A ligação entre Santarém e a Nazaré é uma das tradições de veraneio mais antigas e castiças de Portugal. Após as colheitas de Verão no Ribatejo, as famílias da região de Santarém procuravam o ar iodado da Nazaré. O termalismo e os banhos de mar, ganharam força na segunda metade do século XIX, como tratamentos de saúde. Famílias ribatejanas alugavam casas às gentes locais (as tradicionais “mulheres das sete saias”), partilhando muitas vezes a cozinha com os senhorios. A praia enchia-se de toldos e barracas de lona listada, onde os scalabitanos passavam o dia protegidos do vento forte da costa oeste. A Nazaré transformava-se numa “Santarém de praia”. Encontravam-se os mesmos vizinhos, comerciantes e conhecidos do Ribatejo, mas num ambiente descontraído de férias.

Para os filhos da Lezíria, a Nazaré nunca foi apenas uma praia geográfica; foi, desde tempos (i)memoriais, uma recompensa sagrada. Deixavam para trás o calor seco do interior, e rumavam ao Atlântico, numa peregrinação anual que unia o verde do campo ao azul do mar. A viagem, naqueles tempos em que o alcatrão ainda não encurtava as distâncias, era um ritual de paciência e alvoroço. Os carros e as camionetas seguiam pesados, carregados de malas de cartão e farnéis generosos. Levava-se o Ribatejo na bagageira: o vinho da região, o azeite caseiro, os enchidos e os melões maduros. A ansiedade miúda das crianças só sossegava quando, no cimo da última curva da estrada, a descida para a praia revelava a imensidão do oceano e o casario branco encastrado na arriba.

Famílias inteiras de lavradores e pequenos comerciantes instalavam-se em casas de pescadores, cujas donas dormiam muitas vezes na cozinha ou num vão de escada para rentabilizar o verão. À chegada, a Nazaré acolhia-os com o seu odor característico a maresia e peixe a secar ao sol. As famílias scalabitanas instalavam-se em quartos alugados às gentes da terra, mulheres de olhar firme e sete saias sobrepostas. Partilhavam-se cozinhas, pátios e histórias. À mesa do almoço, operava-se uma fusão perfeita: o carapau fresco, acabadinho de pescar, casava com o pão de trigo e os tomates sumarentos trazidos das hortas do Tejo.

O areal da Nazaré, nesses anos dourados, dividia-se em bairros invisíveis de proveniência.  Alugavam-se as tradicionais barracas de lona grossa e listada, que ofereciam um abrigo robusto contra a Nortada e o nevoeiro costeiro que por vezes teimava em tapar o sol. Sob os toldos e as barracas de lona listada, que os protegiam da persistente Nortada, os scalabitanos recriavam a sociabilidade da sua terra natal. O areal transformava-se numa Santarém flutuante à beira-mar; os homens jogavam às cartas e discutiam a política da lavoura; as mulheres vigiavam as crianças que enterravam os pés na areia molhada e enfrentavam, com respeito e algum medo, a rebentação forte daquela água gelada. O vestuário de praia da época mantinha o pudor daqueles tempos. Os fatos de banho de lã, que demoravam horas a secar, davam progressivamente lugar aos tecidos mais modernos no final dos anos 60, mas o respeito pelo mar e pelas convenções permanecia intacto. Ao fim da tarde, o passeio marginal enchia-se de famílias em trajes Domingueiros para ver a “arte xávega”, o arrastão das redes à força de braços e juntas de bois, onde os scalabitanos compravam o peixe diretamente dos barcos que galgavam a areia.

Havia também o dia do Sítio, um compromisso solene. A subida no ascensor, com o estômago a encolher-se à medida que a arriba se agigantava, culminava no Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Ali, as mães ribatejanas acendiam promessas e compravam fitas coloridas, agradecendo a saúde e pedindo fartura para as sementeiras de outono. Os homens da terra agradeciam as colheitas do ano e pediam proteção para o Inverno que havia de vir, olhando o mar lá de baixo como quem contempla um milagre renovado. Era ali, do cimo da arriba, a olhar os toldos alinhados lá em baixo e o mar a perder de vista, que os scalabitanos guardavam na memória a imagem do Verão que os haveria de sustentar durante todo o inverno na planície.

Os anos passaram e a modernidade transformou a paisagem. O IC9 e as autoestradas reduziram a viagem a pouco mais de uma hora. Os farnéis deram lugar aos restaurantes de marisco e a pacatez da vila abriu-se ao mundo, transformada num lugar de romagem global do surf de ondas grandes. Hoje, a Nazaré fala dezenas de línguas e acolhe clãs de todos os continentes. No entanto, por baixo da espuma fina da globalização, a velha ligação permanece intacta. Quando o calor aperta em Santarém, o scalabitano continua a procurar o mesmo areal. Senta-se à beira-mar e, ao ouvir o estrondo das ondas contra a costa, reconhece o mesmo porto de abrigo que, geração após geração, ensinou as mulheres e os homens do campo, a amar o mar, e numa MEMORÁVEL comutação, o mar a amar a Lezíria!

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