As recentes intempéries agravaram infiltrações na Biblioteca Municipal Braamcamp Freire e reacenderam o debate em torno da preservação de um dos mais relevantes núcleos patrimoniais de Santarém. No solar oitocentista do centro histórico que alberga, desde 1921, a Casa-Museu de Anselmo Braamcamp Freire, a entrada de água na cobertura obrigou ao encerramento temporário de uma exposição e à remoção preventiva de livros, manuscritos e obras de arte, expondo fragilidades estruturais já identificadas. O historiador de arte Vítor Serrão fala numa “jóia do património do país” e defende uma intervenção “inevitável e inadiável” para salvaguardar o espólio; a Câmara Municipal reconhece que o problema “não é de agora”, admite que foi agudizado pelas condições meteorológicas extremas e garante prioridade à intervenção na cobertura, cujo projecto técnico terá de ser alargado.
As infiltrações que atingiram a Biblioteca Municipal Braamcamp Freire nas últimas semanas reacenderam um debate antigo na cidade: como proteger um dos seus mais relevantes núcleos patrimoniais e, ao mesmo tempo, preparar o futuro da política cultural de Santarém.
As chuvas intensas agravaram problemas estruturais já identificados no edifício oitocentista do centro histórico, obrigando ao encerramento temporário de uma exposição e à remoção preventiva de obras e documentos. A situação trouxe para o espaço público uma preocupação que, segundo vários intervenientes, não é recente, mas que ganhou agora nova dimensão.
Instalada no solar que acolhe desde 1921 a Casa-Museu de Anselmo Braamcamp Freire, a Biblioteca reúne um fundo antigo de elevado valor histórico, manuscritos, incunábulos, colecções raras e um acervo artístico que inclui pintura, escultura e artes decorativas. Para especialistas, trata-se de um dos mais significativos conjuntos patrimoniais do concelho.
“Uma jóia do património do país”
O historiador de arte Vítor Serrão classificou o equipamento como “uma jóia do património do país”, sublinhando o valor do fundo antigo, da pinacoteca e das fontes documentais ali preservadas
Para Vítor Serrão, as recentes intempéries funcionaram como teste à capacidade de protecção do edifício. “A prova foi agora verificada (…) perante a catástrofe que ocorreu e que vai levar a uma grande obra, inevitável e inadiável, nas coberturas da Biblioteca”, afirmou.
Segundo relatou, o risco incidiu directamente sobre o espólio, embora os danos tenham sido mitigados pela intervenção célere da equipa técnica. “Valeu o empenho de todos os funcionários em retirar atempadamente tudo aquilo que estava em perigo”, referiu, numa alusão à remoção preventiva de livros, manuscritos e obras de arte.
O historiador fala num “dever inadiável” de recuperação do imóvel, defendendo que a prioridade absoluta é estrutural: garantir a estabilidade do edifício, eliminar infiltrações e assegurar condições adequadas de conservação.
A dimensão do risco
Na reunião pública de 23 de Fevereiro, o tema foi debatido pelo executivo municipal. O vereador Nuno Domingos descreveu infiltrações significativas na cobertura, problemas nas ligações entre as três naves do edifício e situações junto ao posto de transformação. Recordou que, no mandato anterior, já tinham sido identificadas fragilidades ao nível da impermeabilização e da conservação de paredes.
A desmontagem de uma exposição, devido à entrada de água, tornou visível o impacto imediato da intempérie.
O autarca classificou o acervo como “o maior tesouro que Santarém possui”, sublinhando a presença de obras de arte, documentos históricos e livros raros, alguns desde os primórdios da imprensa.
Na resposta, o presidente da Câmara reconheceu que os problemas “não são de agora”, mas admitiu que foram agravados pelas condições meteorológicas extremas. Confirmou a existência de projecto técnico para a cobertura, o qual terá agora de ser revisto e alargado.
A Biblioteca foi incluída no levantamento de danos submetido à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional. No conjunto do concelho, as necessidades identificadas ascendem a 33,4 milhões de euros, sendo a estabilização das encostas o encargo mais significativo. Ainda assim, o executivo considerou a intervenção na biblioteca prioritária.
Entre a casa-museu e a biblioteca pública
A crise estrutural trouxe novamente à discussão a função do edifício. Vítor Serrão defende que, a médio prazo, Santarém deveria dispor de uma biblioteca pública moderna e de raiz, libertando a Braamcamp Freire para assumir plenamente a sua vocação de casa-museu e centro de memória histórica. Contudo, sublinha que essa discussão não pode sobrepor-se à urgência actual.
Também o vereador socialista Pedro Miguel Ribeiro defendeu publicamente a criação de uma nova biblioteca municipal moderna e multifuncional, considerando que os problemas actuais resultam de “anos de inércia” e defendendo uma requalificação profunda do edifício histórico.
O presidente da Câmara, por seu lado, reiterou a importância estratégica da Biblioteca no centro histórico e defendeu a sua permanência naquele espaço, com adaptação tecnológica e reforço da função cultural e educativa.



