“À pandemia poderá somar-se um pandemónio”

O investigador Miguel Castanho lidera actualmente o grupo de Bioquímica do Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa que está a testar moléculas para avaliar a sua possível acção contra o vírus SARS-CoV-2, que causa a COVID-19. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o cientista, natural de Santarém, fala das incógnitas que persistem sobre a doença e da preocupação que lhe inspiram vacinas feitas à pressa: “estão a ser criadas expectativas exageradas, que podem resultar em imensa frustração das pessoas, descrédito das instituições científicas e pouca adesão a outras iniciativas de saúde pública”, alerta o investigador.

Em 2002-2003, quando a Ásia foi atingida pelo surto de SARS, integrou equipas de investigadores internacionais que estudaram o vírus na origem da doença, o SARS-CoV-1. Posteriormente, foi-se instalando o desinteresse e todo o trabalho ficou suspenso. Foi uma oportunidade perdida?
Assim foi. Na sequência da epidemia de SARS, muitos investigadores dedicaram-se a estudar o respectivo vírus e iniciaram-se muitos estudos, que, entretanto, foram interrompidos. Com a ameaça de uma pandemia geral nessa altura, houve grande mediatização e, com ela, grande interesse político, a que se seguiu a disponibilização de recursos. Iniciaram-se pesquisas sobre o modo de acção do vírus e como o deter. Com o passar dos anos, a pandemia não se consumou, o interesse caiu, os recursos foram suspensos e os projectos de investigação cessaram. Foi uma oportunidade perdida, sim, no sentido em que nestes projectos poderíamos ter feito avanços importantes no entendimento dos coronavírus e no desenvolvimento de terapêuticas. Pagamos hoje o preço da oportunidade perdida com custos muito mais altos, quer em vidas humanas, quer materiais.

Podemos, então, extrapolar e afirmar que há uma tendência geral para menosprezar as doenças infecto-contagiosas, sejam virais ou bacterianas? As lições do passado não são aprendidas como deviam?
Sim, existe essa tendência. O sucesso das vacinas e antibióticos no século XX foi estrondoso e mudou o curso da humanidade. Nos países com recursos para tal, as doenças infecto-contagiosas deixaram de ser um problema principal; a longevidade passou a ser limitada pelas doenças associadas ao envelhecimento, como doenças cardiovasculares e neurodegenerativas. Os microorganismos deixaram de fazer parte da nossa lista de preocupações, ao ponto de os termos esquecido. Em função desse esquecimento, deixámos de desenvolver antibióticos e vacinas inovadoras. Os vírus e as bactérias foram evoluindo, mas as nossas “armas” contra eles não. O resultado é que conseguimos avanços extraordinários contra o cancro e as doenças cardiovasculares, por exemplo, na segunda metade do século XX, mas no domínio das doenças infecto-contagiosas não se passou o mesmo. O resultado está à vista: bactérias super-resistentes que se estão a tornar um problema e vírus contra os quais usamos as mesmas estratégias de há 100 anos atrás, na gripe espanhola (máscaras e isolamento social). Curiosamente, com o desespero da protecção antiviral, estamos a derramar no ambiente toneladas e toneladas de desinfectante, arriscando problemas sérios com bactérias super-resistentes no futuro.

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Actualmente lidera o grupo de Bioquímica do Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos no Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa e está a testar moléculas para avaliar a sua possível acção contra o vírus SARS-CoV-2, que causa a COVID-19. A utilização de moléculas já aprovadas para uso humano noutras doenças poderá acelerar uma resposta terapêutica à pandemia?
Sim, sem dúvida, por duas razões: por um lado, os fármacos já aprovados para outras doenças já foram intensamente testados para eventuais efeitos toxicológicos, o que permite poupar tempo e recursos, por outro lado podemos estabelecer analogias – se o fármaco se liga a uma determinada parte de uma célula ou microorganismo, é provável que se ligue a zonas parecidas que eventualmente existam no vírus SARS-CoV-2. Explorar semelhanças, permite ter maior confiança em que esse fármaco vai resultar neste vírus também.
Quando surgiu o SARS-CoV-2 e se conheceram em detalhe as suas proteínas, logo se testaram alguns medicamentos anti-influenza (vírus da gripe) e anti-HIV tentando explorar detalhes comuns nestes vírus. Curiosamente, o primeiro sucesso não veio de nenhum destes medicamentos já em uso; veio de um medicamento experimental, que estava a ser testado para o Ébola. É, até agora, o único medicamento aprovado que tem como alvo o SARS-CoV-2 em si.

A corrida a uma vacina para a covid-19 tem-se intensificado, com anúncios de várias vacinas em teste, que, em prazos sucessivos, cada vez mais curtos, poderão estar prontas dentro de ano e meio, no próximo ano ou em menos de seis meses. Qual é a sua visão sobre este assunto e qual seria o prazo razoável para o desenvolvimento de uma vacina eficaz?
É uma questão importante. Uma vacina demora em média 10-15 anos a desenvolver e, em muitos casos, não se conseguiu uma vacina razoável apesar de esforços imensos, como é o caso da SIDA. A vacina mais rápida demorou 4 anos a desenvolver (papeira). Quando ouvimos falar em desenvolver vacinas em 6 meses (prazo que já se esgotou) ou um ano, é natural que nos interroguemos: se é possível fazer em um ano, como é possível que para outras doenças, igualmente importantes, não tenham conseguido ou tenham demorado 15 anos? A conclusão precipitada pode ser que os cientistas têm sido incompetentes, preguiçosos e pouco sensíveis à urgência em resolver soluções. Obviamente, não é este o caso. O que é irrealista é o prazo que nos apontam. Numa analogia simples: estando o record de corrida dos 100m em cerca de 10s e tendo os últimos records sido batidos por décimas de segundo, é expectável que alguém bata o record para menos de metade deste valor? Pode imenso dinheiro e muita inovação no equipamento levar alguém a correr 100m em menos de 5 segundos? Até que o demonstrem, o cepticismo é legítimo.
Um desenvolvimento rápido exige, além de tudo o mais, sorte. Desenvolver medicamentos e vacinas consiste em jornadas no desconhecido; é investigação, não se sabe o que vai acontecer. Existem muitos imponderáveis. É preciso sorte para que os imponderáveis não sejam muitos nem gravosos. É este factor de acaso que aconselharia a grande prudência ao prometer prazos. Não há prazos garantidos; nem o próprio sucesso do desenvolvimento das vacinas pode ser garantido. A OMS e vários responsáveis da indústria farmacêutica também têm alertado para esta situação. Estão a ser criadas expectativas exageradas, que podem resultar em imensa frustração das pessoas, descrédito das instituições científicas e pouca adesão a outras iniciativas de saúde pública, como a implementação de uma política de testagem organizada e sistemática.

Devemos então estar preparados para a possibilidade de não existir, sequer, uma vacina. Continuaremos limitados ao distanciamento social, às máscaras, à lavagem frequente das mãos e à desinfecção dos locais fechados frequentados por muitas pessoas?
Temos de deitar mão a tudo o que faça sentido. Infelizmente, a obsessão da vacina levou a que não se explorasse tanto quanto seria desejável o desenvolvimento de novos medicamentos, novos testes, novas formas de organizar espaços públicos e novos estudos para identificar os pontos críticos de contágio (Restaurantes? Transportes públicos? Escolas?…). Um pouco por todo o lado o poder político apoderou-se da discussão pública sobre vacinas e remeteu para uma futura vacina a solução messiânica do mal pandémico. Aconteceu na Europa, nos EUA, na Rússia, no Brasil… A proactividade dos governos na implantação de soluções foi substituída pela ilusão de uma vacina quase instantânea.
Sou favorável a investir concretamente, pela positiva, naquilo que é reconhecidamente crítico para o contágio, por oposição de uma política proibicionista, generalizada e sem foco. As máscaras e o distanciamento físico entre pessoas, tal como a lavagem frequente de mãos fazem sentido à luz do que sabemos sobre contágio. O uso indiscriminado de desinfectantes e a quarentena de compras, por exemplo, não fazem sentido. Um plano específico para áreas metropolitanas, sobretudo focados nos transportes públicos, faria sentido.
Um investimento na inovação de testes de diagnóstico não dependentes de zaragatoas e rápidos poderia mudar completamente o rumo da luta antiCOVID-19. Deveriam existir incentivos claros de investigação neste domínio, potencialmente capaz de um retorno mais rápido que uma vacina. Seria um excelente complemento ao desenvolvimento de novos fármacos e novas vacinas, mas os ovos têm sido quase todos colocados no cesto da vacina.

Não mencionou as aplicações informáticas de rastreio, como a Stayaway Covid, na qual utilizadores são alertados de contactos de risco com alguém confirmado como infectado com o novo coronavírus. Tem reservas quanto a esta opção?
Tenho um sentimento misto. Reconheço a utilidade potencial, mas a quebra de privacidade também pode ser um problema real. Embora nos tenham sido verbalizadas garantias de protecção de privacidade, a demonstração disso mesmo tem sido frágil e pouco convincente. A privacidade é um direito fundamental muito ameaçado pelos desenvolvimentos recentes nas tecnologias de informação.
Não deixa de ser curioso que tenha existido uma grande campanha a favor do programa Stayaway Covid (um nome complexo e pouco alinhado com a sua população-alvo, os portugueses…), sem que nunca tivesse havido uma única grande campanha a favor do uso correcto das máscaras. Tudo deveria ter começado por aí, por uma campanha precoce, no início da pandemia, pelo uso correcto das máscaras.

Admitindo que se desenvolve uma vacina, defende a inoculação obrigatória?
Não sabemos se alguma vacina de qualidade será aprovada, nem se será totalmente eficaz, nem quantas doses conferem imunidade, nem a que faixas etárias se destinarão. Sabemos que cerca de 60-70% da população tem de estar imune para conseguirmos protecção colectiva, mas não sabemos, na prática, como atingir este valor com tanta incerteza associada às vacinas. No entanto, parece certo que só uma vacinação minimamente extensa da população permitirá atingir uma imunidade colectiva verdadeiramente protectora. Neste sentido defendo uma vacinação universal. Sendo a COVID-19 uma doença com risco de mortalidade e tão disruptiva da nossa vida social, defendo também uma vacinação gratuita. Só a gratuitidade e uma comunicação transparente sobre a segurança e eficácia das futuras vacinas assegura a adesão da população à vacinação.
Recordo que, se for conseguida uma vacina segura e eficaz, a vacinação será um dever. A Constituição portuguesa garante o direito à saúde, mas também estabelece o dever dos indivíduos de defender a saúde colectiva. O direito à Saúde é dos mais reivindicados; teremos oportunidade de retribuir cumprindo também o dever da Saúde através da vacinação, caso seja possível.

Estamos a assistir, actualmente, a um aumento de casos a nível global. Na sua opinião, estamos na chamada ‘2ª vaga’ da doença? Existirão mais?
Estamos, claramente, a entrar numa segunda fase da doença, com uma nova tendência de aumento dos casos diários. Não sabemos se o número de doentes graves terá um aumento correspondente, mas creio que é correcto falarmos em “2ª vaga” no sentido de segunda fase de crescimento de contágios. Ao mesmo tempo, devemos resistir à tentação de fazer analogias detalhadas com a pandemia de Gripe Espanhola. Em 1918 a segunda vaga correspondeu a uma gripe de características diferentes (mais mortal) que a primeira vaga. Não temos razões para acreditar que esteja a acontecer o mesmo agora.
É possível que assistamos a vagas sucessivas, anuais, cada vez menos intensas até que o vírus ganhe sazonalidade e se torne menos perigoso, na generalidade, como é o caso da gripe comum.

Falando em gripe, aproxima-se uma época crítica no País. De que forma é que a circulação do vírus da gripe, conjugada com a SARS-CoV-2 poderá pressionar o sistema de saúde?
É impossível dizer. Existem vários factores contraditórios em jogo e não é possível antever qual o resultado. O uso de máscaras e o distanciamento físico entre pessoas também dificultará a disseminação do vírus da gripe. Uma diminuição de casos de gripe será benéfica. No entanto, nos casos em que influenza (o vírus da gripe) e o SARS-CoV-2 co-infetem a mesma pessoa, o desfecho pode ser substancialmente pior; um estudo recente aponta para uma probabilidade de um desfecho fatal aumentado de 2,7 vezes relativamente a pacientes de COVID-19 apenas.
Um aspecto pernicioso da coexistência de influenza e SARS-CoV-2 é a confusão de sintomas entre ambos. Sem a capacidade de distinguir entre ambos rapidamente, uma atitude preventiva e conservadora aconselha a tratar todos como COVID-19 até prova em contrário. Pode instalar-se o caos pela incerteza. À pandemia pode somar-se um pandemónio.

O Plano de Saúde Outono Inverno 2020/21 recentemente apresentado prevê uma estratégia nacional para a realização de testes para o diagnóstico diferencial dos sintomas respiratórios infecciosos, que concretize a rápida separação de doentes com covid-19 dos restantes doentes. Parece-lhe uma medida exequível?
Parece-me uma medida importante; quanto à exequibilidade, depende da conjugação de alguns factores críticos: testagem rápida para a gripe, testagem rápida para o COVID-19 e capacidade de reacção rápida dos serviços de saúde. Não vai ser fácil, sobretudo se começar a haver saturação da capacidade de resposta. Qualquer um destes factores é, por si só, um desafio.

Poderemos, na sua opinião, assistir a um novo confinamento?
Está a acontecer em alguns países e o nosso não está a salvo. Seria trágico do ponto de vista social, incluindo económico, mas, em situação calamitosa, não haverá alternativa. A economia pode regredir e recuperar mais à frente, mas as vítimas não. Compete a cada um de nós, sabendo o que já sabemos hoje, dar a sua contribuição para que um novo confinamento não seja necessário. Temos de ser capazes de encontrar um caminho que evite vítimas mortais, mas permita manter a vida social e económica, ainda que “metabolicamente” menos activas. Temos de resistir à ideia que só temos duas opções: economia viva com vítimas mortais ou o inverso. O uso criterioso de máscaras adequadas, a protecção dos grupos de risco e a manutenção de distância física entre pessoas, sobretudos em espaços bem arejados, permitirá manter alguma actividade social e económica e evitar contágios. Nas áreas metropolitanas, densamente povoadas, com mobilidade constante de pessoas em massa, a situação é mais difícil. São urgentes medidas ajustadas às áreas metropolitanas. Confinar ou não passará muito pelo que se vier a passar nas áreas metropolitanas, que são os nossos calcanhares de Aquiles.

FILIPE MENDES

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