“Continua a faltar uma Carta do Património de Santarém”

Apaixonado pela História de Santarém e pela fotografia, António Monteiro, responsável pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, juntou estas duas facetas e compilou uma série de DVD’s que têm feito enorme sucesso. Intitulada ‘Santarém: Um Século de Imagens’, esta série de filmes permite que, de uma forma “descontraída” em ambiente informal, “qualquer individuo, na sua própria casa, no conforto do seu sofá e na companhia dos amigos, possa “visitar” o património da Misericórdia e, eventualmente, visitar também os monumentos da cidade”, segundo revela nesta entrevista ao Correio do Ribatejo.

O que o motivou a compilar a série de DVD’s intitulada ‘Santarém: Um Século de Imagens’?
Em Julho de 2002, sendo Provedor da Misericórdia o Senhor Coronel António Garcia Correia, foi-me proposto a nível profissional, um novo desafio: inventariar o património artístico e religioso da Santa Casa da Misericórdia posto que não havia inventários com essa especificidade. Perante este desafio, rapidamente tive que estabelecer objectivos de trabalho, métodos e rotinas de tratamento das peças a inventariar. Assim sendo, construí uma Base de Dados em Access o mais completa possível para assegurar o registo informático dos dados para serem emitidas as fichas individuais. Para o efeito, foi ainda adquirida uma máquina digital para complementar, o melhor possível, através da fotografia, o cadastro de cada peça catalogada. A Base de Dados suportava até cinco fotografias de cada peça vista pelos mais variados ângulos, de forma a assegurar uma imagem o mais fidedigna possível. Essas fotografias ficaram então arquivadas em CD-ROM de 750MB compartimentadas em álbuns fotográficos que, a qualquer momento, podiam ser consultadas.
Sabia-se o nome de algumas peças do espólio pelo excelente trabalho do Mesário José Campos Braz, outras não tinham nome, outras simplesmente sabia-se por alguns rabiscos encontrados num ou noutro papel avulso, outras ainda, só vieram a ser conhecidas pela leitura de bibliografia específica.
Foi com algum embaraço que comecei o inventário na Capela do Monte, mas tornou-se de imediato um desafio bastante interessante. Dia após dia, hora após hora, lá se foi esboçando a primeira matriz daquilo que é uma Base de Dados, que me diz agora, onde encontrar a peça certa no local certo, pois as bases de dados só nos poderão ser úteis se corresponderem àquilo a que estão destinadas: ter a capacidade de guardar, trocar e ordenar informação.
Acabada a inventariação na Capela do Monte, seguiu-se a Igreja da Misericórdia, depois a Capela da Ordem Terceira de S. Francisco ou Capela Dourada de Santarém e, por fim, a Igreja de Jesus Cristo, vulgarmente designada por Igreja do Hospital. Actualmente as peças já têm nome e número, ou seja, têm uma identidade própria, contam-nos inclusive a sua história e mostram-nos a sua “alma”, estabelecendo-se assim, seguramente, uma relação de afecto com o nosso património.
Foi dessa forma que ficaram em “carteira” alguns milhares de fotografias em formato digital e esse facto levou-me a perguntar como poderia levar os meus superiores a verem e analisar, de uma forma expedita e informal, o inventário ou parte do inventário, sem que se transformasse isso numa grande maçada. Lembrei-me de gravar as fotografias em CD, adicionar-lhe um ficheiro auto-executável que fizesse a apresentação das fotografias em slideshow, mas que simultaneamente, tivesse a capacidade de adicionar informação sobre as peças e, ao mesmo tempo, permitisse ouvir uma faixa de música. Ora, se bem o pensei, melhor o fiz. E assim aconteceu; não só os meus superiores ficaram agradados da forma prática como se foi desenvolvendo o trabalho de inventário, como pelos efeitos visuais que isso produzia.
A partir daí fui melhorando as qualidades visuais dos CDs, como também fui aumentado a qualidade das fotografias e da informação técnica das peças que constavam nos Menus. Pensei então em desenvolver um CD auto-executável, por cada monumento da Santa Casa, que ficaria assim disponível a qualquer pessoa que o solicitasse, carregado com toda a informação que eu tinha conseguido obter ao longo do tempo da inventariação e da pesquisa.
A modernidade dos tempos e a evolução dos meios informáticos, levaria rapidamente à conclusão que o formato em CD se tornaria obsoleto, pois logo apareceram no mercado os DVDs, o que me permitia aumentar a informação e o número de imagens que poderia colocar nesse suporte digital. Isso levou-me a pensar que, se já tinha toda a informação possível dos monumentos da Misericórdia em formato de CD, estava na hora de alargar esse método aos vários monumentos da cidade.
Pegando então nas informações que dispunha sobre os vários monumentos de Santarém, comecei a montar um primeiro DVD com menus interactivos que deixavam em aberto a possibilidade de escolher livremente os vários roteiros e, dentro destes, explorar e escolher livremente o monumento que se pretendia consultar.
O tempo passou muito rapidamente e logo apareceram os cartões de memória, de maior capacidade, o que levou à conclusão que também este formato ia caindo em desuso e, seria um trabalho inglório continuar a desenvolver software e produzir DVDs que ninguém iria ver, tudo por causa da rápida difusão dos cartões de memória.
Lembrei-me então de produzir vídeos e fazer a respectiva montagem em DVD para que, de uma forma descontraída em ambiente informal, qualquer individuo, na sua própria casa, no conforto do seu sofá e na companhia dos amigos, pudesse “visitar” o património da Misericórdia e, eventualmente, visitar também os monumentos da cidade, em contextos temporais bastante diferentes, ou então de uma forma lúdica mas bem documentada, pudesse servir como um auxiliar pedagógico.
Sem profissionalismos, apenas com recurso às tecnologias caseiras, assim nasceu a ideia de produzir DVDs para oferecer aos amigos e, neste percurso, cruzei-me com alguns deles que colaboraram comigo com o melhor do seu saber mas, nunca consegui encontrar um parceiro para desenvolver esta ideia a sério, com tarefas repartidas pois achei que toda a informação que existe sobre os nossos monumentos, é como uma lezíria a perder de vista. Nesse particular, vai a minha gratidão ao meu amigo Sr. Mário Cardoso, pelo seu alto patrocínio, que dividiu sempre comigo os seus melhores conhecimentos, e me incentivou a ir tão longe quanto possível, mesmo sabendo eu, que poucos iriam ver e apreciar esse trabalho.
Mas, o tempo diria que não era em vão esse esforço, uma vez que o Centro Cultural Regional de Santarém – Fórum Mário Viegas, através da sua dinamizadora, a amiga Manuela Marques, me fez o honroso convite para fazer a apresentação pública dos DVDs no dia 15 de Novembro de 2013 enquadrada na série de encontros das “Memórias da Cidade” (Correio do Ribatejo – 22.11.2013).
Mais tarde, receberia um outro convite para desenvolver um DVD sobre a Misteriosa, Real e Insigne Colegiada de Santa Maria da Alcáçova, um formato tipo powerpoint que, também de uma forma descontraída, nos conta a história da Igreja da Alcáçova e a sua ligação aos Cavaleiros Templários.
Mais tarde, em Junho de 2015, surgiu o convite da “Sociedade Recreativa Operária” para passar mais uns vídeos, e o resto já sabem…
Daí à colocação dos mesmos vídeos na internet foi um passo muito curto; hoje podem ser pesquisados e vistos em vários sites: Youtube, Vimeo, Dailymotion e naquele que, até pela qualidade que tem, pode ter maior visibilidade: www.eugostodesantarem.pt.

Como está estruturado este trabalho?
Como fica claro, a sequência dos vídeos que fui produzindo e compilando, foram obtidos a partir de fotografias e postais de amigos que me foram cedendo para digitalização, e retratam outros tempos do passado. Com essa montanha de fotos foi possível gerar 40 ficheiros em formato MPEG (e MP4 mais recentemente) dos quais foram separados em dois grupos dando origem a dois DVDs tendo cada um a duração de uma hora. A sequência de projecção dos ficheiros está organizada de acordo com uma gravura manuscrita atribuída a Frei Luís de Sousa o qual compara Santarém com a palma da mão esquerda com os dedos estendidos, separados uns dos outros. O roteiro dá-se início no Convento de S. Bento (zona do polegar) rodando no sentido da direita e finaliza nas Portas do Sol (zona do dedo indicador).
O conjunto dos dois DVDs tem como titulo “Santarém | Um século de imagens” porquanto todas as imagens nele apresentadas, foram “descobertas” no período de um século, ou seja, desde finais do séc. XIX até à actualidade (mesmo as imagens de António de Holanda, executada por volta de 1530-1534 para a Genealogia dos reis de Portugal, por ordem do Infante D. Fernando, e a de Pier Maria Baldi de 1668-1669).
Não posso deixar de salientar aqui o grande contributo que deu o amigo de longa data, Dr. Martinho da Silva que, ao ceder-me as suas colecções de postais para digitalização, o torna digno do meu profundo agradecimento, mas, também do público reconhecimento, até porque esse gesto contribuiu decisivamente para o sucesso dos próprios vídeos, os quais, na internet, têm milhares de visualizações. Da mesma forma agradecer o contributo do amigo José Freitas cuja qualidade das suas fotografias sobre aves é indiscutível, e isso deu-me a possibilidade de fazer vídeos para além do património edificado. Finalmente um especial agradecimento ao Carlos Quintino pelo alojamento de alguns desses vídeos no seu excelente site: www.eugostodesantarem.pt.

PUBLICIDADE

De onde vem a sua paixão pela historiografia de Santarém?
A paixão vem do contacto directo com a longa história da Santa Casa da Misericórdia, mais propriamente do contacto com todo o seu património artístico, religioso, honorífico e bibliográfico. Essa paixão começa quando em 2003 passei a trabalhar no inventário do Arquivo Histórico em colaboração com o Dr. Serafim Cóias e o Professor Doutor Martinho Vicente Rodrigues. Aí comecei a ler os primeiros fólios e a descobrir novos personagens da história de Santarém, gente de quem nunca se tinha ouvido falar. O que está naquelas páginas são heróis anónimos, na sua maioria pessoas comuns como nós mas, que num passado remoto deram corpo e alma à “vila” e a transformaram numa bela cidade que, hoje, mais do que nunca, temos de cuidar, da mesma forma ou melhor do que eles o fizeram.
Qual é, para si, o papel do Arquivista numa instituição com cinco séculos de história, como é a Santa Casa da Misericórdia de Santarém?
Seria de extrema importância caso se desse importância aos “papéis velhos” como aconteceu no século passado. Por aquele Arquivo passaram homens que se notabilizaram pela sua acção na sua preservação e conservação; falo concretamente no Cónego Joaquim Maria Duarte Dias, José Hermidas, Engº Zeferino Sarmento, Adelino Brandão Ferreira, José Campos Braz, e mais recentemente o Dr. Serafim Cóias, todos eles já falecidos.
Do extraordinário trabalho de conservação que desenvolveram, pode-se dizer que, o Arquivo Histórico da Santa Casa tem cerca de dois mil livros e códices antigos datados entre o séc. XV e o final do séc. XIX já catalogados. Tem também já catalogados centenas de documentos avulsos mas, faltam catalogar cerca de quatro a cinco mil documentos.
Como dizia Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”e, de facto, o nosso mundo está em mudança; e o mundo dos arquivistas também. O que se pode dizer e pedir a um arquivista quando o Arquivo Histórico está quase concluído, e concluí-lo não é prioritário? Quem não compreende a verdadeira missão de um arquivista num Arquivo Histórico, de um investigador ou mesmo de um historiador, jamais perceberá as horas mudas que se passam de olhos focados tentando ler e descodificar as diferentes formas da letra cursiva e por vezes da letra gótica; jamais perceberá a alegria quando se descobre dentro de um emaranhado de riscos e gatafunhos, um nome, uma data importante, um acontecimento que trouxe transformações sociais à cidade, enfim, tudo é possível encontrar num velho papel que alguém teve a preocupação de o guardar e, por vezes, pode mesmo revelar a solução de um mistério.

Como é o Arquivista do século XXI?
Poderia dizer que no futuro, dois em cada dez arquivistas continuarão a preencher as bases de dados respeitantes a livros em formato de papel; os outros oito, muito provavelmente passarão a di

PUBLICIDADE

PARTILHE COM OS SEUS AMIGOS



Comentários

  1. Fernando Lopes 26/07/2020 Reply

ADICIONAR COMENTÁRIOS

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *