Como se posiciona a União Europeia na sequência do incidente de Ceuta do passado dia 30 de julho? Comecemos por um dado que à partida pode parecer irrelevante: Espanha e Malta são os dois únicos governos socialistas atualmente em funções na União Europeia. O país tem eleições nacionais agendadas para maio de 2027 e, segundo sondagem do site Democrata já depois do incidente de Ceuta, o Partido Popular deverá vencer com 34% dos votos, seguindo-se o PSOE com 26% e o Vox (direita radical) com 17%. Isto significa que, num futuro próximo, Alberto Núñez Feijóo deverá ser o primeiro-ministro espanhol e Santiago Abascal deverá ser o joker num governo de direita.

Em segundo lugar, a União Europeia mantém em vigor, desde setembro de 2005, o Acordo Euro-Mediterrânico de Associação, que criou uma zona de comércio livre e define a cooperação política, económica, social e cultural entre a União Europeia e Marrocos, Tunísia, Egito, Jordânia, Líbano, Israel, Argélia e a Autoridade Palestiniana. No caso de Marrocos, a nível económico este acordo consubstanciou-se na abertura de zonas francas de exportação (ou zonas de aceleração industrial, ditas ZAI), com cariz maioritariamente industrial/produtivo e que gozam de benefícios fiscais como suspensão de direitos aduaneiros (de e para Marrocos/UE) e isenção de IVA na importação de bens. As ZAI criadas foram, até ao momento,

  • o Complexo Tanger Med/Tanger Free Zone, onde se encontra instalada a Renault Tanger Med (talvez o maior polo exportador automóvel do continente africano, em Mellousa), bem como diversos fornecedores e fabricantes de componentes de 1.ª e 2.ª linha de origem espanhola, francesa e alemã, como a Valeo e a Faurecia;
  • o Midparc International Freezone, em Nouaceur, Casablanca, um polo aeronáutico onde estão instalados gigantes com as francesas Safran e Airbus, a sueca Trelleborg, diversas filiais e parceiras como as francesas Lisi Aerospace, Le Piston Français, Duqueine Composites, a alemã Masterflex e a espanhola Alenia Aeronautica, bem como uma segunda fábrica da Renault.
  • a Atlantic Free Zone, em Kenitra, um ecossistema industrial focado na cadeia automóvel e metalomecânica, onde estão instaladas a Stellantis (Peugeot), a Engie, o Nanjing Xiezhong Group, a Fujikura e muitas outras.

Para além destas ZAI e das empresas nelas instaladas, outras empresas como a Axa, a Bayer, o BNP Paribas, a Bosch, a Capgemini, a Carrefour, a DAF, a Decathlon, a Enel Green Power, a ENI, a FIAT, os Grupos Casais e Simoldes, a Iberdrola, a Mota-Engil, a Philips, a Siemens, a Vinci/Alstom e a Unilever encontram-se instaladas em Marrocos e beneficiam dos incentivos proporcionados pelo Acordo Euro-Mediterrânico de Associação. Toda esta teia de atividades e interesses económicos obriga a um enorme cuidado nas relações diplomáticas entre a UE e os países do Magreb. Neste sentido, a “Carta dos 22”, de 1 de agosto e apenas não subscrita por 5 dos 27 Estados-Membros (Espanha, França, Irlanda, Luxemburgo e Portugal), resultou na videoconferência de 4 de agosto e num conjunto de prudentes conclusões, nas quais se apela ao reforço dos controlos internos e do papel da Frontex, bem como a um alerta quanto às questões de segurança e às parcerias com países terceiros. Mais do mesmo, numa União Europeia ineficaz e desunida.

Qualquer que seja o desenlace desta crise, tendo em conta que segundo o governo espanhol a quase totalidade dos migrantes já foi repatriada para Marrocos, o saldo é de uma completa e inexplicável falta de solidariedade entre Estados-Membros da União Europeia, algo que já se tinha sentido com tristeza ao longo da crise das dívidas soberanas. Tudo isto me faz parecer a Seleção Nacional de Futebol, onde a genialidade dos talentos individuais se afunda nas lutas silenciosas que se travam nos bastidores. O problema é que o futebol é apenas um jogo e que na União Europeia se joga o futuro e a qualidade de vida de milhões de cidadãos.

Chegamos então ao ponto fulcral: a taxa de desemprego de Marrocos no 1* trimestre 2026 foi 11% no total e quase 30% nos jovens. Numa sociedade árabe, um jovem sem emprego e sem condições para constituir e sustentar uma família é praticamente um pária. Assumo assim que esta seja a principal força impulsionadora para estas tentativas de imigração, até porque Ceuta e Melilla estão ali mesmo ao lado e, para eles, Ceuta e Melilla são Espanha e Espanha é União Europeia. Por outro lado, o insucesso destas tentativas leva ao crescente sedentarismo destes jovens, com um elevado potencial de criminalidade, drogas e afins.

Daqui decorre algo simples e fantástico: todos nós queremos uma vida melhor, ainda melhor para os nossos filhos e muitíssimo melhor para os nossos netos. O “nós” pode ser um português da Guarda, um espanhol das Astúrias, um italiano da Sicília, um grego de Creta, mas também um alemão da Bavaria, um suíço de St. Gallen, um dinamarquês da Zelândia, um sueco do Norrland, um francês, um inglês, um escocês, um galês, um finlandês e outros. Todos nós, desde há séculos atrás, nos espalhamos pelo mundo em busca de vidas melhores, ajudando a construir países, economias e riqueza. Mas agora, pançudos e burgueses, queremos negar ao resto do mundo os mesmos direitos de que usufruímos durante tanto tempo.

Tudo isto é trágico, tão trágico como a estratégia cínica e viciosa nos países do norte da Europa em usar os países do Sul, os Estados-Membros da orla mediterrânica, como barreira ao avanço dos novos migrantes para os seus países. Tudo isto é ainda repugnante, pois demonstra um total desprezo por direitos humanos, igualdade de oportunidades e justiça social.

O imigrante de hoje é substancialmente diferente do de há algum tempo: normalmente é qualificado (mesmo que não seja reconhecido por isso), é trabalhador empenhado e disponível, faz os descontos para a segurança social, traz consigo a família, coloca os filhos na nossa escola, para aprenderem a nossa língua, a nossa história e a nossa cultura. Estes imigrantes, como força de trabalho e rejuvenescimento etário, podem ser extremamente úteis. Se os desperdiçarmos, cairemos no vazio, se os ostracizarmos, procurarão alternativas. Quem tem mais a ganhar ou a perder somos nós, europeus. Tudo está e continuará nas nossas mãos.

Leia também...

Ceuta e o Futuro – parte I

Escrevi uma primeira versão deste artigo em Creta, o ponto mais a sul da Europa, a meros 300 quilómetros da zona vermelha da Líbia,…

Incómodos Biológicos

O governo alemão apresentou a 18 de agosto uma medida que isenta de impostos até 2.000 euros mensais os aposentados que optem por continuar…

Can’t Skip Portugal

Can’t Skip Portugal foi uma campanha de marketing, lançada pelo Turismo de Portugal em 2017. Repartida em 4 filmes, a campanha focou-se na mensagem…

Afinal o mundo é multipolar

Há alguns anos tirei uns cursos sobre segurança e defesa na ESDC – Colégio Europeu de Segurança e Defesa, entidade autónoma da União Europeia…