Em muitas regiões do nosso país era tradição fazerem-se as fogueiras de S. João – estendidas em algumas localidades ao culto dos três santos populares – nas quais eram queimadas plantas e arbustos aromáticos, entre os quais o rosmaninho, o alecrim e as giestas, acreditando-se que o fumo dessas fogueiras tinha um efeito purificador, prevenindo contra doenças e outras adversidades.
Actualmente estas festividades estão profundamente turistificadas e perderam a essência que esteve na sua origem e evolução, mas claro os tempos também são outros e as realidades sociais bem distintas de outrora. Agora assistimos a grandes arraiais de comes e bebes, às marchas populares, especialmente no Santo António, em Lisboa, e a outras diversões que arrastam multidões, o que, convenhamos, é muito positivo.
Antigamente nas aldeias era hábito recolher-se o rosmaninho com alguma antecedência em relação à noite santa, de modo que nesta ocasião os arbustos já estivessem meio-secos e, assim, pudessem arder mais facilmente. A ida ao mato para cortar o rosmaninho era já por si só um pretexto festivo, uma vez que quem participava neste trabalho comunitário eram os jovens, alguns dos quais viriam a apalavrar o namoro por esta altura. Aliás, S. João, tal como também o Santo António, tinha entre os seus atributos o de ser casamenteiro.
Este preparativo fundamental é, desde logo, um pretexto para a juventude se divertir, num tempo em que as oportunidades de passatempo eram muito escassas, verdadeiras excepções numa vivência de trabalho duro, penoso e miseravelmente remunerado.
Como antigamente a data do Santo Popular não era feriado, salvo se coincidisse com a festa do padroeiro do município, a fogueira acendia-se logo após a ceia – o que corresponde actualmente ao nosso jantar – e duraria até cerca da meia-noite. Ainda antes da fogueira, os rapazes e raparigas em idade namoradeira haveriam de colher algumas alcachofras que durante o serão seriam queimadas.
O ritual era simples: na noite de Santo António, de São João ou de São Pedro, jovens apaixonados colhiam as alcachofras, cuja corola começa a roxear pelo mês de Maio, e no campo destacam-se bem entre as garridas papoilas e os vistosos malmequeres. O rosmaninho alimentava as chamas, perfumando o ar de cheiro a verão em fogueiras que constituíam também um ritual de iniciação. E quando o fogo estava já em fase decrépita, por volta da meia-noite, hora muito simbólica pela transição que representa, os enamorados passavam a alcachofra pelo lume, recolhendo-a depois para a plantar num vaso de terra húmida, para facilitar o eventual renascimento. E era neste gesto de esperança e de grande expectativa que a alcachofra se transformava em sinal revelador do destino dos crentes: se a planta florescesse o amor era para durar, em caso contrário melhor seria bater a outra porta.
E a verdade é que algumas alcachofras conseguiam florir aqueles lilases intensos, em curioso contraste com os austeros picos que os sustentam – a que não deverá ser indiferente a metáfora do amor conseguir sobreviver a tudo. Escusado será lembrar a vertente pagã de todo este ritual. Da fogueira, símbolo por excelência da purificação, celebrada nestas datas próximas do solstício por estar na sua máxima expressão – dias longos, noites curtas. Da hora da queima, a meia-noite, hora de transição, podendo estar associada à mudança de ciclo. E mesmo da espera num renascer da alcachofra à vida, numa referência à regeneração da natureza, que morre e renasce todos os anos.
Em pares ou isolados, rapazes e raparigas iam saltando a fogueira, sendo que os mais temerários não receavam saltar quando as chamas estavam mais altas, o que era um gesto demonstrativo do seu valor e da sua coragem, atitudes que, claro, se esperava que não passassem despercebidas à pessoa de quem mais se gostava.
O gesto de saltar a fogueira revestia-se, igualmente, de um acto mágico de fertilização, segundo o qual, o calor e a luz – símbolos do poder solar – iriam dar mais energia fecundante em futuras relações, o que também era muitas vezes entendido como uma fonte de purificação, defendendo os protagonistas de factores negativos ligados ao mal, à doença, à morte e à infelicidade.
Também nestas noites eram frequentes os bailaricos durante os quais os rapazes e as raparigas em idade de namoro aproveitavam as boas influências do santo para abençoar os seus desejos, ou numa fase mais adiantada, para favorecer os seus votos e as suas promessas.
Tiveram muita relevância regional as fogueiras de S. João, na Alta de Coimbra, as quais têm sido anualmente reconstituídas por algumas associações etnográficas locais, que, deste modo animam a cidade dos estudantes. Porém, neste caso não se trata objectivamente de fogueiras (de fogo), mas de um espaço onde a população se junta e se diverte interpretando singelas modas de roda, à voz de inspirado mandador.
As comemorações do S. João estão muito arreigadas em certas regiões do país, nomeadamente em Braga, em Évora e, claro, no Porto, onde ainda subsiste a tradição do alho-porro, cuja origem assenta na convicção de que bater na cabeça de uma pessoa com plantas aromáticas constituía um voto de saúde e de felicidade.
Venerado a 29 de Junho, S. Pedro é o menos festejado dos três Santos Populares, porém, é o mais consagrado ao nível da liturgia cristã, por ter sido Aquele a quem Jesus confiou a edificação da sua Igreja, de tal modo que lhe mudou o nome original – Simão – para Pedro, simbolizando a pedra sobre a qual toda a estrutura da igreja cristã haveria de assentar.
Em Portugal, e por analogia com os restantes Santos Populares, as celebrações da noite e do dia de S. Pedro integram diversos festejos semelhantes, como as fogueiras e os banhos, onde também é possível encontrar nestas manifestações resquícios das festas solsticiais, em que as forças da natureza eram justamente exaltadas, acreditando-se no poder do fogo e da água, com os seus dons divinatórios para fazer curas e para evitar males maiores para os próprios crentes e para as suas famílias.
Dado que Pedro era pescador – profissão intimamente relacionada com aquela que viria a ser a principal missão que Cristo lhe confiou – “Agora serás pescador de homens!” – as suas festividades incluem muitas acções e atitudes ligadas a esta faina e ao próprio mar.
Enfim, em tempo de celebração dos Santos Populares, aqui formulo os meus melhores votos de que quem puder se divirta nestas noites mágicas, com fogueiras ou sem fogueiras, que os usos de hoje são, de facto, bem diferentes. O mais importante é a celebração colectiva, num tempo de tantos individualismos.
