Dia de Campo do InovMilho reuniu investigadores, agricultores, empresas e responsáveis políticos na Estação Experimental António Teixeira. Governo anunciou que os apoios pagos aos agricultores de Coruche passaram de 6,3 milhões de euros, em 2023, para 19,4 milhões em 2025 e revelou estar a preparar um projecto-piloto para reduzir as populações de javalis nas zonas mais afectadas.

 

Ciência, tecnologia e conhecimento aplicado ao terreno estiveram no centro do Dia de Campo do InovMilho, realizado na quarta-feira, 2 de Setembro, na Estação Experimental António Teixeira, em Coruche, onde agricultores, investigadores, técnicos, empresas e responsáveis políticos debateram alguns dos principais desafios que se colocam à produção de milho e à agricultura portuguesa.

A agricultura de precisão, a utilização de inteligência artificial e imagens de satélite, a sustentabilidade dos solos, os custos de produção, a disponibilidade de água e os prejuízos provocados pelas populações de javalis atravessaram uma jornada que juntou a componente de investigação e experimentação às preocupações sentidas pelos produtores.

O encontro terminou com intervenções dos presidentes da Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS), Jorge Durão Neves, da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Álvaro Mendonça e Moura, e da Comissão de Agricultura e Pescas da Assembleia da República, Maurício Marques, além do presidente da Câmara de Coruche, Nuno Azevedo, e do ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes.

 

“A inovação deixou de ser uma opção”

Nuno Azevedo destacou a importância de Coruche continuar a acolher iniciativas onde agricultores, investigação científica e empresas possam partilhar conhecimento e procurar respostas para problemas que se colocam diariamente às explorações.

“A inovação deixou de ser uma opção e é já uma necessidade”, afirmou o presidente da Câmara, apontando as alterações climáticas, a disponibilidade de água, os custos de produção e a necessidade de aumentar a eficiência das explorações entre os desafios que obrigam o sector a encontrar novas soluções.

Num concelho onde a agricultura, o regadio e a produção de milho assumem um peso relevante na actividade económica, o autarca defendeu uma aproximação permanente entre a experiência acumulada pelos produtores e o conhecimento desenvolvido pelas universidades, centros de investigação e empresas.

“Juntar a experiência de quem trabalha a terra há décadas com o conhecimento produzido pelas universidades, pelos centros de investigação e pelas empresas é o caminho a seguir”, sustentou.

Nuno Azevedo garantiu que a Câmara Municipal de Coruche pretende continuar a participar e apoiar projectos ligados à investigação e à inovação agrícola, considerando o sector estratégico para o desenvolvimento do concelho.

A realização do Dia de Campo enquadra-se precisamente nesse trabalho desenvolvido pelo InovMilho – Centro Nacional de Competências das Culturas do Milho e Sorgo, criado em 2016 por iniciativa da ANPROMIS, em colaboração com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e a Câmara Municipal de Coruche e sediado na Estação Experimental António Teixeira.

O centro pretende funcionar como espaço de discussão, partilha e articulação de conhecimento entre os diferentes agentes ligados às culturas do milho e do sorgo.

 

Tecnologia entra cada vez mais nos campos

Parte substancial do programa decorreu no terreno, permitindo aos participantes conhecer experiências e tecnologias que estão a ser testadas ou incorporadas na produção agrícola.

Entre os temas apresentados estiveram a fotogrametria aplicada à cultura do milho e a monitorização das culturas através de inteligência artificial e imagens de satélite, ferramentas que permitem recolher informação sobre o desenvolvimento das plantas e apoiar os agricultores nas decisões tomadas ao longo do ciclo produtivo.

A agricultura de precisão mereceu igualmente destaque, num debate sobre os desafios e oportunidades criados pela introdução de novas tecnologias nos sistemas de produção.

A jornada abordou ainda os efeitos do vírus do nanismo, a segurança da fileira dos cereais, o uso sustentável dos solos agrícolas, a agricultura resiliente e os desafios técnicos que a produção de milho terá de enfrentar nos próximos anos.

Para o presidente da ANPROMIS, Jorge Durão Neves, a investigação só cumpre plenamente a sua função quando o conhecimento chega às explorações.

A inovação “não pode terminar num relatório”, afirmou o dirigente, defendendo soluções susceptíveis de serem utilizadas pelos agricultores e uma ligação mais próxima entre produção, investigação, instituições de ensino e empresas.

“O futuro da agricultura não se faz apenas no campo. Faz-se também nas universidades, nos politécnicos, nos laboratórios, nas empresas e, sobretudo, na capacidade de atrair novas gerações”, acrescentou.

 

Produtores alertam para custos e competitividade

A componente tecnológica do encontro não afastou as preocupações económicas manifestadas pelos representantes do sector.

Jorge Durão Neves chamou a atenção para o aumento dos custos de produção e indicou que, considerando apenas fertilizantes e combustível, o agravamento terá rondado os 300 euros por hectare.

O presidente da ANPROMIS defendeu também o reforço dos pagamentos ligados à produção de milho, referindo valores de 343 para 474 euros por hectare no milho para grão e de 206 para 252 euros no milho para silagem.

Álvaro Mendonça e Moura colocou igualmente a competitividade no centro da intervenção da CAP, defendendo que os agricultores portugueses devem poder trabalhar em condições comparáveis às existentes nos restantes países da União Europeia.

“Só conseguiremos continuar a ser produtivos na produção de cereais se estivermos na vanguarda do conhecimento. Só assim conseguiremos ser competitivos”, afirmou.

O dirigente alertou ainda para as negociações da futura Política Agrícola Comum e para a necessidade de Portugal defender os recursos destinados ao sector, relacionando também a capacidade de atrair novos agricultores com o rendimento proporcionado pela actividade.

“Se o rendimento do agricultor não aumentar, não haverá renovação geracional”, advertiu.

 

Agricultores de Coruche receberam 19,4 milhões

José Manuel Fernandes respondeu, no encerramento, a algumas das preocupações apresentadas pelas organizações agrícolas e utilizou Coruche para exemplificar a evolução dos pagamentos efectuados aos produtores.

“Os agricultores de Coruche, cujo Pedido Único de 2023 tinham recebido 6,3 milhões de euros. Os agricultores de Coruche em 2025 receberam 19,4 milhões de euros”, afirmou o ministro da Agricultura e Mar.

O governante sublinhou que o montante pago no concelho mais do que triplicou em dois anos.

“Isto não são anúncios. São montantes pagos”, frisou.

Segundo os números apresentados por José Manuel Fernandes, a mesma evolução é visível no conjunto do distrito de Santarém, onde os pagamentos terão aumentado de 27,4 milhões de euros em 2023 para 70,3 milhões em 2025.

O ministro anunciou ainda medidas destinadas a aliviar o impacto dos custos dos factores de produção. De acordo com José Manuel Fernandes, foram já pagos 20 milhões de euros para apoiar os agricultores perante os custos dos fertilizantes, estando previstos mais 20 milhões para fazer face aos encargos com energia.

O Governo estará ainda a trabalhar para mobilizar outros 20 milhões de euros até ao final do ano, elevando para 60 milhões o valor global destinado a estas medidas.

 

Javalis: estudo avalia resultados das medidas adoptadas

A pressão das populações de javalis sobre as culturas agrícolas foi outro dos temas com maior presença no Dia de Campo.

O encontro serviu para apresentar a segunda fase do “Plano Estratégico e de Acção do Javali em Portugal”, estudo conduzido por Carlos Fonseca, do Departamento de Biologia e Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, que procura avaliar os efeitos desta espécie sobre as zonas de produção de milho.

A primeira fase do trabalho procurou estimar a população nacional de javalis, calculada em cerca de 300 mil animais em 2022, e esteve na origem de alterações legislativas destinadas a aumentar a pressão cinegética.

A segunda fase pretende agora perceber se essas medidas produziram resultados efectivos no terreno e avaliar a eficácia das soluções utilizadas para reduzir os prejuízos provocados nas culturas agrícolas e nos povoamentos florestais.

A investigação deverá ser igualmente alargada a espécies como veados e corços, cuja presença crescente é associada a prejuízos na agricultura e floresta e a um aumento dos acidentes rodoviários.

 

Governo prepara projecto-piloto para controlar javalis

A questão chegou também à intervenção do ministro da Agricultura, depois de o presidente da CAP ter considerado insuficientes as medidas actualmente disponíveis para controlar as populações de javalis.

José Manuel Fernandes revelou que o Governo está a preparar um projecto-piloto para reduzir o número de animais nas zonas onde exista um desequilíbrio das populações.

O modelo em preparação deverá recorrer à actividade cinegética e prever o pagamento de um determinado valor por cada animal abatido nas áreas abrangidas pela experiência.

“Nós precisamos do equilíbrio”, afirmou o ministro, defendendo que a gestão das populações deve compatibilizar a protecção da biodiversidade com a defesa das culturas agrícolas.

 

Ensino superior mais próximo da agricultura

O Dia de Campo ficou ainda marcado pela assinatura de um protocolo de colaboração entre o B-Rural, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) e o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP).

A parceria pretende aproximar os estudantes do ensino superior das actividades agrícola e florestal e dar-lhes maior conhecimento sobre as oportunidades profissionais existentes nestes sectores.

A iniciativa surge num contexto em que a renovação geracional e a capacidade de atrair quadros qualificados são apontadas pelas organizações agrícolas como desafios para os próximos anos.

Também Maurício Marques, presidente da Comissão de Agricultura e Pescas da Assembleia da República, sublinhou durante o encontro a necessidade de estreitar a relação entre conhecimento científico e actividade produtiva.

“É fundamental que a ciência e a produção caminhem de mãos dadas”, afirmou, defendendo igualmente uma aproximação dos jovens ao sector.

“Temos de continuar a atrair jovens para a nossa agricultura. Jovens de talento, novos pensadores, para que possamos caminhar juntos”, acrescentou.

Entre campos experimentais, novas ferramentas digitais e preocupações económicas de quem produz, o Dia de Campo voltou assim a colocar a Estação Experimental António Teixeira como ponto de encontro entre investigação e agricultura, numa cultura onde o aumento da eficiência e da competitividade está cada vez mais ligado à capacidade de incorporar conhecimento e tecnologia.

 

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