Vivemos um tempo de múltiplas atribulações ao nível da tranquilidade e da paz mundial, posto que se alinharam nas diversas geografias do planeta um conjunto de dirigentes ávidos de sangue e de sofrimento, o que resulta de uma estratégia narcisista e gananciosa de cada qual disputar a liderança económica, com evidentes proveitos pessoais e familiares, sem olhar à miséria que estão a provocar aos mais pobres.

O natural seria que o mundo evoluísse no sentido de proporcionar bem-estar, paz e conforto sócio-económico aos povos dos diferentes países, e esse, salvo alguns ciclos maquiavélicos, tem sido o processo histórico da humanidade, porém, ciclicamente, surgem uns quantos energúmenos que não olham a meios para alcançar os seus desígnios, e vá de espalhar a morte, a destruição e a violência.

Pasmo como é que líderes mundiais, alguns dos quais eleitos democraticamente, permanecem nos seus cargos políticos, enquanto empenham todos os seus esforços na prática criminosa da morte, da destruição e da segregação racial. Se uma pessoa pode ser criminalizada – e bem! – por agredir um animal doméstico ou por ofender outra pessoa, como é que um governante responsável por milhares de mortes se passeia impávido e sereno sem quaisquer penalizações.

E quando até têm o desplante de ameaçar países soberanos com a usurpação do seu território! E nós, simples elementos do povo anónimo, assistimos a todo este tipo de tropelias sem poder ter qualquer intervenção que não seja a de criticar quem assim procede.

Este estado de coisas está a descaracterizar por completo o sentido da própria humanidade, posto que, por força de assistirmos diariamente, e em doses massivas, à divulgação de imagens de terror e de violência no mundo sem nos “incomodarmos”. É uma autêntica subversão dos princípios da essência humana!

Um velho poeta alentejano, mas residente muitos anos em Minde, analfabeto, mas inteligente e culto à sua maneira, criou uma quadra que mandou pintar num azulejo e colocou na soleira da porta da sua casa. O poeta, infelizmente, já faleceu, mas a quadra ainda lá está, e diz assim:

 

Se os reis da terra quisessem

Dos seus povos o bem-estar 

Bastava que eles lhes dessem 

O que Cristo mandou dar!

 

Os actuais reis da terra – tipo Trump, Netanyahu, Kamenei, Putin e outros quejandos – deveriam ter esta quadra na sua secretária de trabalho e serem obrigados a lê-la todos os dias, para ver se aprendiam alguma coisa com um singelo poeta analfabeto.

Porém, todos sabemos que estes políticos se orientam por objectivos materialistas, inspirados na ambição desmedida de mandar no mundo e de oprimir as suas populações, mesmo sem lhes infligir – o que muitas vezes não é o caso! – danos físicos, até ao extremo da perda da vida.

Fruto deste estado bélico em que vivemos e da destruição de património natural e construído, todos estamos cada dia que passa mais pobres e a viver com menor dignidade, enquanto estes trogloditas se enriquecem a si próprios e aos seus clãs de uma maneira vergonhosa.

E, infelizmente, este é o nosso quotidiano, alimentado pelos média que, em vez de retirarem palco a esta gente horrível, ao invés propagandeiam o seu poder, modelando a mentalidade contemporânea para este estado de coisas. Como se o mais natural da vivência humana fosse a guerra, a violência, a destruição e a intolerância! 

E as fortunas que são destruídas em armamento não deveriam servir para erradicar a fome no mundo, em consequência do que morrem todos os dias milhares de crianças, à fome e à sede?

E não dava também para que as crianças dos países mais pobres pudessem frequentar o ensino básico? No tempo da inteligência artificial é tolerável que milhões de crianças não tenham acesso ao ensino?

Pois, este é o mundo que temos, e temos consciência de que somos insignificantes para operar as necessárias mudanças, mas não nos podemos demitir de emitir opinião e de tentar informar os nossos concidadãos sobre este estado caótico em que o mundo se afunda. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!

E esta não é uma posição meramente ideológica, posto que metemos todos os criminosos que mandam no mundo no mesmo saco. “Democratas” ou ditadores, fanáticos religiosos de qualquer credo, ou tecnocratas gananciosos, são todos farinha do mesmo saco!

Enquanto isto, enquanto esta gente perversa se dedica à guerra, ainda há quem, felizmente, se movimente a favor da paz. É o caso dos folcloristas, cuja matriz assenta no reconhecimento da diferença social, cultural, política e económica. 

Todos diferentes e todos iguais, como tantas vezes dizia o saudoso Celestino Graça!

Os festivais internacionais de folclore, entre os quais o Festival Celestino Graça, que decorrerá na Casa do Campino, em Santarém, entre os próximos dias 1 e 6 de Setembro, são espaços de amizade, de tolerância e de respeito de uns povos pelos outros, afirmando com eloquência que a diversidade do mundo é a sua riqueza. 

Inclusivamente, os grupos folclóricos devotam-se a representar com a maior fidedignidade possível as tradições da sua região, de modo que o somatório de todas as representações num mesmo festival constitua um mosaico cultural múltiplo e diverso.

Já coincidiram na mesma edição do Festival Celestino Graça grupos representativos de países que estavam em conflito, ou não tinham relações diplomáticas estabelecidas entre si, como os casos de Israel e da Turquia, ou da Sérvia e da Croácia, por exemplo, o que não impediu que ambos tivessem uma conduta irrepreensível, pautada pelo respeito e pela harmonia entre si no âmbito do Festival.

Deste modo se consagra o folclore como um instrumento de paz e de entendimento, onde nada, nem as convicções religiosas, nem as ideologias políticas, nem as diferenças culturais e económicas possam impedir a convivência respeitosa entre todos. Uma sábia lição para os “reis da terra”, como dizia o poeta…

Porém, enquanto os cenários da guerra são desoladores, num ambiente de destruição cega, a ambiência do folclore é harmoniosa, encantadora e sadia.

Assim, modestamente, aceite o desafio do Festival Celestino Graça, e na próxima semana saia de casa, apague a televisão – porque todas falam de conflitos e de misérias – e vá até à Casa do Campino desfrutar de espectáculos de elevada qualidade técnica e artística que lhe são proporcionados por grupos folclóricos de Brasil, Costa Rica, Grécia, Itália, Lituânia e Portugal.

Para além do folclore terá ali ainda outros aliciantes, como a boa gastronomia ribatejana, o artesanato, os jogos tradicionais, a mostra de instrumentos musicais tradicionais “Sons Autóctones | Sons da Memória”, uma Gala Solidária dedicada aos Utentes das IPSS da região, e uma importante Gala de Fado com consagrados fadistas e músicos.

Esqueça a Guerra e viva a Paz e a Alegria na defesa do multiculturalismo e da harmonia entre todos os Povos do Mundo. Como disse o Papa Francisco: Todos! Todos! Todos!

 

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