Foto: José Caldeira

A peça ‘Bate Fado’, criação da dupla Jonas&Lander, foi apresentada no passado dia 5 de Fevereiro, no Teatro Virgínia, em Torres Novas. Este espetáculo é composto por quatro bailarinos, quatro músicos e um fadista, também ele bailarino. O ambiente é inspirado nas referências das caricaturas de Bordalo Pinheiro que mostravam o fado dançado em ambientes ásperos e mundanos. O objectivo, segundo a dupla de coreógrafos, é resgatar a dança que o Fado perdeu. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, Jonas, um dos elementos da dupla de coreógrafos, explica como nasceu a ideia e em que consiste o ‘Bate Fado’.

Apresentaram no passado dia 5 de Fevereiro, o espetáculo ‘Bate Fado’. Como surgiu e em que é que consiste esta peça?
Esta peça em primeiro plano pretende dar a conhecer ao público que o Fado já teve uma dança denominada por Fado Batido. Uma dança que se extinguiu nos inícios do séc. XX e que parece ter-se desvanecido da memória colectiva. O fio condutor conceptual da peça foi então o resgatar desta dança do Fado, bem como a sua percussão em diálogo directo com as vozes e cordas. A dança e o bailarino enquanto instrumento musical. Bate Fado não é a reprodução da dança Fado Batido, até porque dada a inexistência de registos videográficos desta dança, tal não seria possível. Este espectáculo apresenta-se de outra forma como uma proposta de reinterpretação livre do universo e da mundividência do fado oitocentista trazendo-o com toda a sua sensualidade, boémia, ritmo, percussão, virtuosismo, exuberância e movimento para o séc. XXI no contexto de dança contemporânea, uma dança para o fado dos dias de hoje.

Como é o processo criativo de duas artes tão distintas quanto o Fado e a Dança?
Todas as nossas peças têm habitualmente na sua génese esta transdisciplinaridade tendo o diálogo entre música e dança um especial relevo. Essa proximidade já com o ritmo, com a percussão e com a musicalidade foi crucial no decorrer do processo de construção de Bate Fado. Este processo criativo foi acima de tudo uma co-criação entre três entidades. Entre Jonas&Lander e o Fado. Claro que as dúvidas são inúmeras no decorrer do processo, mas no fundo só temos de estar atentos e disponíveis, deixar a peça ir falando por si e ir seguindo o instinto.

Esta é uma relação não muito conhecida dos portugueses. É um objectivo trazer novos conceitos artísticos ao público?
A dança contemporânea e performance assumem-se como formas de arte de exploração de experimentação e laboratório na sua origem. Essa é a nossa formação. Ir de experimento em experimento e materializar na nossa realidade coisas que ainda não estão cá. Depois há também o expressar da nossa vivência, do nosso caminho e da nossa personalidade através do nosso trabalho, da nossa arte intrinsecamente ligada à nossa vida pessoal. Ora, como cada caminho e cada personalidade são pessoais e intransmissíveis quando se coloca verdade no que se faz o resultado só pode ser um novo conceito.

Jonas&Lander, são a dupla de coreógrafos portugueses responsáveis pelo espetáculo. Qual foi o seu percurso até o ‘Bate Fado’?
Jonas é alfacinha até ao ‘osso’ com família paterna do Lumiar e materna da Mouraria. O Lander nasce no ‘finzinho’ dos anos 80 na cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. A título de curiosidade estas são as duas cidades no mundo onde nasceu uma música e dança chamada Fado. Jonas&Lander assumem-se assim como uma dupla de coreógrafos luso-brasileira e que correu mundo como consequência do seu trabalho.
É limitador tentar pôr o percurso destas duas pessoas que trabalham juntas e vivem uma relação há uma década num parágrafo ou numa página. Focando-nos estritamente no trajecto profissional podemos dizer que tem sido um percurso com brilho e com muitas bênçãos. Tivemos já experiências no teatro, na música, na dança, no trabalho documental, diversos trabalhos nossos foram premiados em território nacional e internacional. Temos actualmente equipas de trabalho com pessoas maravilhosas. Temos tido a sorte de ser apoiados por pessoas extraordinárias e é o confluir de tudo isto que faz com que o nosso trabalho continue a florescer à frente dos olhos de um público que nos acarinha. Em suma tem sido um percurso extremamente belo e a nossa gratidão por isso é enorme.

Os palcos de Portugal e do Mundo viveram nos últimos dois anos em confinamento. A Internet foi um meio alternativo para a apresentação e divulgação de projectos. Os espectáculos online, na sua opinião, vieram para ficar?
Esperemos bem que não. Não faz sentido ver espectáculos teatrais num computador. Assistir a um espectáculo online pode ser inclusive prejudicial para a peça teatral que não é pensada e desenhada para isso. Deixemos esse lugar para o cinema, para os videoclipes, para a vídeo-dança que esses sim são objectos artísticos desenhados de raiz para o ecrã. A presença, a partilha e comunhão da vibração entre público e performers em palco é algo completamente insubstituível e que nada tem que ver com online.

O movimento associativo cultural tem futuro? Que papel podem os jovens desempenhar nesse futuro?
O nosso trabalho não é assumidamente de intervenção política embora essa intervenção por vezes transborde aqui ou ali sem que nos demos conta. O nosso papel político é de espectador activo não tanto de agentes políticos. Não fazemos parte de nenhum movimento associativo político nem somos filiados a nenhum partido, mas demonstramos total apoio a quem sente que essa faz parte das suas missões e deixa que esse lado de intervenção política fale mais alto no seu trabalho artístico. Quanto ao papel dos jovens a desempenhar no futuro. Acho que uma pessoa de 80 anos pode ter uma acção, como plantar uma pequena floresta por exemplo, que poderá vir a ter impacto nos próximos 500 anos. Acho que esse papel no impacto social futuro é de todos e há jovens que vão desempenhar papéis com um impacto enorme (positivo ou negativo) no futuro, e outros que terão um papel completamente irrelevante. Foi sempre assim.

Neste momento, quais são os grandes desafios que se colocam pela frente?
Para a dupla Jonas&Lander, bem como para a maior parte dos artistas portugueses quer sejam ligados à música, ao teatro, ao circo ou à dança, o grande desafio é manter uma internacionalização do seu trabalho forte, constante e alicerçada. Quer seja por questões geográficas de um Portugal na ponta da Europa que não tem as mesmas facilidades de deslocação da Europa central, quer seja por falta de investimento governamental nas artes, esse é o nosso maior desafio, bem como o da arte nacional no geral. A um título mais pessoal este é o momento em estamos a desenhar o plano de acções para recordar a dança do Fado e voltar a pôr o maior número de pessoas a dançar e a bater o Fado. Este é um grande desafio que nos entusiasma hoje, desde há dois anos a esta parte, e parece que nos próximos anos também assim continuará a entusiasmar e desafiar.

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