Está atualmente em discussão pública o denominado Plano de Ação “Centro Vivo 2025-35”, reunindo um conjunto de propostas municipais para o Centro Histórico, iniciativa que se saúda. Não vou aqui referir-me ao plano como um todo. Quero antes dedicar algum tempo a um tema sobre o qual muito tenho pensado, desde que o Teatro Rosa Damasceno (TRD) fechou as suas portas em 1999: A Sala de espetáculos de que Santarém precisa. Assim, aqui fica o meu contributo para a discussão pública em curso.

Tanto do ponto de vista patrimonial, como no respeitante ao seu impacto na sociedade escalabitana, o TRD é um edifício, de qualidade e relevância amplamente reconhecida. Não será esse o meu foco neste texto. A sua memória deve ser preservada bem como a fachada com o seu jogo de átrios que se sobrepõem. Defendo igualmente que deve continuar a ter uma função ligada às artes de palco.

Defendo ainda que, por diversas razões que desenvolvo de seguida, não tem condições para ser hoje o Teatro Municipal que falta à cidade. Assumi esta posição aquando do seu fecho, afirmei-a publicamente diversas vezes em diversos locais e mantenho-a ainda com maior veemência hoje.

A sala de espetáculos de que Santarém precisa, deverá ter cerca de 700 lugares e ser vocacionada para acolher grandes produções artísticas, como concertos sinfónicos com orquestra, coro e solistas, grandes produções de dança, de teatro, ou de circo / novo circo, entre outras.

Por isso, deve reunir condições técnicas, logísticas e funcionais de elevado padrão, garantindo simultaneamente qualidade artística, conforto do público e eficiência operacional. De forma preliminar, chamo a atenção para os seguintes requisitos:

  1. Palco: Boca de cena: com 16 a 18 metros de largura; Profundidade útil: 16 a 18 metros; Altura livre sob teia: entre 18 e 22 metros; Bastidores laterais e retro palco: 6 metros para cada lado; isto significa que a área a reservar para palco e bastidores deverá rondar os 30 metros de largura, por 24m de profundidade. Acresce a necessidade de existência de fosso de orquestra móvel.
  2. Camarins: um concerto sinfónico (orquestra, coro e solistas) poderá envolver entre 220 e 250 pessoas. Há que ter capacidade para acolher esse número de pessoas. A quantidade de camarins depende da sua tipologia, mas, por exemplo, o Teatro Circo de Braga, tem setenta camarins.
  3. Localização: a localização deve respeitar várias preocupações: a inserção no tecido urbano, fácil acesso, servida por transportes públicos, estacionamento e proximidade a unidades hoteleiras e restauração, facilitando a receção de companhias nacionais e internacionais, e a atração de públicos diversificados. A integração na dinâmica cultural e urbana da cidade constitui também fator estratégico para a sustentabilidade e centralidade cultural. Mas, questões de logística que não poderão ser ignoradas. 

             3.1 Do ponto de vista da produção, há que salvaguardar um cais técnico com acesso direto ao palco e zona de manobra exterior, capazes de acolher camiões de grande tonelagem (TIR); 

             3.2 Do ponto de vista do público, há que salvaguardar capacidade de estacionamento na proximidade, para cerca de 400 viaturas.

Diversos outros espaços deverão ainda ser tidos em consideração, por exemplo: Acolhimento (bilheteiras, foyers, zona destinada a venda de programas / livraria, Instalações sanitárias, Bengaleiro), Espaços públicos e semipúblicos (café-Concerto/bar, Blackbox/espaço de ensaio, zona expositiva), Apoio (sala de aquecimento, espaço de co-working), além de espaços para os serviços educativos e para a gestão do equipamento.

Nada disto é possível, no espaço do atual Teatro Rosa Damasceno. Insistir nessa solução, é apostar numa sala que poderá ter 550 lugares, mas que do ponto de vista técnico pouco diferirá do Teatro Sá da Bandeira.

Pelas razões expostas, a sala que Santarém deseja, merece e precisa, deverá ser um edifício a construir de raiz, no Campo Emílio Infante da Câmara, local onde se podem reunir todas as condições necessárias. E, já agora, que se batize com o nome do mais importante ator que Santarém viu nascer: Mário Viegas. 

Quanto ao Teatro Rosa Damasceno, antecipo-lhe uma importante função pedagógica, ligada às artes do espetáculo. Desse projeto, falarei proximamente.

 

Nuno Domingos

 

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