Saímos para um treino leve de 10 quilómetros na zona de Valada, em preparação para a maratona de Sevilha do próximo dia 15. Leve, dizíamos nós, como quem acredita que a palavra tem algum poder sobre as pernas. Éramos quatro, todos de Santarém, todos com a cabeça já a viajar para a linha de partida andaluza, mas ainda com os pés bem assentes nos caminhos húmidos do Ribatejo.

O Tejo, ali, não é paisagem: é presença. Corre ao lado, largo, silencioso, como quem observa os homens a correrem sem perceber bem para quê. Alguns campos já se mostravam alagados, poças largas onde a terra cedia ao brilho da água. Nada de alarmante, pensámos. Apenas sinais de inverno.

No final, parámos num café em Valada. Mais por tradição do que por sede. Foi aí que conhecemos a Senhora. Sentada sozinha, mas dona de uma conversa que enchia a sala. Nascida entre as Ómnias e as Caneiras, descendente de pescadores vindos da Vieira de Leiria, trazia consigo uma cultura avieira que não vinha nos livros, mas na memória viva das margens do rio.

Falou-nos das cheias como quem fala de parentes antigos. Explicou, com a naturalidade de quem sempre ali viveu, que as cheias se dividem em “azielas” e “barcais”. As azielas, dizia, limitam-se a alagar os terrenos, ainda que em grande extensão. A cheia barcal é outra coisa: é quando a água toma conta dos caminhos e das estradas, obrigando as pessoas a deslocarem-se de barco. “Aí já é barcal”, rematava.

Contou-nos que, noutros tempos, as cheias eram maiores, mas também maior era a experiência de quem as conhecia. Falou dos guarda-rios, verdadeiros “fiscais” do rio, homens que sabiam lê-lo como um livro aberto e que alertavam as populações para fazerem o “meio corte” nos salgueiros e outras manobras preventivas que hoje poucos saberiam repetir. Havia respeito pelo rio, mas também conhecimento.

Pelo meio, não escondia a revolta. Queixava-se da proibição de construir, da falta de apoios, do abandono a que aquelas terras parecem votadas. E comparava com Lisboa, onde, no seu dizer expressivo, uma simples “mijadela de rã” desencadeia alertas, sirenes e subsídios de toda a espécie.

Saímos dali mais ricos do que entrámos. Não apenas pela hidratação, mas por ficarmos a saber que as cheias, afinal, não são apenas cheias. Podem ser azielas, barcais ou, no extremo oposto da escala, mijadelas de rã.

Quando este jornal sair, desejo sinceramente que possamos falar apenas de azielas. E que o Tejo, vigilante e antigo, se limite a olhar para nós a correr, sem sentir necessidade de nos obrigar a navegar.

Talvez o Tejo, no fundo, também ache graça a ver quatro marmanjos a correrem à beira dele como se fugissem de uma aziela imaginária.

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