A Nueva Plaza de Toros de Badajoz, conhecida popularmente como o “Coso de Pardaleras”, tem vivido nos últimos tempos umas temporadas sensaboronas, onde têm faltado cartéis com a força suficiente para aliciar o público extremenho a encher este tão confortável tauródromo, muito semelhante em termos de arquitectura à Monumental “Celestino Graça”, de Santarém.
Estranhamente, ou talvez não, praças como as de Zafra, Olivença, Cáceres e Mérida têm despertado maior interesse junto dos aficionados extremenhos e portugueses do que o tauródromo da capital de província, que, apesar de tudo integra o lote de praças de segunda categoria em Espanha.
Este ano, embora com menor número de espectáculos, apostou-se em dois cartéis fortes, um à base do toureio equestre onde pontificaram algumas figuras ibéricas da actualidade – Rui Fernandes, Diego Ventura e Guillermo Hermozo de Mendoza – e onde nem faltaram os Forcados portugueses, ali representados pelos Grupos de Coruche e do Aposento da Moita do Ribatejo. Até os toiros atravessaram a fronteira, pois eram da ganadaria alentejana de Romão Tenório. A corrida foi um sucesso artístico, porém a praça registou pouco mais de meia casa.
A segunda corrida tinha todos os condimentos para ser um grande sucesso, e, em certa medida, até foi. O cartel estava composto por José António “Morante de la Puebla”, Alejandro Talavante e David de Miranda que enfrentaram toiros de Daniel Ruiz. A praça registou uma boa entrada de público, que preencheu um pouco mais de ¾ da lotação da praça, ou seja, cerca de dez mil espectadores. Nada mau…
“Morante de la Puebla” enfrentou em primeiro lugar um toiro nobre, mas escasso de forças, tendo sublimado o toureio de capote através de umas chicuelinas memoráveis. Com a flanela Morante esteve uma vez mais em muito bom plano, brilhando com alguns naturais templadíssimos e mandões, e detalhes muito vistosos com a mão direita. Tudo parecia começar da melhor forma, porém o mau uso do estoque retirou-lhe as orelhas que já estavam ganhas pelo mérito da faena. Frente ao quarto da tarde, Morante voltou a estar sublime no capote, agora à base de verónicas dignas de tela, rematadas superiormente por “aquela média”! A faena foi desenhada com profunda arte e muito sentimento, o toureio fluiu com elegância e beleza, à base de passes circulares, poderosos e dominadores, e rematou a faena com uma boa estocada que lhe valeu uma orelha.
O segundo toiro da corrida saiu um pouco reservado, condicionando o labor de Alejandro Talavante. O matador extremenho dada a falta de codícia do seu oponente teve de lhe pôr o que ele não tinha, e o tércio de capote foi discreto. A faena viria a subir de tom, especialmente à base de passes ao natural com a mão esquerda, e algumas tandas tiveram o condão de empolgar o público, tamanha foi a entrega do diestro, destacando-se nas séries de manoletinas. Pinchou uma vez e estoqueou eficazmente após um aviso e foi ovacionado. No segundo do seu lote, Alejandro Talavante teve de superar uma vez mais a fraca qualidade do hastado, que tinha pouco recorrido e transmissão. Só o empenho e a elevada técnica do matador de Badajoz lhe permitiram rubricar uma faena tão meritória e que bem justificou a concessão de uma orelha.
Inesperadamente, ou talvez não, porque a tauromaquia é muito fértil em surpresas, o grande triunfador desta tarde foi o matador David de Miranda, apoderado por “El Juli”, que logrou cortar as duas orelhas ao melhor toiro da corrida após uma faena muito competente e dominadora. Aproveitando as boas condições de lide do seu oponente, David de Miranda lanceou o capote com muita elegância e poderio, o que foi muito apreciado pelo respeitável que se lhe entregou por completo ao longo de uma faena encimista, na qual o matador exibiu bastos recursos técnicos e artísticos por ambas as mãos, templando as muito aplaudidas tandas. Matou de uma estocada limpa e certeira e cortou duas orelhas. Frente ao seu segundo oponente, toiro de inferior qualidade, o matador de Trigueros alardeou faculdades e boa técnica, andou muito digno e sobressaiu essencialmente em algumas tandas por naturais, quando o hastado já buscava o refúgio em tábuas. Matou bem e foi ovacionado no final.
Enfim, para um cartel de luxo como era este apenas quatro orelhas pode parecer escasso, mas face às condições de lide dos hastados de Daniel Ruiz, já não foi assim tão mau, louvando-se o facto de David de Miranda ter sabido aproveitar o melhor toiro da tarde.
