa. É essa a diferença e nós queremos continuar com este modelo. Que continuem a existir algumas “deshoras” mas não queremos que haja falta de respeito nem de segurança. Primamos pelo bem-estar animal e também pela segurança de pessoas e de bens e, portanto, vamos, este ano, repetir estas normas que vão ter de ser cumpridas.

A Golegã continua a ser o grande entreposto do cavalo lusitano? Não tenho dúvida nenhuma, porque é a maior montra, é a montra e que dura mais tempo, nestas duas semanas que a feira hoje tem. Eu lembro-me da Feira ser no dia de São Martinho, no dia 10, 11 e 12. Era o Dia de São Martinho e um dia antes e um dia depois. Nós somos justamente a Capital do Cavalo e isto é a Feira Nacional do Cavalo. Nós temos cavalos aqui de todas as raças, mas evidentemente que é o Lusitano que tem destaque, e aquele em que mais se aposta, como é evidente. Aquilo que queremos é que o certame esteja aberto a todas as raças e, sobretudo, a todas as disciplinas equestres: daí mantermos a vertente desportiva. O Lusitano tem uma particularidade: faz tudo o que os outros fazem, e os outros não fazem o que o Lusitano faz.

Em termos turísticos é também um evento importante… Exacto. Repare: quando a Feira traz pessoas à Golegã, no fundo, traz pessoas ao país. E o mundo equestre não é só a nível local, é a nível regional, estende-se pelo nosso distrito, como é evidente. Seja em Santarém, seja em Tomar: todo o distrito está ocupado por quem vem visitar a Golegã. No ano passado, nós tivemos mais de 2000 cavalos inscritos para entrarem no Largo do Arneiro. Portanto, só os que entram no largo da feira são 2000, agora imagine-se o volume de equídeos que passa por aqui. Sobretudo, quando vêm ver o cavalo, vêm ver as coudelarias e descobrem o mundo equestre português.

Portanto, não se pode falar da Feira do Cavalo sem referir a sua importância económica? Sobretudo, há aqui uma economia empreendedora das pessoas que disponibilizam os seus espaços para puderem melhorar a sua qualidade de vida durante o ano. O São Martinho é uma lufada de oxigénio para os goleganenses, e eu acho isso importantíssimo. A câmara sabe que esta Feira não lhe traz grandes rentabilidades, nem a associação que a faz tem fins lucrativos. Mas a nossa função é promover, propiciar aos nossos residentes e às pessoas do nosso concelho que possam aproveitar da melhor forma o evento. A Golegã vive do seu sector primário mas tem que ser cada vez mais atractiva e tem, cada vez mais, que captar investimento sob o ponto de vista do turismo equestre. A Feira Nacional do Cavalo é uma mostra de turismo equestre, para além de ser o maior entreposto comercial do puro-sangue lusitano. Eu acho que este certame é o ‘pivot’ do que se passa na região centro de Portugal em termos de eventos, é o mais importante. O cavalo é o ícone da Golegã mas, na Golegã, não se vive do cavalo. O cavalo é o chamamento para as pessoas virem a cá, para descobrirem a capital do cavalo mas, depois, há toda uma serie de vertentes importantíssimas como a museológica: temos três museus importantíssimos. A Casa Estúdio Carlos Relvas, o Museu Municipal Martins Correia e o Museu da Máquina de Escrever.

A Golegã não é só Feira de São Martinho. É um concelho ligado ao sector primário mas em que a grande aposta também passa pelo turismo, como referiu. Defende uma aposta mais clara neste sector? O Turismo Equestre não pode ser o parente pobre do Turismo. É um produto específico, é um produto que tem todas as condições para ser de excelência, que pode criar empregos e dinamismo económico. É nesse sentido que a Câmara apoia eventos como a Expoégua, o ‘Ole Golegã’ e recebemos com muita regularidade, sejam concursos, campeonatos de equitação de trabalho, saltos de obstáculos, sobretudo agora que o Centro de Alto Rendimento (CAR) para Desportos Equestres é, de há um ano para cá, a sede de formação da Federação Equestre Portuguesa. Estamos a trabalhar no sentido de internacionalizar mais este equipamento. Isto porque temos uma vantagem em relação a outros europeus: temos sol como ninguém, temos hotelaria e restauração a preços competitivos. Como costumo dizer, temos tudo o que os outros têm e tudo o que os outros não têm. Estamos a uma hora do Aeroporto de Lisboa a 5 minutos da estação do maior nó ferroviário do País e a uma hora e um quarto da Gare Marítima de Alcântara. Faz todo o sentido cada vez promover mais o CAR no estrangeiro. A Golegã é a Capital do Cavalo e não queremos que o seja só na Feira de S. Martinho: queremos que essa capitalidade seja afirmada durante todo o ano. Acabamos por conseguir trazer à Golegã, em mais momentos do ano, mais pessoas. Claro que não se compara com a moldura humana que se verifica no São Martinho, mas este evento tem características especiais. Agora, temos de conseguir, através de outros eventos de outra dimensão fazer com que as pessoas venham à Golegã. E isso tem acontecido.

No editorial do catálogo da Feira deste ano, referiu que a Golegã devia ser considerada Destino de Interesse Turístico Internacional. Qual é importância deste ‘selo’ de qualidade? Na verdade, a Feira da Golegã é um marco singular do calendário festivo português e merece ser declarada como Destino de Interesse Turístico Internacional, à semelhança de algumas suas congéneres europeias. A Golegã é conhecida já no mundo pela sua singularidade: é um embaixador, é um ícone, como o vinho do Porto ou como algo que faz parte da nossa cultura identitária. Quando se fala da Golegã fora do nosso país, as pessoas falam imenso da feira e do cavalo. Eu acho que fazia todo o sentido que a nossa tutela nos apoiasse: esta feira não tem apoio algum da tutela. É preciso que se saiba: o Estado Português aqui, em termos pecuniários, não dá qualquer apoio. Nós fazemos sozinhos a Feira Nacional do Cavalo. A Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo tem prestado algum apoio mas, de resto, isso não acontece. E temos algo que nos dá menos saúde económica: uma grande redução de apoios privados e patrocínios. Portanto, organismos como o Turismo de Portugal e mesmo a Entidade Regional de Turismo deveriam dar um apoio mais forte a este certame que é uma das maiores manifestações de turismo equestre. A Golegã é a referência, é berço de toda esta tradição e de toda esta modernidade do mundo equestre português. Portanto, faria todo o sentido a nível nacional, existir um apoio claro.

A Feira tem espaço para crescer? Eu prefiro uma feira boa do que uma que passe ou transcenda a sua dimensão, ou que possa alojar uma maior quantidade de visitantes, sem dar uma oferta de qualidade. Repito: nesta Feira desfila o nosso passado como um museu vivo e dinâmico. A Sela à portuguesa, que uma grande maioria dos Cavaleiros utiliza, assim como, outros arreios, quando passeia e se apresenta na manga ou no picadeiro central, é tal e qual a sela barroca, que reis, príncipes e a academia equestre usavam, guardando, na actualidade, os seus traços principais do século XVIII. E na nossa Feira desfila uma maneira de ser e de estar, sobretudo pelo Cavalo Lusitano, com o qual, ao longo dos últimos séculos, desenvolvemos uma equitação superior, aliada à sua selecção criteriosa, nas últimas três décadas, que elevou as suas qualidades morfo-funcionais, tornando-o mais atractivo e procurado pelo mundo equestre, de todos os Continentes. Somos uma terra do século XXI e, portanto, queremos pôr-lhe a modernidade e a actualidade, mas sem menosprezar a carga que transportou e essa, penso que é a defensora principal na sua génese. Não tenho dúvida nenhuma que um dia que a desvirtuem ou a queiram mudar de sítio, a matam.

Estamos a meio deste mandato autárquico. Que balanço faz destes últimos dois anos? Eu costumo dizer às pessoas, nesta minha vinda de novo, neste novo ciclo – vou fazer 20 anos, daqui a dois de Presidente da Câmara – que nunca devem voltar ao sítio onde foram felizes, porque não encontramos as coisas como eram (risos). Não vale a pena falar agora em quem me antecedeu no anterior mandato: cada um faz o que pode e o que sabe… Estes dois anos serviram, sobretudo, para equilibrar e reabilitar determinado número de situações que nós achávamos que eram prioritárias. Esta Câmara vive, além de poucos recursos humanos, com poucos recursos financeiros. Somos um concelho iminentemente rural com as dificuldades que são inerentes a este tipo de território. Mas penso que agora já estamos mais equilibrados e mais saudáveis, mas foi um grande esforço. Eu gosto imenso de criar e de inovar, mas estes dois anos foi mais para recuperar, reabilitar e estabilizar. Nos próximos dois serão para fazer algo de novo indo ao encontro das pretensões dos nossos munícipes.

Quais são as prioridades para os próximos dois anos? Que projectos estão na calha? Tenho três projectos principais que visam melhorar a qualidade de vida dos nossos municípios. A Golegã foi das primeiras vilas a interditar a circulação de pesados no seu interior. Nesse sentido, a minha prioridade, é fazer uma via de circulação externa, confinante com a estrada de S. Miguel para que não passe mais nenhum pesado a não ser que seja agrícola ou residente. Outra das prioridades é a de reabilitar um equipamento importantíssimo que é o Cineteatro de Gil Vicente, porque é uma casa de cultura, é um centro de encontros. Na Azinhaga, temos o propósito de requalificar a praça do largo onde está a escultura de José Saramago: vamos redignificar todo aquele espaço em calçada e, no Pombalino, há um projecto que acho importantíssimo. Apoiar a construção de uma ERPI: Estrutura Residencial Para Idosos, no sentido, também, de gerar ali postos de trabalho e possibilitar que as pessoas mais idosas tenham qualidade de vida.

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