Escrevi uma primeira versão deste artigo em Creta, o ponto mais a sul da Europa, a meros 300 quilómetros da zona vermelha da Líbia, a capital da República Revolucionária da Líbia. O seu presidente é o General Khalifa Haftar, líder do Exército Nacional Líbio, apoiado pela Rússia e pelo Wagner Group (agora denominado Afrika Korps). Em nenhum ponto da ilha de Creta vi refugiados ou imigrantes, o que me induz que a mesma se encontre fora das grandes rotas de “exportação” para Europa, cujos principais destinos são Chipre, a mainland grega, Malta, Itália e Espanha. Após o regresso, a pesquisa efetuada levou-me a alterar substancialmente esta versão.
Como é do conhecimento público, no passado dia 30 de julho cerca de 72.000 pessoas entraram em Ceuta através da Praia del Tarajal, cruzando a nado os menos de 100 metros que contornam o pontão e a cerca que delimita a fronteira entre Marrocos e Espanha. Do lado marroquino e espanhol a praia tem o mesmo nome, sendo ladeado por uma larga estrada contínua entre ambos os países, apenas cortada pela linha de fronteira.
Segundo Jesus Vivas, presidente da cidade autónoma espanhola, o número corresponde a cerca de 70% da população residente na cidade espanhola, provocando um colapso nos serviços e uma crise humanitária. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz, classificou esta “invasão” como um ataque à integridade territorial de Espanha, tendo mobilizado desde logo as Forças Armadas para intervir e culpando as máfias do tráfico humano por gerarem esta crise. Na base deste movimento terá pesado a recente decisão do Supremo Tribunal espanhol, de 8 de julho, ratificada pelas Cortes, conhecida por “devoluções a quente”. A mesma refere que a devolução sumária ao país de origem não se aplica aos migrantes se estes chegarem por mar a território espanhol. Esta lei, que eventualmente inviabiliza os repatriamentos, terá sido um dos fatores motivadores da “invasão”.
Alguns comentaristas veem nesta ação uma coordenação entre Marrocos, Israel e os EUA. Apesar da “dizzy politics” que dominam estes dois últimos países, esta interpretação poderá pecar por exagero. No entanto, a análise a frio dos acontecimentos de 30 de julho estabelecem dúvidas quanto ao apoio direto de Marrocos a este movimento, devido à sua coordenação, organização e eficácia. Desde a sua independência de França e Espanha em 1956, Marrocos nunca escondeu as suas pretensões territoriais sobre estas duas cidades, que transitaram de portuguesas para espanholas em 1640. Por se encontrarem em África sem ligação física à Europa, o governo de Rabat tem tratado as cidades como “territórios não autónomos pendentes de descolonização”. Por outro lado, a ambiguidade da posição da ONU, que não inclui Ceuta e Melilla na lista de territórios a descolonizar nem as reconhece como colónias, abre espaço para esta ambivalência.
Outro pilar das reivindicações territoriais de Marrocos com Espanha é o Sara Ocidental (ou Sara Espanhol), uma região da orla atlântica africana que vai desde Tarfaya, no sul de Marrocos, a cerca de 1.000 kms de Rabat (numa latitude equivalente às Canárias), até Ras Nouadhibou, ou Cabo Branco, na Mauritânia, cerca de 500 kms a norte da capital Nouakchott. Trata-se de um território rico em petróleo, gás natural, fosfatos, outros minerais e pesca, contando com algumas das zonas pesqueiras mais ricas do mundo. A 6 de novembro de 1975, o Rei Hassan II de Marrocos promoveu a Marcha Verde, um movimento incluindo cerca de 350.000 civis desarmados que cruzaram a fronteira do então Saara Espanhol, com o objetivo de forçar Espanha a ceder o território. Enfraquecida pelo final do regime franquista e querendo evitar um conflito armado, a Espanha optou por negociar, assinando a 14 de novembro de 1975, o Acordo de Madrid com Marrocos e a Mauritânia, transferindo a administração conjunta do território e ignorando o direito de autodeterminação do povo saaraui. Entre 1976 e 1979, o Sara Ocidental foi ocupado por Marrocos e pela Mauritânia. Em 1979, a Mauritânia retirou devido aos ataques do grupo independentista Frente Polisário e, ainda nesse ano, Marrocos estendeu o seu domínio a todo o território. Atualmente, Marrocos administra o Sara Ocidental, considerando-o parte integrante do país, enquanto a ONU continua a classificar o território como uma zona não autónoma pendente de descolonização.
Um terceiro pilar de desgaste na convivência entre Espanha e Marrocos é a relação tempestuosa entre Marrocos e o seu rival regional, a Argélia. Desde a Guerra das Areias, em 1963, Marrocos e a Argélia já estiveram 7 vezes em guerra, tendo as 2 últimas ocorrido já no século XXI (2021 e 2024). A Argélia foi a quarta melhor economia africana em 2025, com um PIB de 285 mil milhões de dólares, fortemente suportado nas exportações de gás natural e petróleo, enquanto Marrocos foi a quinta, com um PIB de 180 mil milhões de dólares, assente sobretudo no crescimento industrial e infraestruturas. Por outro lado, apesar de em dezembro de 2025 Pedro Sanchéz ter assinado em Madrid diversos acordos de cooperação com Marrocos, a sua recente deslocação a Argel a 20 de julho passado, a primeira após 4 anos, com o objetivo de iniciar uma nova fase de cooperação entre os dois países, terá decerto enfurecido o monarca marroquino.
Assim, as dúvidas existentes sobre a participação de unidades marroquinas na organização da “invasão” a Ceuta, nomeadamente no transporte e encaminhamento dos “invasores”, apenas 10 dias após a visita do primeiro-ministro espanhol à Argélia, ganham alguma consistência. Por outro lado, a ampla difusão de fake news, verificadas no próprio dia e no dia anterior nas redes sociais, nomeadamente de que a fronteira espanhola iria estar aberta, reportadas quer por espanhóis quer por marroquinos, foram mais um forte motivo de mobilização das pessoas. Esta situação remete para as máfias que gerem e controlam os movimentos dos refugiados no Mediterrâneo, cuja atividade tem décadas e face à qual as ações quer dos Estados europeus quer da Frontex tem sido pouco eficaz.
