“Ensinar à distância é muito mais do que enviar trabalhos por e-mail”

O Agrupamento de escolas de Alcanena, dirigido pela professora Ana Cláudia Cohen, foi distinguida pelo STEM School Label como a melhor escola da Europa a ensinar Ciências e Tecnologia. Agora, é através de meios digitais, plataformas de ensino à distância e e-mails que o agrupamento continua a garantir a consolidação e a aquisição de novas aprendizagens por parte dos alunos.

Como é que a Escola (ensino público) respondeu à interrupção do ano lectivo?
A suspensão das actividades lectivas e não lectivas presenciais é uma situação ímpar, à qual as escolas tiveram de responder de forma positiva e célere. Ainda que os alunos e os docentes estejam em casa, o ano lectivo não está suspenso, apenas se suspenderam as actividades presenciais. Nesta medida, houve necessidade de reflectir e de reconfigurar as práticas de ensino-aprendizagem a que estávamos habituados para um modelo à distância e, na generalidade, a resposta foi muito positiva.

Os docentes estão preparados para esta mudança?
Os docentes são uma classe profissional que responde sempre de forma muito afirmativa aos desafios que lhes são colocados e adaptam-se facilmente à mudança quando percepcionada pelos próprios como relevante e necessária. Neste caso particular, os docentes como têm uma grande preocupação com os alunos, não só no que diz respeito ao seu bem-estar, mas também em termos de aprendizagens e percurso, apresentaram grande motivação. Quanto à preparação, os professores são uma classe com um percurso formativo notório, tendo as escolas, igualmente, dado grandes passos em termos do desenvolvimento do digital nos seus contextos. Há, ainda, um número significativo de docentes que, no seu dia-a-dia, gere as suas aulas quase em regime de b-learning, isto é, para além das aulas presenciais, estão disponíveis online para esclarecimento de dúvidas, acompanhamento de projectos ou outros. Da mesma forma, quase todas as turmas têm um dossier digital ou uma disciplina numa plataforma de ensino à distância (a mais utilizada continua a ser o Moodle); um grupo whatsapp entre os alunos e o director de turma para troca de informações importantes, assim como partilham dispositivos como Dropbox; Google Drive; One Note, entre outros. Haverá sempre docentes que têm mais segurança e mais à vontade com ambientes e-learning do que outros.

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Existiu um plano concertado?
Claro que sim. Neste período de incerteza em que as actividades lectivas presenciais se encontram suspensas, todos os docentes, colaboradores e parceiros foram chamados para um desígnio maior, a responsabilidade social. Do nosso empenho depende o bem-estar e sucesso da comunidade educativa. No Agrupamento de Escolas de Alcanena, foram todos chamados para a tomada de decisão, tendo em vista a co-construção de um Plano de Acção e de Comunicação promotor do Ensino à Distância (EaD), um plano que garanta a consolidação e a aquisição de novas aprendizagens por parte dos alunos; a implementação de rotinas que ajudem os alunos a manter o foco nas aprendizagens; a utilização por parte dos docentes das plataformas de EaD com as quais estão familiarizados; a apropriação de estratégias de EaD; o bem-estar físico e mental dos alunos e docentes.

Como é que, em concreto, estão a trabalhar com os alunos, ou os docentes limitam-se a enviar trabalhos remotamente?
Não, de todo. Ensinar à distância é muito mais do que enviar trabalhos por email ou outro dispositivo. É preciso, envolvimento, compromisso parte a parte e foco. No caso do AE de Alcanena, criámos uma mancha horária para os diferentes ciclos, ouvidos os coordenadores de departamento, coordenadores de directores de turma, coordenadores de estabelecimento, pais e parceiros. Esta rotina é importante, pois os alunos sabem que as aulas à distância começam diariamente às 9h15 e terminam às 16h00, com vários intervalos para a interacção social e actividades de lazer entre si. Nestas, docentes e alunos programam, em conjunto, as tarefas a realizar que podem ser síncronas ou assíncronas, individuais ou colaborativas, comunicando através de uma Plataforma de EaD. No nosso caso, são utilizadas maioritariamente 3, Moodle, Teams e outras aplicações do Office 365 e Google Classroom, no terceiro ciclo e ensino secundário, as plataformas fornecidas pela Porto Editora e Leya, no primeiro ciclo e ferramentas do Office 365 e emails, no ensino nocturno. Tem sido muito interessante ver o grau de adesão. Nos primeiros dois dias, assistimos a uma réplica do que acontece presencialmente, alunos interessados com uma grande adesão e alunos mais desmotivados com uma adesão residual. Entretanto, com a intervenção dos directores de turma e a contaminação dos pares, assistimos a uma inversão da situação.

E as infraestruturas tecnológicas existentes estão preparadas para acessos em massa por parte dos utilizadores?
Essa é a grande dificuldade do EaD, não só as infraestruturas, como a ausência de equipamentos por parte de um número significativo de alunos que não têm computador e/ou internet. A largura de banda não é suficiente para permitir o desenvolvimento de actividades síncronas, tendo os professores que recorrer a um plano B e, por vezes C. Todavia, a imprevisibilidade faz parte do dia-a-dia do docente, pelo que rapidamente utilizam o plano B (email, grupo de turma numa rede social, etc.) para colmatar a dificuldade e para garantir que ninguém está isolado.

A implementação do ensino à distância em larga escala é possível no País?
Penso que com mais ou menos dificuldades e constrangimentos, todas as escolas estão em condições de avançar. Nesta fase, em que é urgente avançar, não importa tanto pensar numa plataforma específica, mas deixar que os docentes utilizem aquelas com as quais estão mais familiarizados e facilitar o trabalho em rede entre pares e a partilha de boas práticas. Penso que estas, a par da monitorização sistemática do plano de implementação são fundamentais para se introduzirem reajustes no processo, tendo em vista a melhoria contínua.

O Governo sugeriu que os correios entregassem TPC a alunos sem Internet. É uma opção viável?
Todas as opções são viáveis, quando exequíveis no contexto em que as escolas se inserem e tenham como impacto quebrar o isolamento dos alunos, romper com as assimetrias sociais e assegurar uma adesão massiva dos alunos ao EaD. No nosso caso, numa primeira fase, solicitámos colaboração à Câmara Municipal de Alcanena, no sentido de a edilidade emprestar tablets a alunos sem computador e de as Juntas de Freguesia se responsabilizarem pela distribuição de tarefas aos alunos sem internet, com especial incidência para as crianças do pré-escolar e do 1º ciclo. Caso estas parcerias se revelem ineficazes, vamos ter que encontrar outras soluções.

Que soluções estão equacionadas caso a interrupção escolar se prolongue no tempo?
No caso do Agrupamento de Escolas de Alcanena, o tempo que medeia até à interrupção lectiva é muito importante, para apropriação de estratégias de EaD por parte dos docentes; para a familiarização com plataformas de EaD; para afinar procedimentos de comunicação entre docentes e alunos; para a implementação de rotinas. A monitorização destas actividades será uma fonte crucial para o ajustamento do plano de acção, caso as actividades lectivas se mantenham suspensas após a pausa das actividades lectivas da Páscoa. Este ajuste é tanto mais importante porque os alunos, nessa fase, já não estão a consolidar aprendizagens, mas antes a desenvolver novas aprendizagens que também necessitam de ser avaliadas, o que obriga a uma reflexão colectiva acerca dos procedimentos de avaliação numa estratégia de EaD.

Existe alguma estratégia para apoiar os alunos com NEE?
Claro que sim. As tarefas propostas são inclusivas (permitem a sua realização de acordo com o ritmo dos alunos) e diferenciadas consoante o perfil dos alunos.

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