Fundada oficialmente em 2023, a Associação Marsuppianee está a desenhar um novo capítulo na cultura scalabitana, ao unir o teatro de rua, o circo, a história e o misticismo. Com sede na Incubadora d’Artes de Santarém, localizada na Rua Luís de Camões e instalada no edifício da antiga Escola de Salvador, a estrutura liderada por Pedro Pelarigo leva as artes circenses a várias feiras medievais do país e escolas da região.
Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o mentor do projecto revela o percurso, os desafios e a ambição de transformar a percepção da cultura circense na cidade ribatejana.
A Associação Marsuppianee nasceu oficialmente em 2023. Quais eram as lacunas culturais que identificaram em Santarém que tornaram urgente a criação desta estrutura?
Isto é uma associação que eu já tinha o sonho de criar há muito tempo. Já tinha feito parte de outra associação em Santarém, a Human’Art, há cinco ou seis anos e onde aprendi muito. Tirei o curso de teatro e sempre fui muito ligado a esta área, com o sonho de criar algo meu. Iniciámos com um grupo de amigos, mas começámos a ter muito trabalho e decidimos abrir a associação. Inicialmente, a nossa sede era em Vale de Figueira, mas depois a Câmara Municipal de Santarém cedeu-nos um dos espaços da Incubadora d’Artes que tem sido um apoio importante para a nossa actividade.
Santarém tem uma história muito vasta e rica. De que forma a Associação procura equilibrar o legado histórico com a inovação visual, como o uso de personagens místicas, nas feiras medievais?
As feiras medievais são um dos nossos pontos fortes. É o evento onde nos dedicamos mais. Temos aqui no nosso atelier fatos que estamos agora a criar para personagens místicas. Quando eu disse que queria inovar mais, não era só inovação relacionada com espectáculos de fogo e de circo, mas também envolvendo outras coisas como as personagens místicas e as estátuas que também fazemos em feiras medievais. Gostamos muito das feiras, actuamos de norte a sul do país, vamos às ilhas e já tivemos propostas para ir ao estrangeiro.
Para além do espectáculo, a Marsuppianee colabora com escolas e instituições. Como é que as artes de rua podem ser uma ferramenta de inclusão e formação para os jovens da região?
Neste tipo de actividades estamos a falar em malabares e expressões dramáticas que trabalham muito a coordenação e a mente das crianças, porque é preciso desbloquear vários passos e isso para o dia-a-dia deles é óptimo. De momento temos um projecto que é ‘Os Marsuppianee vão à Escola’ e estamos a apresentar espectáculos de circo gratuitos, com o intuito deles verem alguma coisa fora do comum na cidade.
Muitas vezes as artes circenses são vistas como algo secundário na hierarquia cultural. Sentem que o público de Santarém está hoje mais educado e receptivo a este tipo de arte do que estava há uns anos, ou ainda há um longo caminho a percorrer?
A maior parte das pessoas ainda vê as artes circenses como algo secundário, mas há pessoas que também valorizam muito o nosso trabalho. Porque isto não é só aquilo que as pessoas vêem. Não é só chegarmos a um sítio, apresentarmos o espectáculo e as pessoas gostam, sendo que ficam a pensar nisto mais como uma forma de entretenimento. Nós temos muitas horas de treino e várias pessoas a trabalhar connosco que dedicam diariamente muito tempo a preparar-se para os espectáculos. Às vezes é um pouco frustrante, quando estamos a treinar e as coisas caem e nós a querer que as coisas saiam bem. Daí o trabalho que é preciso ter, para se poder dizer que é um artista circense.
Como é que vê o futuro da Marsuppianee daqui a cinco anos e qual é o legado que gostariam de deixar na cidade?
Espero que a Associação cresça muito e que possa estar activa durante muito tempo. Acho que as pessoas vão gostar dos nossos projectos para o futuro, porque não são pensados apenas para nós, mas para a própria sociedade.

