No passado dia 28 de Fevereiro, o presidente americano, Donald Trump, anunciou “uma grande operação de combate” no Irão. Começou, assim, mais uma guerra desigual como tantas outras. Na sua plataforma Truth Social que “nada restará do Irão” se o país não assinar um acordo com os Estados Unidos. “Para o Irão, o tempo está a esgotar-se e é melhor que ajam rapidamente ou não restará nada deles“, ameaçou. (expresso 17 maio 2026).
Esta ofensiva, em conjunto com Israel, criou condições para o desenvolvimento de uma guerra assimétrica. O orçamento militar dos Estados Unidos (895 mil milhões de dólares, 3,38% do PIB) é o maior do planeta, a maior força aérea do mundo, com onze porta-aviões nucleares (todos da frota de superporta-aviões). Os Estados Unidos contam com considerável força militar no Oriente Médio. São tropas em mais de uma dezena de países e abrigam atualmente cerca de 40 mil pessoas, entre militares e civis, sem falar nos sistemas de defesa aérea. Enquanto o Irão tem uma manifesta fragilidade aérea, não tem uma marinha comparável, está sob sanções há décadas e sem acesso ao mercado Internacional de armas regular.
As diferenças são incomparáveis e a guerra não era inevitável apesar das supostas razões que apresentam os grandes poderes.
Após os primeiros ataques, o presidente americano afirmou “Este regime vai aprender que ninguém deve desafiar a força e o poderio das Forças Armadas dos Estados Unidos da América”. A manifestação de poder é evidente e o Irão percebeu que perante as diferenças militares entre os dois países era necessário actuar de outro modo. Cedo planeou os seus movimentos e as decisões políticas para enfrentar a situação.
As guerras assimétricas não são uma criação do século XXI. A opção de mudança para uma guerra diferente surge já em Sun Tzu (filósofo e estratega chinês, 544 aC – 496 aC) na obra “Arte da Guerra”: “As tácticas militares assemelham-se à água porque a água, no seu curso natural, corre dos lugares elevados, precipitando-se para baixo. A água molda o seu curso de acordo com a natureza do terreno por onde corre; o soldado constrói a vitória adaptando-se ao inimigo que enfrenta. Aquele que consegue modificar as suas tácticas em função do adversário e assim sair vencedor, pode ser chamado um capitão nascido no céu”.
Também no século XVIII/XIX Carl Von Clausewitz (General prussiano e teórico militar) na sua obra “Da Guerra” argumentou que “a guerra muda a sua natureza dependendo das condições. A guerra assimétrica adopta uma forma diferente da guerra convencional simétrica, operando fora dos padrões militares tradicionais para explorar a vulnerabilidade do mais forte”.
Já entendemos que a Guerra Assimétrica ocorre quando um dos contendores tem um poder militar muito superior ao adversário, no entanto perseverante, ou seja, com firmeza e resiliência. A esta capacidade designa-se por flexibilidade estratégica para continuar a atingir os objectivos anteriormente estabelecidos. É este o caso do Irão!
A Guerra de hoje não é estabelecida apenas com tanques, mísseis ou aviões. A Guerra muda de forma e de “cor” como o camaleão. Drones baratos, ataques cibernéticos ou sistemas de guerra eletrónica estão a mudar os conflitos e a alterar a centralidade do poder tradicional.
Muitas guerras do passado ocorreram no mundo de forma simétrica. É o caso, por exemplo, dos conflitos mundiais de 1914-18 e de 1939-45 (primeira e segunda grande guerra), no entanto muitas outras ocorreram de modo assimétrico: A Guerra do Vietname 1964 e 1973 (entre o Vietname do Norte e os Estados Unidos), Guerra do Afeganistão 1979-1989 (entre a União Soviética e a resistência dos mujahideen financiados pelo ocidente e países árabes) ou recentemente o conflito Federação Russa e a Ucrânia.
O objectivo do contendor mais forte procura sempre vencer e acredita que será rápido e simples. O adversário mais fraco tenta resistir e impedir que o agressor vença. A estratégia é transformar a resistência em vitória. A história recente revela que esse objectivo é frequentemente alcançado.
A utilização de tácticas políticas e militares diferentes, por parte do país mais fraco, correspondem, evidentemente, a uma estratégia estabelecida. O Irão definiu quatro eixos estratégicos para enfrentar o ataque dos Estados Unidos e de Israel, potências nucleares: potenciar o nacionalismo da população iraniana; estabelecer um conjunto de alianças externas; promover uma opinião global favorável e procurar os pontos fracos do inimigo debilitando-o.
A história milenar do Irão/Pérsia e a história do século XX de resistência a interferências estrangeiras (por exemplo a presença, quase colonial, dos britânicos e a exploração do petróleo) criou na população persa um motivo de união. Qualquer intervenção externa no território iraniano é um factor nacionalista de apoio. Trump ajudou com frases como a que se segue “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”. De certo modo, as autoridades governamentais conseguiram essa união apesar de ocorrer após um período gravíssimo de movimentos populacionais de oposição. Ao logo de vários anos, o Irão estabeleceu uma rede de alianças regionais e globais que sustentam o apoio externo: a nível regional referimo-nos aos movimentos conhecidos por próxis ou “Eixo da Resistência”: o Hamas, o Hezbollah, os Houthis ou as milícias xiitas iraquianas…; a nível global, o apoio da Rússia e da China, especialmente no âmbito das organizações dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai. Em relação à opinião global favorável conseguiu potencializar a opinião negativa generalizada pela actuação do presidente americano Donald Trump e do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. As posições dos dois políticos têm originado um apoio generalizado do mundo, esquecendo com frequência as considerações sobre o regime agressivo iraniano.
O último eixo estratégico é o mais evidente. Tentar debilitar o inimigo foi estabelecido em vários eixos secundários: criar nos países do Médio Oriente uma diminuição na confiança no poder dos Estados Unidos em garantir a segurança dos países, condição essencial nas alianças sobre a utilização dos petrodólares (exportação de petróleo sempre em dólares). Ao descredibilizar a situação, criou fragilidades que supostamente não existiam. A crescente desdolarização tem sido um dos processos em curso que, também, tem aumentado a descredibilização global dos Estados Unidos.
Finalmente, o Irão encontrou uma arma letal não convencional – o Estreito de Ormuz. A ofensiva israelo-americana no Irão gerou uma guerra assimétrica, no sentido em que o regime iraniano consegue bloquear o estreito de Ormuz sem um grande esforço militar – uns drones ou outro armamento de curto alcance têm dado para o gasto. (Sábado 28 de abril de 2026). O bloqueio representa uma arma violenta de geoestratégia e geopolítica para todo o Mundo, politicamente e economicamente.
O Irão apresenta outro objectivo: para alcançar uma vitória necessita prolongar no tempo o conflito. Quanto mais tempo durar a situação, mesmo com o prejuízo da sua população, maior é o custo da operação para o adversário. Os Estados Unidos já gastaram nesta guerra mais de 40 mil milhões de dólares, o que tem origina consequências políticas internas preocupantes. Curioso!…
As guerras assimétricas levam, geralmente, ao fortalecimento dos mais fracos porque conseguem perceber que a mudança camaleónica os favorece perante potências militares autoritárias.
Alguém não conhece os estrategas militares clássicos!…
Não sabemos como, mas lembrámo-nos da história de David e Golias…
