A escritora Teresa Margarido, natural de São Vicente do Paúl, lançou o seu livro intitulado “Tu e Eu, Vida e Dor”, uma obra de ficção de cariz intimista publicada sob a chancela da editora Primeiro Capítulo (Grupo Editorial Atlântico) que explora as dualidades da existência. A obra já atravessou o Atlântico e chegou ao público brasileiro.
Em entrevista ao Correio do Ribatejo, a autora residente em Santarém revela como o equilíbrio entre o campo e a cidade molda a sua escrita e analisa o impacto internacional da obra.
O título “Tu e Eu, Vida e Dor” sugere uma dualidade constante. Quem são este “Tu” e este “Eu” no livro?
Tu e Eu, somos todos nós. Neste livro, o Tu e o Eu representam alguém que a vida molda de uma forma sublime e, ao mesmo tempo, profunda.
São fragmentos de momentos e pessoas comuns que tentam estruturar, fazer planos. Contudo, do nada, esses mesmos planos tornam-se obsoletos e sem sentido, no continuar, no caminhar por mais um dia. Cada momento pelo qual passamos pode reflectir-se na escrita.
Sendo uma obra de ficção, como foi criar personagens que personificassem conceitos reais e profundos, como a vida e a dor?
As personagens surgiram no desenrolar da história, no encadeamento de ideias. São figuras do dia-a-dia, da minha própria experiência ou daquela que é partilhada por cada um que a lê, que sente a história, se deixa levar por cada frase e a saboreia.
Deixo aqui o desafio ao leitor: que sinta a narrativa e atribua o seu próprio nome às personagens, que no fundo todos nós conhecemos.
Houve alguma história real local que tenha servido de inspiração para estas personagens ou eventos do livro?
São sentimentos vividos e levados aqui ao extremo, numa escrita que tento que seja simples, fazendo chegar ao coração de quem lê.
São personagens inspiradas, em cada ser humano, individualmente ou enquanto humanidade. São figuras que tentam trazer sentimentos que se encontram mais escondidos, por vezes na labuta do dia-a-dia, mas que precisamos explorar e deixar fluir.
Nasceu em São Vicente do Paúl e reside em Santarém. De que forma a identidade destes dois lugares influenciaram a sua escrita?
A minha escrita respira a dualidade dos lugares que me habitam. Nasci em São Vicente do Paúl e resido em Santarém, e é nesse equilíbrio entre a labuta e a calmaria que encontro a minha voz.
Santarém é para mim o ritmo da cidade: a correria, o trabalho, a urgência dos dias e o movimento que nos empurra para a frente. Mas, na outra face da moeda, está a minha aldeia. É para lá que fujo sempre que preciso de me encontrar. São Vicente do Paúl é o meu refúgio, o lugar onde a força do trabalho físico me ajuda a combater fantasmas e a desarmar a mente.
Escrever é, para mim, o reflexo disso: saber ser cidade e aldeia ao mesmo tempo. É onde a “casa” da minha infância encontra a “luta” do meu presente, transformando memórias e cansaço em palavras que todos podem sentir.
O livro já atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil. Como tem sido a recepção do público brasileiro à sua obra e escrita?
Tem sido uma experiência gratificante ver a minha obra atravessar o Atlântico e encontrar abrigo no coração do público brasileiro. A recepção não podia ser mais generosa.
O que mais oiço dos leitores no Brasil é que se sentem retractados em cada frase. Dizem-me que conseguem viver — e muitas vezes reviver — os seus próprios momentos ao longo dos capítulos.
Não importa em que lado do oceano estejamos, todos partilhamos as mesmas dores, as mesmas buscas e os mesmos recomeços. Ver que a minha escrita serve de espelho para tantas pessoas, a milhares de quilómetros de distância, é a confirmação de que, no fundo, falamos todos a mesma língua: a das emoções.
O livro está disponível também em grandes superfícies (FNAC, Bertrand, Wook), mas também na Livraria Costa, em Santarém. Se um leitor entrar na livraria e encontrar esta obra, o que lhe diria para o convencer a lê-la?
Este livro não é apenas mais uma história na estante; é um espelho. Se é o tipo de leitor que não tem medo de sair da sua zona de conforto para se encontrar, esta obra foi escrita para si.
Muitas vezes, passamos a vida a fugir de certos assuntos, tentando esquecer o que nos dói ou o que nos desafia, mas são precisamente essas fracções que compõem quem somos hoje. Não o leia apenas para passar o tempo. Leia-o para se surpreender com a sua própria capacidade de mudar e de sentir. Permita-se esta pausa.
Depois de um livro tão denso emocionalmente, já tem novos projectos literários em mente?
A escrita é a minha forma de expressão por excelência; é o meu refúgio e a bússola com que ordeno o meu mundo interior.
De uma coisa tenho absoluta certeza: voltarei a escrever. Porque enquanto houver ideias para organizar e sentimentos para partilhar, haverá sempre uma página à minha espera.
