Começou desde muito cedo, com os seus quatro anos, a dançar ao ritmo do folclore, através de vídeos no Youtube, ficando conhecido até aos dias de hoje por “João do Youtube”. 

João Estevão integra o Grupo Académico de Danças Ribatejanas, onde tem mantido e expressado o seu gosto pela dança e pela tradição. Paixões que têm sido partilhadas com os estudos, no curso de enfermagem. 

Nesta entrevista concedida ao Correio do Ribatejo, João Estevão recorda memórias de infância e reflecte sobre o futuro do folclore. 

Com que idade começou no Grupo Académico e por influência de quem?

A minha história é muito divertida, porque quando eu comecei a andar, comecei logo a assistir a vídeos do rancho no YouTube. Gostava de ver as saias a rodar, as cores e a minha avó decidiu fazer-me uma saia e eu andava por casa a rodá-la, isto com os meus quatro anos.  

Comecei assim em casa, mas nessa altura não queria ir para o rancho, dizia sempre que não queria, que era só para imitar, lá por casa.

Até que em 2016 fui mesmo e lá continuo, nunca quis ir para mais nenhum. 

Mas foi um bocadinho complicada a minha ida para lá, até eu conseguir dizer que queria ir para o rancho. Os meus pais andavam sempre a dizer-me: “Nós levamos-te!”

Tínhamos uma amiga conhecida lá, que é a Madalena, e ela também já me tinha dito que eu podia ir, que havia o grupo infantil. Tinha-me dito para eu ir experimentar e que se eu não gostasse vinha-me embora, mas eu nunca quis.

Eu sabia que os ensaios eram à sexta-feira à noite e houve um dia que eu disse: “É hoje!”. 

Que memórias guarda desses primeiros tempos? 

Foi muito giro, porque eu quando cheguei já sabia dançar as músicas todas. Eu entrei em Julho e estreei-me logo em Setembro, no festival. Ficaram todos muito admirados comigo, como é que eu já sabia tudo, sem nunca sequer ter ido a ensaios nem lá ter estado. E o que é certo é que até hoje ainda sou conhecido como o ‘João do YouTube’. 

Começou primeiro no Grupo Infantil e depois transitou para o Académico. O que é que o motivou a continuar? 

Eu sempre gostei muito das músicas do Grupo Académico. São muito mais mexidas, têm uma vivacidade um bocadinho maior do que as do Grupo Infantil. As músicas são mais simples para as crianças aprenderem, para depois poderem fazer a transição.

Quando entrei para o Infantil, passados um ou dois anos, comecei logo a fazer ensaios no Académico, só que não podia actuar, porque ainda não tinha altura suficiente para estar no meio de gente adulta. Comecei logo a dançar nos ensaios e gostava muito, o meu sonho era estrear-me, o que viria a acontecer em 2022, na Nazaré, e é até hoje.

Numa altura em que os jovens têm acesso a várias formas de cultura, o que o motivou a escolher o folclore? 

Eu acho que é muito importante nós termos esta vertente cultural. Eu gosto muito e a minha família também. É uma família de tradições, portanto, desde muito cedo fui acompanhando. Os meus pais também são pessoas com muita cultura e sempre me incentivaram. Claro que é tudo importante, videojogos, sair com os amigos, mas esta vertente da cultura também é muito importante.

O que tem significado para si fazer parte desta grande família?

Significa muito. O grupo dá aos jovens vários valores, como a entreajuda, a comunicação, o estarmos lá um para o outro, e eu sei que posso contar com qualquer um dos componentes do grupo, porque eu sei que eles estão sempre lá, e sempre que algum dia for preciso, sei que eles estão lá para mim. 

Quais foram as actuações que mais o marcaram? 

A minha primeira actuação, em 2022, na Nazaré, a minha estreia no Festival Celestino Graça, que foi ainda no Largo do Seminário, e as do próprio Festival que marcam sempre. É sempre aquele momento do ano que o Grupo espera para poder actuar, e para poder mostrar aquilo que andamos a fazer ao longo do ano inteiro. 

O João está actualmente em enfermagem. Porquê essa área de estudos? 

Eu sempre gostei muito da área da saúde, mas nunca foi assim uma coisa que me fascinasse. Eu sempre disse que o que  queria ser era piloto de aviões ou professor. 

No décimo segundo ano, que é quando a minha cabeça começou a perceber as médias e as disciplinas que eu queria e não queria, veio a área da saúde. Primeiro, pensei em medicina, mas como as médias eram muito altas, não consegui e vim para a enfermagem.

Desde que o meu tio faleceu de cancro, a área da saúde, em especial a área da oncologia, também me despertou curiosidade. Se calhar o gosto já cá andava, eu é que ainda não tinha descoberto.

Vem aí mais uma edição do Festival Celestino Graça, quais são as suas expectativas para esta edição? 

As expectativas são sempre muito altas. É o grande momento do Grupo Académico todos os anos e conforme o nosso presidente, o Dr. Ludgero Mendes refere, não são só as actuações dos grupos, nós também temos outros momentos como o Fandangando, ou outras acções às quais eu acho que valem muito a pena as pessoas aderirem. 

As pessoas falam muitas vezes: “Ah, o festival paga-se, é muito caro”, mas actualmente temos concertos de artistas a 100 euros, porque é que não se dá 3 ou 4 para o festival de folclore que deveria ser tão ou mais valorizado como os artistas internacionais ou nacionais? 

Gostaria de continuar com este legado do próprio grupo. Imagina-se a fazer parte da direcção algum dia? 

Sim, imagino. Faz parte dos meus planos. Eu gosto muito do grupo e quero mesmo continuar até conseguir. No fim de tirar o curso também faço questão de ficar em Portugal, portanto, acho que tenho todo o caminho para isso e gostava muito.

Que mensagem gostaria de deixar aos mais novos, para que continuem o legado e a tradição do folclore no futuro? 

Os jovens é um bocadinho difícil. Eu falo por mim, os meus colegas de enfermagem, não há nenhum que ande no rancho. E eu sinto que, por exemplo, quando eu tenho uma actuação em Santarém, às vezes digo: “Vão lá, vão ver, até pode ser que gostem e que queiram integrar o grupo”, mas eles respondem-me sempre: “O rancho é para os velhos, não tem interesse”. É pena, acho que deviam experimentar, porque só quando se experimenta é que sabe se queremos ou não. E, se calhar, até iam gostar. É pena que actualmente os jovens não tenham esse interesse.

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