Vivi no Montijo entre 1957 e 1960 mas nunca me despedi da Rua Sacadura Cabral porque o meu coração continua lá, no número 68, perto dos corticeiros e da malhada do Ferra. Será melhor referir o «fabrico» porque os corticeiros foram todos levados pela PIDE em 1958 por causa da campanha de Humberto Delgado. Lembro as lágrimas e os gritos das mulheres e das crianças que foram à procura dos operários presos em Caxias.

Lá pelo Verão de 1958 a Câmara Municipal do Montijo organizou uma Colónia de Férias. O grupo de meninos tinha direito a bata, lanche com pão, leite e marmelada, monitores na Atalaia, passagem pelo Afonsoeiro e uma ida à praia da Figueirinha onde as responsáveis vestiam o fato de banho preto e com caixa mas sempre protegidas dos olhares dos meninos por providenciais toalhas de banho junto às rochas.

Era no caminho para a Atalaia que se cantava o hino em louvor do filantropo cujos primeiros versos eram «Zé da Silva Leite / Nosso benfeitor». A Rua Sacadura Cabral era perto do Beco do Esteval onde em tempos houve o moinho do Esteval.

Lá pelos idos de 1958 ainda se falava no Padre Cruz (1859-1948) que um dia veio à nossa rua e pediu um copo de água à Tia Pagá. O púcaro metálico usado pelo ilustre alcochetano ficou guardado como uma relíquia por aquela nossa vizinha.

Quando eu ia para a Escola Primária do Montijo, perto do Tribunal, encostava o nariz ao vidro da Redacção da Gazeta do Sul. Terá sido nesses momentos que ficou traçado o meu destino e não é por acaso que em 1978 no Diário Popular me iniciei nas lides do chamado jornalismo cultural. Tudo tem uma razão de ser: comecei a gostar de futebol porque fui apanha-bolas no Campo Luís Almeida Fidalgo. Uma senhora disse na Pastelaria Mimosa – «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!» mas isso é outra crónica.

José do Carmo Francisco

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