No século XIX, em 1832, é publicada uma das obras mais conhecidas “Da Guerra” de Carl von Clausewitz (General Prussiano e teórico militar) onde afirmou: “A Guerra nada é mais do que um duelo em grande escala”.
Muitos duelos surgiram ao longo da história. Ao fim de quase 200 anos da publicação desta ideia, os duelos transformam-se e mudam de território. Alteram-se os actores, alteram-se as tecnologias, mas não se altera o objectivo – domínio da Ordem Internacional. Actualmente verificamos um duelo pelo Espaço para além da Terra. Este movimento não começou hoje…
Em 1957, iniciou-se o lançamento, pela União Soviética, do primeiro satélite artificial para o espaço – o Sputnik 1. É marcada, assim, a corrida espacial. Seguiu-se em 1961, ainda, pela URSS da colocação do primeiro homem, Yuri Gagarin, em órbita terrestre. Após várias tentativas falhadas, em 1961, o Presidente americano J. Kennedy, anuncia que até final da década a América colocará astronautas na superfície da Lua. Este facto ocorreu a 20 de Julho de 1969.
Estes acontecimentos, além de ultrapassarem os limites do conhecimento humano, marcaram também o alargamento da fronteira geopolítica. Passámos da política na terra para a astropolítica. O espaço passa a ser o novo território.
No princípio do século XX, Mackinder afirmou “…quem dominar o centro da Eurásia, dominará o mundo”; A. Mahan disse:” … quem dominar os oceanos dominará o mundo”; N. Spykman “… quem dominar as periferias dominará o mundo” e em 2002, Everett Dolman, no seu livro “Astropolítica: Geopolítica Clássica na Era Espacial“, (Astropolitik: Classical Geopolitics in the Space Age), afirmou que “…quem dominar o espaço dominará o mundo”.
As primeiras décadas do século XXI mostram precisamente a corrida alargada, com novos protagonistas, ao poder do Espaço, ou seja, a uma nova geopolítica. O poder espacial permite, sem dúvida, dominar todos os outros domínios: terrestre, marítimo, aéreo ou cibernético.
As áreas de intervenção são diversas e ao mesmo tempo preocupantes: económicas, educacionais, de mineração, industriais, diplomáticas, de governança global e ainda, talvez mais problemáticas, mas efetivas, militarizantes.
Há também uma mudança de práticas de poder em relação ao período da Guerra Fria. Enquanto nos anos sessenta e setenta do século passado a disputa estabelecia-se entre dois estados. Nos dias de hoje, assistimos à entrada do sector privado no avanço pelo domínio geopolítico, em especial, do Espaço. Por exemplo, as empresas de Elon Musk (empresário americano e ex-conselheiro da Casa Branca) possuem mais satélites em torno da Terra que todos os países juntos. Curioso!
Os duelos que se passam pelo domínio do Espaço tornam-se promíscuos. Misturam-se interesses políticos, cada vez mais, com lucros empresariais ou pessoais. Veja-se por exemplo a importância da Starlink (propriedade do empresário americano referido anteriormente) na guerra da Ucrânia com a Federação Russa. O corte de acesso aos satélites Starlink à Rússia deu prioridade e vantagem à Ucrânia. O peso geopolítico de uma empresa privada torna-se fundamental num conflito na Europa. A influência desse facto revela-se no título da notícia do jornal Expresso (25 julho 2026): “Agente russo recrutado no Telegram ativou mais de mil terminais Starlink para a Rússia. Acabou detido na Ucrânia”. O domínio passa necessariamente pelo domínio do espaço. Voltemos um tempo atrás…
Space Exploration Technologies Corp., cujo nome comercial é SpaceX, foi fundada por Elon Musk em 2002, com o objectivo de colocar estufas miniatura em Marte para produzir plantas e desenvolver foguetes lançadores a preços mais baixos dos praticados pela NASA. Projecto ambicioso!
Em 2006, após concurso, a NASA anunciou que a Space X e uma outra empresa a “Orbital” (hoje adquirida pela empresa Northrop Grumman – multinacional norte-americana que atua no ramo da indústria aeroespacial e defesa) tinham sido seleccionadas para fornecerem o reabastecimento de tripulação e carga para a Estação Espacial Internacional. Por curiosidade a Northrop Grumman é um dos maiores fabricantes de armas e fornecedores de tecnologia militar do mundo com cerca de 97 000 funcionários e uma receita anual superior a 40 mil milhões de dólares.
A Estação Espacial Internacional (International Space Station, ISS) é um dos maiores investimentos internacionais com mais de 100 mil milhões de dólares. A NASA já anunciou que em 2031 a ISS terá o seu fim de vida.
Em 2011 com o fim do programa dos Shuttle a NASA foi obrigado a recorrer a terceiros para o transporte de astronautas para a ISS. Primeiro através das naves russas Soyuz (por curiosidade, cobrava aos americanos por cada lugar na nave 88 milhões de dólares) e depois de empresas privadas, em especial, da Space X. A RTP notícia, em 31 de Maio de 2020, “Sucesso na primeira missão privada e tripulada – A Space X e a NASA celebraram este domingo a conclusão com êxito da primeira missão privada tripulada, enviada à Estação Espacial Internacional.”
Ainda, a SpaceX cuidará de 40% dos requisitos de lançamento de satélites das Força Espacial dos Estados Unidos (é a primeira força espacial do mundo) durante um período de 5 a 7 anos.
No início do ano, Elon Musk acabou por fundir a Space X com a xAI, ou seja, juntou a exploração espacial com a Inteligência artificial. A estratégia é diminuir a dificuldade em desenvolver “Data Centers” na Terra pelo problema energético. Deste modo coloca no espaço essas infraestruturas com a possibilidade de ter energia quase ilimitada. A longo prazo, a empresa de Elon Musk pretende desenvolver tecnologia e recursos para a colonização humana de Marte.
Já percebemos que os Estados Unidos entregaram grande parte do seu poder espacial a um único actor… o sector privado.
E a China? Quais os projectos na área do Poder Espacial?
Para entendermos a dinâmica da temática espacial na China leiam-se alguns dos títulos do jornal Xinhua (Agência de notícias estatal oficial do governo da República Popular da China)na primeira quinzena de Julho: “China construirá rede de monitoramento espacial e terrestre para defesa contra asteroides” (2/7/2026); “China lança novo grupo de satélites para constelação comercial” (5/7/2026); “Sonda chinesa Tianwen-2 alcança asteróide alvo e inicia exploração científica” (6/7/2026); “China realiza primeira recuperação controlada de foguete em voo inaugural do Longa Marcha-10B” (10/7/2026); ”Foguete chinês Longa Marcha usa novo combustível derivado de GNL e conquista avanço tecnológico” (13/7/2026) ou “Tripulação de Shenzhou-23 da China testa novo dispositivo de medição” (14/7/2026). Parece evidente que, pelo menos oficialmente, há um interesse enorme sobre o conhecimento do Espaço para além da Terra.
Este interesse não é de hoje, A China está a preparar o desenvolvimento integrado na área espacial e terrestre.
Em 2014 após o lançamento da “Iniciativa Cinturão e Rota” (Belt and Road Initiative), o Presidente da China, Xi Jinping, avança com outro projecto designado “Rota da Seda Espacial”
que é uma extensão do Plano anterior. Este projecto baseia-se, segundo as autoridades chinesas, na cooperação entre parceiros nos sectores de redes de satélites e infraestruturas terrestre aeroespaciais. Tem como objectivo a integração dos diferentes países através de serviços espaciais. Pretende ser uma alternativa ao sistema de GPS (Sistema de Posicionamento Global) americano; compartilhar dados; projectar uma rede de rastreamento de dados por via satélite e colaborar na investigação científica global.
Parecem evidentes os impactos geopolíticos deste Plano. A deslocação dos interesses e das capacidades de funcionamento, em especial; da Inteligência Artificial, do chamado “Ocidente” para os países “do Sul” orientados pelo poder da China. O Poder Espacial Económico, O Poder Espacial da Diplomacia, o Poder da Governança, ou seja, O Poder Espacial está presente.
A Federação Russa não está fora deste processo. A situação actual está muito baseada na sua herança soviética e encontra-se numa posição muito fragilizada. Tem apresentado algumas tentativas na área espacial, mas ultimamente, alguns fracassos merecem uma análise aprofundada pelas autoridades governamentais sobre o sector. Não significa que não entre em cooperação com o seu aliado estratégico, a China, para futuras operações em conjunto.
Em 2023 a Índia torna-se o primeiro país a pousar com sucesso uma nave perto do polo sul da Lua, através da missão Chandrayaan-3. Com esta operação, a Índia tornou-se o quarto país a pousar suavemente na Lua (junto a EUA, União Soviética e China) e a primeira a alcançar a área do polo sul. O principal objectivo era encontrar água e, assim, ter um recurso fundamental para futuras bases humanas.
Também o Japão realizou uma alunagem de alta precisão em 2024. A missão SLIM da JAXA permite ao Japão tornar-se o quinto país a pousar na superfície lunar.
Vários protagonistas estão a entrar nos duelos pelo Poder do domínio do Espaço outros se seguirão…
