Este livro resulta de um trabalho colectivo de investigação, mas também de uma experiência pessoal muito marcada. Em que medida o seu percurso enquanto antigo preso político influenciou a construção desta obra?
Claro que o meu percurso político, antes do 25 de Abril de 1974, teve bastante influência na realização desta obra. Apesar de o trabalho abranger os 48 anos da ditadura, sentimos que seria importante não desperdiçar o conhecimento directo do que foi a luta contra o regime fascista, em Santarém, nos anos 60 e 70 (as nossas idades não nos permitem memórias de tempos mais recuados). Dada a idade avançada dos que colaboraram neste livro não deveríamos adiar por mais tempo a realização deste trabalho, como contributo para as gerações seguintes.
Ao longo do levantamento efectuado, reconheceu nomes, histórias ou percursos que lhe fossem familiares? Houve algum caso que o tenha marcado de forma particular?
São inúmeros os acontecimentos que me marcaram. Lembro-me do discurso de Maria Barroso (actriz), candidata da CDE (oposição democrática) pelo Distrito de Santarém, no comício realizado no Teatro Rosa Damasceno, durante as pseudo-eleições de 1969. O teatro estava completamente cheio, o ambiente era tenso e a intervenção da candidata foi de tal maneira emocionante que levou a assistência ao rubro, deixando muitos com as lágrimas nos olhos. Ninguém sairia como tinha entrado. Lembro-me também de uma extraordinária conferência de Fernando Lopes Graça, na sala dos “Caixeiros”, sobre a música popular portuguesa. Possuidor de uma vasta cultura, compositor, pianista, maestro, escritor, preso várias vezes pela PIDE, deixou a assistência maravilhada. A par da caracterização das canções populares das várias regiões do país, foi exemplificando com gravações e explicando o que as distinguiam. E não deixou de glorificar o trabalho do seu amigo Michel Giacometti, um cidadão da Córsega que se dispôs a vir para Portugal recolher as nossas músicas dos meios rurais, sempre com uma vida muito difícil, dado que não tinha apoios. Sem esse trabalho muito da nossa cultura musical se teria perdido.
O livro identifica e sistematiza presos políticos do concelho de Santarém. Que retrato é possível traçar dessas pessoas? Que perfis sociais e profissionais predominavam?
Confesso que não esperava que fossem tantos presos políticos. Registámos 292, mas serão, certamente, bastantes mais. E também não esperava que tivesse havido tantas prisões na área rural, sobretudo em Pernes, Vale de Figueira, Moçarria e Romeira, que se deveram às revoltas provocadas pela fome e pela falta de trabalho. Nas primeiras décadas da ditadura o governo confiscava os géneros agrícolas para os exportar para os fascistas espanhóis e para os nazis da Alemanha. Os presos políticos na área urbana estavam sobretudo ligados à área do comércio e serviços, trabalhadores independentes (alfaiates, sapateiros, etc.), profissões liberais e estudantes. Fiquei também impressionado com a ficha da PIDE do Dr. Humberto Lopes. A ficha tem três páginas e relata as suas seis prisões, bem como os conflitos e castigos dentro das cadeias.
A partir da sua experiência e do trabalho agora realizado, que especificidades tinha a repressão no concelho de Santarém? Havia características próprias face a outros territórios?
A ausência de grandes estabelecimentos industriais e, consequentemente, de muitos operários justificam também a ausência de lutas impactantes e de repressão muito violenta. As prisões na área urbana deveram-se sobretudo a questões de dignidade. Era indigno viver num país sem liberdade e sem democracia, em que se sentia a censura a toda a hora, sem liberdade para nos reunirmos, para nos associarmos, para nos manifestarmos. Na cidade havia uma delegação da PIDE e era sentida a presença de informadores ao seu serviço por toda a cidade, desde os cafés aos locais de trabalho e aos estabelecimentos de ensino.
Santarém surge, historicamente, como um espaço relevante na formação de consciência política e na resistência ao regime. Que papel tiveram estruturas como o Cineclube, o Círculo Cultural Scalabitano ou a CDE nesse processo?
O cineclube teve um papel central na consciência política da população, nomeadamente dos jovens. Era um espaço aberto a toda a oposição democrática, para reuniões, convívios e outras actividades. Depois da exibição dos filmes do Cineclube, no Teatro Rosa Damasceno, íamos debatê-lo na sede, que ficava em frente ao teatro. Foi nesses debates que despertei para a importância e a urgência de derrubar a ditadura. No Cineclube tínhamos uma máquina de projectar, de 16mm, que utilizávamos para ver filmes na sede e em algumas colectividades, dentro e fora da cidade. Era também na sede que planeávamos outras actividades a realizar na cidade, como conferências e debates. As conferências eram realizadas na Académica, nos Caixeiros e no Círculo Cultural Scalabitano, onde também se desenvolviam outras actividades como a música e o teatro. A actividade teatral foi também importante na consciência política dos jovens, que eram acompanhados por alguns adultos mais experientes e proporcionava convívios que davam ânimo à actividade política contra a ditadura. As campanhas da CDE foram também muito importantes, porquanto foram utilizadas para agitar as consciências mais adormecidas. Era uma oportunidade para os oposicionistas se juntarem e aproveitarem a pequena abertura que o regime nos dava. Foi a partir da campanha da CDE de 1969 que se notou um impulso imparável que iria desembocar no 25 de Abril de 1974. De notar que estas actividades não eram alheias a alguns oficiais da Escola Prática de Cavalaria.
Tendo vivido a repressão e a prisão, como olha hoje para o papel do Presídio Militar de Santarém no contexto do sistema repressivo do Estado Novo?
A função política do Presídio Militar de Santarém também foi uma surpresa para mim, apesar de lá ter cumprido a parte final (cerca de seis meses) da minha condenação de 22 meses decretada pelo Tribunal Plenário de Lisboa, depois de ter passado pelas cadeias dos fortes de Caxias e de Peniche. O Presídio foi usado como prisão política variadas vezes sobretudo nos anos mais recuados da ditadura e para os trabalhadores da área rural, nomeadamente para averiguações, a aguardar julgamento ou transferência para Lisboa.
O livro dedica um capítulo ao 25 de Abril de 1974 e ao papel da cidade nesse momento. Que importância teve Santarém, e em particular a Escola Prática de Cavalaria, no desfecho do regime?
Quando fui preso a primeira vez, em 1971, estava a cumprir o serviço militar na Escola Prática de Cavalaria. Como tal, fui-me apercebendo de algumas conversas, sobretudo entre oficiais do quadro e oficiais milicianos vindos das universidades. Alguns oficiais frequentavam discretamente iniciativas culturais organizadas por oposicionistas. Não foi por acaso que os oficiais da EPC tinham uma listas de oposicionistas da cidade e arredores para serem contactados no caso de o Levantamento Militar correr mal em Lisboa e ter de ser accionado o PLANO B, isto é, as tropas da EPC recuarem para Santarém, onde se organizaria a resistência e eventual contra-ataque. Mas, todos sabemos do papel decisivo que a EPC teve no derrube da ditadura, bem como das convicções e da firmeza dos seus militares, ao enfrentarem as tropas do regime fascista na Baixa de Lisboa.
Este trabalho baseia-se em fontes como os registos da PIDE e outros arquivos oficiais. Que limitações e lacunas encontraram ao longo da investigação?
Não encontrámos grandes dificuldades em consultar os arquivos históricos e até tivemos boas colaborações como foi o caso dos arquivos da Torre do Tombo, do Partido Comunista Português e da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses. Na Torre do Tombo haveria mais para investigar, mas não fazia parte do nosso projecto e o nosso trabalho já ia longo.
Há ainda histórias por contar? Considera que este levantamento está longe de esgotar a realidade da repressão no concelho?
Este livro não é um produto acabado. Será, certamente, um contributo para a história da repressão, bem como da luta antifascista, no concelho. Haverá muitas histórias por contar, sobretudo a nível pessoal, incluindo entre os que trabalharam neste projecto. Contudo, optámos por não personalizar demasiado o trabalho.
Para além dos presos políticos identificados, houve muitos outros que escaparam ao registo. Que dimensão invisível da repressão permanece por conhecer?
Dado o carácter clandestino e conspirativo da luta antifascista, muito do que foi a resistência ficará calado para sempre, sobretudo dos tempos em que não há ninguém vivo para as relatar. Há ainda a ter em conta as prisões por motivos políticos efectuadas pela GNR e pela PSP, que não foram registadas e que certamente, serão bastantes.
Este livro surge num momento em que se assinala mais um aniversário do 25 de Abril. Que importância tem, hoje, recuperar e divulgar esta memória?
É importante manter viva a memória do que foi o 25 de Abril de 1974. Na história de Portugal será, seguramente, uma das datas mais relevantes. Significou acabar com uma ditadura que já durava há 48 anos, uma ditadura que nos impedia de eleger os nossos representantes políticos, que se arrogou o direito de governar sem ser eleito pelo povo, que nos proibia de fruir tudo o que eles entendessem que iria contra os seus interesses, como livros, peças de teatro, filmes, músicas. Mas a censura era ainda mais apertada sobre os órgãos de comunicação social. Os cidadãos só tinham acesso à informação que eles autorizavam. Tudo o que saía nos jornais tinha de ir à censura. As rádios tinham um censor 24 horas por dia. O 25 de Abril permitiu também o fim da Guerra Colonial, uma guerra inglória, que já durava há 13 anos e que não poderia ser vencida militarmente, uma guerra em que muitos milhares de portugueses morreram ou ficaram estropiados, que sorvia quase metade do Orçamento do Estado e que nos isolou do mundo por sermos a única potência colonial que impedia a independência das colónias, causando-nos bastante desprestígio internacional. Para se manter no poder à força, o regime utilizava o medo, que consistia na prisão, na tortura e no assassinato dos seus cidadãos, através de uma polícia política tenebrosa que andava por todo o lado a vigiar a população.
Em entrevistas anteriores tem alertado para sinais de erosão da democracia. Considera que há riscos de esquecimento ou banalização do que foi a ditadura?
Assistimos a um período em que a manipulação na comunicação social e nas redes sociais em certas áreas do globo, alcançou níveis muito perigosos. As agências internacionais, bem como os órgãos de comunicação social, com algumas honrosas excepções, são controlados pelos grandes poderes. De tal maneira que levam eleitores a votarem contra os seus próprios interesses, promovem golpes de estado, transformam agredidos em agressores, justificam guerras sem sentido. É nesta onda que em Portugal uma área política tenta esconder e banalizar os malefícios de 48 anos de ditadura e denegrir os benefícios da democracia e da liberdade para que se ache normal voltar a viver sob um regime autoritário.
Que mensagem gostaria que as novas gerações retirassem deste trabalho sobre a resistência antifascista em Santarém?
Neste trabalho são evidentes os sacrifícios por que muitos resistentes passaram para que o povo pudesse viver em liberdade e em democracia. Muitos somaram anos e anos de prisão e foram sujeitos a torturas indescritíveis. Outros foram assassinados. Para os jovens que não sabem o que foi a ditadura e que sempre viveram em liberdade, alerto-os para não adormecerem na liberdade porque poderão acordar em ditadura. Estejam atentos porque a ganância dos poderosos não tem limites, São psicopatas, sem emoções, que, por muitas maldades que façam, não ficam com remorsos. E detestam a democracia.
