O patriarca católico de Lisboa e a Comunidade Islâmica de Lisboa criticaram esta quinta-feira, dia 27 de agosto, uma ação de propaganda de extrema-direita divulgada nas redes sociais numa mesquita em Ourém, considerando-a uma profanação de um templo religioso.

“A nossa reação é uma reação unânime que está radicada seja na mensagem do Evangelho, ou seja, na doutrina social da Igreja, nomeadamente na sua dimensão de relação inter-religiosa”, contra “tudo o que seja instrumentalização do sagrado e de espaços sagrados para outros fins”, afirmou Rui Valério, que é também presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, que tem a pasta do diálogo com outras confissões.

Em causa está uma intrusão numa mesquita em Ourém, divulgada nas redes sociais por ativistas de extrema-direita, que já foi objeto de queixa pela Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL).

No comunicado, a CIL recorda que uma sala de oração ou um muçulmano a rezar não constituem uma ameaça, remetendo dúvidas que existam em relação ao uso do espaço “devem ser tratadas pelas entidades competentes” e “não podem servir de pretexto para provocar, humilhar ou criar hostilidade contra uma comunidade religiosa”.

Nesse sentido, a CIL “apresentou formalmente uma participação junto das entidades competentes, na sequência da divulgação e declarações ocorridos num espaço de oração muçulmano”.

Na sequência do incidente, Rui Valério, que é natural do concelho de Ourém, contactou a direção da mesquita invadida e manifestou a sua solidariedade a título pessoal e institucional.

Sobre a ação de propaganda, o patriarca da Igreja Católica salientou que se verificaram “duas particularidades desagradáveis” que o incomodaram.

“Em primeiro lugar foi uma invasão abusiva”, porque alguém entrou no espaço e “se pôs a fazer considerandos relativamente ao que ia encontrando e percebe-se que não está muito por dentro da dinâmica, da orgânica e da identidade daquela religião” e, “em segundo lugar, aquilo que para mim foi verdadeiramente confrangedor e merece o nome de profanação, foi usar-se aquele espaço sagrado para fazer publicidade a um livro”, explicou.

Para o responsável católico da Comissão da Missão e Nova Evangelização, é errado usar-se espaços religiosos para fins “que não aqueles que estão estabelecidos pela própria essência, natureza e identidade dos mesmos, que é a oração e o culto”.

“Não é por este caminho, não é por esta estrada que nós chegamos à concórdia e à paz”, acrescentou ainda o patriarca.

Porque a “concórdia e a paz constroem-se a partir de respeito recíproco, reconhecimento mútuo e, lá está, necessidade e desejo de nos conhecermos reciprocamente uns aos outros. E talvez foi isso que faltou ali”, acrescentou.

Por seu turno, a CIL considerou “particularmente preocupantes os comportamentos observados no interior do espaço de oração, incluindo o desrespeito pelos tapetes utilizados para a oração e pelo exemplar do Alcorão, bem como determinadas afirmações dirigidas à religião islâmica e à comunidade muçulmana”.

A CIL “continuará a defender o direito dos muçulmanos à liberdade religiosa, à dignidade e à igualdade, sempre dentro dos princípios do Estado de direito e através das instituições da República”, pode ainda ler-se no comunicado.

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