Podíamos começar com o caso que ocorreu em 2 de Outubro de 2018. Tratou-se do assassinato de Jamal Khashoggi (jornalista do The Washington Post e ex-editor do Al-Arab Channel e dissidente saudita). A situação ocorreu no consulado da Arábia Saudita em Istambul e o corpo nunca apareceu. Um verdadeiro enigma na linha de investigação de Agatha Christie…
Poderíamos referir o caso do assassinato de Qassam Soleimani (comandante da Força Quds, “Força de Jerusalém” – unidade especial do Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica do Irão) no dia 3 de Outubro de 2020. O ataque ocorreu no Aeroporto Internacional de Bagdad no Iraque. Neste não é necessário apelar à investigação de Poirot. O assassino identificou-se… “Ele (Barack Obama) não fez nada em relação a Qassem Soleimani; eu matei Qassem Soleimani” e Donald Trump acrescentou “Matei o Aiatola [Ali Khamenei] e, infelizmente, feri o outro Aiatola (Mojtaba Khamenei)” (Euronews 20/06/2026). Portanto, caso resolvido…
O estranho caso que queremos entender é mais complexo. Estamos a referirmo-nos à assinatura do “Acordo (Pacto) de Defesa Militar entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia” conhecido como “Acordo de Meca”. Embora não se conheça o texto que foi assinado pelas três partes, reconhece-se, pelas declarações dos dirigentes, que o acordo pretende fortalecer a cooperação militar de modo que se estabeleça uma percepção global de dissuasão colectiva, ou seja, não existe um “inimigo” comum. Esse inimigo é o Irão? Israel? Os Estados Unidos? A Índia? Os Houthis do Iemen? Os não muçulmanos? Qualquer outro?!… O objectivo concreto não é muito claro.
A diversidade de interesses entre os signatários é enorme e o pacto pode transformar-se numa armadilha. As interligações geopolíticas do Paquistão, da Arábia Saudita e da Turquia são complexas e exigem uma enumeração das diferentes características, de cada um, para compreendermos, um pouco melhor, as teias criadas.
Comecemos pelo Paquistão…
O Paquistão é o único país islâmico que se afirma como potência nuclear (mais de 170 ogivas) e as suas forças armadas são as sétimas maiores do Mundo. Os paquistaneses têm recebido, ao longo de várias décadas, o apoio financeiro, seja através de empréstimos directos, seja de perdões de dívida, além do fornecimento de material de militar (desde aviões F-16 a equipamentos militares de alta tecnologia). No entanto, estas relações têm-se tornado mais instáveis devido à aproximação à China.
Em 2017, o Paquistão aderiu à Organização para Cooperação de Xangai (OCX) durante a cimeira de Astana, no Cazaquistão (curiosidade: adesão conjunta com a Índia). A OCX é uma organização do bloco eurasiático de segurança e cooperação económica da qual fazem parte a China e a Rússia, assim como o Irão, o Cazaquistão e a Bielorrússia.
Em 2023, o Paquistão solicitou a adesão ao grupo de países dos BRICS e a integração no Novo Banco de Desenvolvimento (conhecido como Banco dos BRICS) que para além dos países fundadores: Brasil, Rússia, China e Índia são também membros mais recentes, entre outros, o Irão, a Indonésia. A adesão tem sido contrariada, até hoje, pela Índia.
Entretanto, a China tem desenvolvido e apoiado a construção de um conjunto de infraestruturas de transportes no Paquistão que correspondem ao Corredor Económico China-Paquistão integrado nas Novas Rotas da Seda instituídas pelos governantes chineses desde 2013. Do Norte ao Sul do país (desde a região chinesa Xinjiang até ao novo porto de Gwadar no território do Baluquistão paquistanês) têm construído grandes autovias, caminhos de ferro, gasodutos e ligações digitais… com o obectivo de promover o crescimento e desenvolvimento do país.
Entretanto o Paquistão, tendo em atenção a sua participação como mediador do conflito com o Irão, solicitou aos Estados Unidos, um apoio financeiro de 10 mil milhões de dólares através de um mecanismo de estabilização cambial. O governo paquistanês pretende promover com os EUA um incremento dos investimentos americanos em vários projectos fundamentais no território asiático. O país do Sul Asiático encontra-se dependente desde 2023, após o risco de incumprimento, do Fundo Monetário Internacional. ,
Em 17 de Setembro de 2025 o Paquistão assinou com a Arábia Saudita o Acordo Estratégico de Defesa Mútua. Durante várias décadas os dois países têm desenvolvido uma intensa cooperação militar, económica, cultural e em aspectos religiosos. É importante realçar que mais 70% da população é islâmica sunita, mas talvez mais importante, 20% é islâmica xiita). Alguns observadores de política internacional apontam que as preocupações de segurança regional e as recentes alterações da dinâmica geopolítica, em especial na Ásia Ocidental, poderão ser a justificação para a assinatura formal do acordo bilateral.
Parece um posicionamento geopolítico duvidoso e complexo… e pode trazer maior instabilidade à região.
Em relação à Arábia Saudita…
A dimensão do mercado da Arábia Saudita permite-lhe ser a única economia da Ásia Ocidental a integrar o grupo dos mais desenvolvidos (G20). O poder financeiro baseado na exportação de petróleo e gás tem vindo a diversificar-se. No início do ano, a Arábia Saudita abriu o seu mercado ao investimento estrangeiro. De qualquer modo, o poder do petróleo é imenso. O país possui algumas das maiores reservas mundiais de crude garantindo, assim a acumulação de capital enorme, permitindo que detenha um dos maiores Fundos Soberanos do Mundo.
O Reino da Arábia Saudita é um dos maiores importadores de armas. O seu principal fornecedor são os Estados Unidos. De acordo com o Jornal “O Público”, em 2025: “Os EUA acordam venda de pacote de armas de 142 mil milhões de dólares à Arábia Saudita. Os dois países discutiram a compra dos caças F-35 da Lockheed. A Arábia Saudita seria apenas o segundo Estado do Médio Oriente, depois de Israel, a operar este tipo de aviões militares”. Este apetrechamento de armamento tem permitido ter uma das forças de defesa mais bem equipadas (cerca de 25 % do seu orçamento) do Médio Oriente.
A Arábia Saudita apresenta, assim, três condições importantes para os outros dois parceiros, o Paquistão e a Turquia: o poder financeiro, os recursos energéticos e a capacidade militar modernizada e avançada.
Entretanto, em Julho passado, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou desviar a Arábia Saudita dos outros parceiros, propondo um acordo de cooperação nuclear civil de tecnologia americana. Este acordo abortou quando foi associado à obrigação de reconhecimento oficial de Israel através dos Acordos de Abraão. Curioso!…
Por último, a Turquia…
A Turquia juntou-se ao Acordo de Defesa já assinado, em Setembro passado, pelos dois outros intervenientes.
Em primeiro lugar, a Turquia é um país membro da NATO. Na verdade, é o segundo país (dos 31 membros) da Aliança Atlântica com o maior exército e tecnologicamente avançado.
Geograficamente a Turquia localiza-se na intersecção de fronteiras com a Rússia (Mar Negro) e com o Irão. Esta posição permite-lhe estabelecer uma relação de charneira entre os dois países.
O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, já esclareceu que pretende permanecer na NATO (as elites políticas e militares são favoráveis à permanência na organização).
A capacidade tecnológica militar é uma mais-valia no Acordo. A aposta no desenvolvimento de sistemas de defesa de última geração, drones e naves aéreas de quinta geração, torna a Turquia menos dependente de fornecedores externos e transforma-a numa potência importante a ter em conta.
Podemos ainda referir que, como objectivo estratégico, a Turquia pretende aumentar o seu poder geopolítico na região, alargando, também, a sua influência para oriente, ou seja, para os países túrquicos (Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão e o Uzbequistão). Do Mundo “Ocidental” à Ásia Central. (será que vislumbramos a tentativa de recuperar o antigo Império Otomano?!).
A recente aproximação da Turquia à Arábia Saudita permitiu a assinatura deste Acordo de Meca. Anteriormente, os dois países estavam, frequentemente, em lados opostos, como por exemplo: na Síria, no Qatar ou no caso do julgamento do assassínio de Khashoggi.
Por fim, o futuro deste Acordo é imprevisível… Este estranho caso de um acordo: sem objectivo colectivo conhecido, sem regras de participação, sem lideranças definidas, sem integração militar… não permite ver mais longe!
Entretanto, se a cláusula principal diz: “um ataque armado a qualquer um dos parceiros passa a ser tratado como uma agressão contra os três”, então, permitam-nos colocar uma simples pergunta: se a Turquia sofrer um ataque é defendida pelos membros do Acordo de Meca e como membro da NATO é accionado o artigo 5º? Estranho!
