Chamusca – 14 de Maio, às 18 horas – Corrida à Portuguesa. Cavaleiros: João Salgueiro da Costa, Tristão Ribeiro Telles e Vasco Veiga (Praticante); Forcados: Amadores da Chamusca e do Aposento da Chamusca; Ganadaria: Oliveira, Irmãos (490, 460, 480, 480, 460 e 480 Kgs); Director de Corrida: Marco Cardoso; Médico Veterinário: Dr. José Luís da Cruz; Entrada de Público: Casa Cheia; Tempo: Fresco e ligeiramente ventoso.
O cartel da tradicional corrida da Ascensão teve o mérito de ser diferente da maioria dos que por aí vemos anunciados, tendo como base alguns dos mais jovens cavaleiros que têm registado expressivos êxitos na sua carreira e que, naturalmente, têm de começar a assumir a importância daquilo que fazem, para justificar o interesse do público.
Em termos tauromáquicos nunca nada está garantido, tendo de se conquistar a pulso a solidez de uma carreira, e é isso que se consegue quando Os jovens toureiros assumem essa responsabilidade e dão o melhor de si tarde após tarde.
João Salgueiro da Costa, após algumas boas indicações iniciais quando surgiu com maior regularidade nas nossas praças, tem vindo finalmente a consolidar a sua posição cimeira, sendo fiel a um estilo de toureio de verdade e com base na dimensão emotiva, que muito o valoriza. Tristão Ribeiro Telles, já não é apenas o jovem que gera uma enorme empatia com o público, alicerçada num toureio dinâmico e gracioso, pois já na última temporada se impôs pela categoria com que supera os tremendos desafios que assume, triunfando na maioria das corridas em que se apresenta. Vasco Veiga, o mais jovem da terna e ainda como Praticante, exibe um toureio bem estruturado, monta primorosamente e tem os cavalos muito bem arranjados, pelo que, apesar da juventude, já se apresenta de igual para igual com os seus pares, alardeando faculdades que o hão-de catapultar para uma posição de topo entre a cavalaria nacional.
Quanto às pegas estamos conversados, pois um duelo entre os dois excelentes Grupos locais, ambos servidos por forcados de elevada qualidade, e com o aliciante de se apresentarem perante os seus conterrâneos, numa festa tão marcada pelas tradições festivas, só poderia constituir uma das mais fortes atracções do cartel. E corresponderam às melhores expectativas.
Os toiros de Oliveira, Irmãos, bem-apresentados, com mobilidade e transmissão, exigentes, investindo com nobreza e alegria, deram um excelente jogo e proporcionaram bons êxitos aos cavaleiros e aos forcados, o que justificou a chamada do ganadeiro, Paulo Tomé, para uma justa volta à arena, após a lide do último toiro da corrida. O público vibrou em alguns momentos e no final estava satisfeito. Quando termina assim, não é nada mau…
Não se poderá afirmar, sem receio de contraditório, que nenhum dos toureiros em praça triunfou absolutamente, embora todos tenham deixado detalhes de muito interesse, lamentando-se alguns toques nas montadas, mais por distracção dos cavaleiros do que por maldade dos toiros. Há uma máxima taurina, segundo a qual nunca se pode perder a cara a um toiro, mas os jovens marialvas, mais apostados na sua interacção com o público, nem sempre respeitam este preceito, pelo que, depois, são apanhados de surpresa.
João Salgueiro da Costa começou por enfrentar o toiro menos cumpridor da corrida, porém, primando por uma brega correcta, logrou colocar a ferragem em sortes meritórias, destacando-se alguns ferros curtos a pisar os terrenos da verdade. O segundo do seu lote permitiu outro luzimento ao jovem marialva de Valada, que adequou terrenos e distâncias e cravou a ferragem, especialmente os curtos, em sortes muito correctas e emotivas. Salgueiro da Costa empolga-se na cara do toiro e arrisca a reunião em terrenos que pesam muito, pela exposição, o que, indubitavelmente, tem muito mais mérito. O público aplaudiu com vigor e entusiasmo a actuação de João Salgueiro da Costa.
Tristão Ribeiro Telles, embora inspirado na ortodoxia peculiar dos cavaleiros da Torrinha, cultiva um estilo de toureio muito peculiar, onde caldeia de forma muito interessante a verdade do classicismo com a irreverência artística dos alardes e da brega, alegre, dinâmica e vistosa. No mais mexeu bem os dois toiros, colocando-os nos terrenos mais acertados e cravou a ferragem em sortes plenas de mérito e de verdade, nomeadamente com os ferros curtos, em que define bem os tempos da sorte, desde o cite, mais largo ou mais curto, até ao remate após a colocação do ferro. Já com os compridos, as coisas não foram exactamente assim, pois, Tristão Ribeiro Telles coloca os compridos sem citar, misturando um pouco de toureio marialva com rejoneio. O cavaleiro da Torrinha, que personifica um pouco de cada um dos tios e primos da mesma escola, tem a seu favor a simpatia e a alegria que irradia em todo o tempo, levando o público a entregar-se-lhe por completo.
Vasco Veiga tem tudo para ser figura do toureio. Em todas as vezes que temos tido a oportunidade de o ver tourear aumentamos o nível da nossa expectativa, pois acreditamos que este jovem cavaleiro tem todos os atributos para triunfar nesta exigente carreira. Para além de montar muito bem e de estar muito bem servido de montadas, Vasco Veiga evidencia uma intuição profunda, que o leva a desenhar cada sorte com todos os condimentos que lhe são exigidos, aliando a esta perfeição o repouso com que se movimenta na arena. “A los toros todo se hace despacio…”, esta é uma verdade incontornável, pois só quem lidar com temple, acertar nos terrenos e nas distâncias pode mandar na investida do toiro, e Vasco Veiga reúne estes atributos fundamentais. Foi tudo perfeito nesta tarde? Claro que não, há aspectos a melhorar, nomeadamente a colocação dos ferros, menos dispersa, contudo, o essencial está lá. Teve a dignidade de se recusar a dar volta à arena após a lide do seu primeiro toiro, e fez muito bem, porque as coisas são saíram tão bem como todos desejávamos. Até neste pormenor Vasco Veiga esteve bem!
Os toiros chegaram ao momento da pega com andamento, mas sem maldade, pelo que os dois Grupos chamusquenses lograram rubricar uma tarde muito digna, embora não sendo perfeita, pois quatro toiros foram pegados à primeira tentativa, um à segunda e outro à terceira.
Pelos Amadores da Chamusca foram solistas o Cabo Diogo Marques, Francisco Costa e Miguel Santos e pelo Aposento da Chamusca foram à cara Vasco Coelho dos Reis, na pega da tarde, Miguel Crespo e Francisco Souto Barreiros Andrade, neto do saudoso Rui Souto Barreiros, que fez nesta corrida a sua despedida, embora sem despir a jaqueta de ramagens que tão bem dignificou ao longo de uma trajectória irrepreensível.
No final foram anunciados os prémios para a melhor pega, atribuído a Vasco Coelho dos Reis (Aposento) e para o melhor Grupo, aos Amadores, os quais foram entregues, respectivamente, pelo Presidente da Câmara Municipal da Chamusca, Nuno Mira, e pelo Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Chamusca, Nuno Castelão.
Em bom plano estiveram também os bandarilheiros das três quadrilhas e os campinos que recolheram diligentemente os toiros, o que tornou a corrida menos prolongada.
Enfim, assistimos a uma agradável corrida de toiros, com praça cheia e excelente ambiente, dirigida sem motivos de reparo por Marco Cardoso, assessorado pelo médico veterinário Dr. José Luís da Cruz.




