A ética é o ramo da filosofia que estuda os fundamentos da ação moral. Analisa os princípios que determinam o que é o bem, o mal, o certo e o errado, guiando o comportamento humano para garantir uma convivência justa e harmoniosa. Ética (do grego ethos, “carácter” ou “costume”) é o conjunto de padrões e valores morais de um indivíduo ou grupo. A Ética procura responder a várias questões de âmbito moral, sendo as principais: “Como devemos viver?” ou “Como devemos agir?”
A ética na filosofia grega é abordada por Platão, Aristóteles, Pitágoras, Tales de Mileto, Heráclito, Demócrito e, sobretudo, Sócrates. Trata-se de uma ética das virtudes, com ligação à moral, à presença constante do bem nas ações de cada um, ao garante de uma sã e proveitosa convivência entre os membros de uma sociedade. Vem da República, de Platão, mas atinge o auge com a dialética de Sócrates.
Com a Idade Média, surge a ética cristã, subordinada à fé e à teologia. Baseada em pensadores como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, a ética orienta-se para a busca pela salvação, no amor a Deus e na obediência aos mandamentos divinos. Com o Renascimento e o Iluminismo, a ética torna-se racional e surgem duas tendências: uma deriva do pensamento de Kant, que indexa a ética à moral; a outra surge com Bentham e Stuart Mill, indexando também a ética à moral, embora medindo a sua utilidade pela maximização do bem-estar social.
Na Idade Contemporânea, a ética com Marx, Nietzsche e Freud passou a ser crítica da moral tradicional como ferramenta de controle social e opressão. Já no século XX, Sartre e Habermas expandem a ética para o existencialismo e para as ciências. No entanto, ao longo do tempo, a ética tem mantido sempre as linhas base da filosofia grega: um conjunto de princípios morais e comportamentais que nos orientam para a verdade, a virtude e a construção de uma sociedade melhor, assentes na verdade, na tolerância, na solidariedade e na honra.
A retórica é a arte do discurso e da persuasão, estudando e aplicando técnicas de linguagem para convencer, emocionar ou influenciar um determinado público. O seu principal objetivo é estruturar argumentos de forma lógica e envolvente, construindo e planeando ideias e argumentos de forma a entregar mensagens cativantes e motivadoras aos alvos do discurso, procurando induzir um conjunto de comportamentos pretendidos.
Embora tenha surgido na Sicília no século V a.c., a retórica desenvolve-se nos círculos políticos e judiciais da Grécia antiga, atingindo o zénite com Aristóteles, o seu livro “Retórica” e a trilogia ethos – pathos – logos. A base da retórica é a persuasão, que corresponde à demonstração pelo orador da veracidade do seu discurso (verossimilhança). Para o conseguir, ele recorre ao ethos (autoridade), ao pathos (emoção) e ao logos (razão) de forma a convencer os recetores.
Em resumo, a retórica é uma técnica de comunicação, que será tanto mais eficaz quanto ponderada, planeada e treinada. Com a ascensão do Império Romano, a retórica passou a ser chamada de oratória, deixando de se focar tanto na persuasão e transferindo o seu propósito sobretudo para a eloquência. Com a evolução dos tempos, a retórica centrou-se sobretudo nos círculos políticos e adjacentes, como ferramenta essencial para conduzir um discurso de forma eficaz e ter como output um determinado comportamento por parte de pessoas, grupos sociais ou até sociedades.
O cerne da comunicação é, segundo a Lei de Lasswell, o processo de um emissor comunicar a um emissor uma determinada mensagem num determinado canal, produzindo neste um determinado comportamento. Todos estes elementos são essenciais para que o processo se cumpra, inclusive o comportamento gerado no recetor. Por esse motivo, a retórica é desde o início uma ferramenta fortemente aplicada no marketing e na publicidade, como forma de construir mensagens que possam induzir comportamentos de compra. No entanto, com o aparecimento de guerras mundiais e de tensões entre países e blocos políticos, um pouco por todo o mundo, a aplicação da retórica ganhou novos contornos e relevância.
Se há algo que devemos reconhecer é que existe o conceito de guerra híbrida desde o início da Humanidade. Cercos, emboscadas, cavalos de Tróia e outros estratagemas, tudo isso sempre saiu fora do conceito de guerra tradicional, onde dois ou mais corpos de exército se confrontam entre si, segundo manobras convencionais e pré-definidas. Conforme referiu Ésquilo, “A primeira vítima da guerra é a verdade”. Isto significa que a gestão/manipulação da informação é a alavanca para muitas vitórias ou vantagens posicionais, quando as manobras militares não conseguem vencer os impasses. Ora estas ações assentam, sobretudo, na retórica.
A retórica, que visa planear e estruturar os argumentos, dar-lhes credibilidade, cativar os recetores e induzir neles os comportamentos pretendidos, é a base da guerra híbrida informacional, tal como a percebemos hoje. Narrativas e storytelling previamente planeados e detalhados, como se fossem gigantescos puzzles, existem para dar credibilidade aos argumentos e aos atores, difundidos até à exaustão em todos os canais disponíveis, entrando nas cabeças, nas casas e nas vidas dos recetores de forma intrusiva, sem pedir licença.
Usando as técnicas de comunicação de massas que fizeram Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Adolf Hitler, tristemente célebre, a agressiva e manipuladora retórica dos nossos dias não admite discordâncias nem contraditórios, mas apenas a subscrição cega e irracional das ideias difundidas. Já vimos isso em “1984” de Georges Orwell ou em “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, voltamos agora a ver em qualquer CNN, Sky News ou qualquer outra que nos entra cabeça adentro a qualquer hora do dia ou da noite. Esta é a realidade em que vivemos, sobressaltados nos dias que correm.
Mas, no meio de tamanho furacão, qual é afinal o lugar da ética, qual é o seu papel nas sociedades modernas? Os fariseus, como lhes chamou Jesus de Nazaré, diriam de imediato que a ética é o cimento que liga a nossa vida em sociedade e a bússola que norteia as suas vidas. Diriam, mas praticá-lo será outra história.
Na verdade, os princípios morais e comportamentais que nos orientam para a verdade, a virtude e a construção de uma sociedade melhor, assentes na verdade, na tolerância, na solidariedade e na honra, parecem hoje esquecidos ou arredados da vida política, social e até económica. As narrativas instituídas favorecem a mentira generalizada, a ameaça fútil, o discurso agressivo, a destruição do carácter. Tudo serve para dividir grupos, cavar trincheiras, atacar em força para destruir um suposto oponente que afinal é um ser humano como nós.
Ao invés de uma retórica positiva, mobilizadora para a construção de uma sociedade livre, igualitária e fraterna, usamos uma retórica de combate, de destruição do oponente e de desgaste do espetador. Que não pensa como nós, quem não vive como nós, quem não é como nós é automaticamente excluído, proscrito, perseguido. Usamos a comunicação como uma espada, sem sequer entendermos o mal que a nós próprios fazemos, como pessoas, como cidadãos e como membros das sociedades.
O cidadão comum, membro quase sempre passivo destas manobras mal-intencionadas, desgasta-se a tal ponto que não vê qualquer luz que lhe aponte um futuro de esperança. Afunda-se na solidão, na depressão por vezes coletiva e rejeita cada vez mais esta encenação. Os efeitos estão à vista. Com o advento das tecnologias de informação, saltámos para a transformação digital e mais recentemente para a inteligência artificial. Falamos uns com os outros por via remota, vivemos frente ao écran de um qualquer computador. E estamos fartos, rejeitamos cada vez mais esta situação, queremos voltar a ter serviços personalizados, relacionamentos face a face, mas não sabemos como o fazer. A exaustão digital é cada vez mais um fato, que nos deve preocupar pois denota desilusão e depressão.
A ética, como fator aglutinador de Felicidade Social, está esquecida, mas não perdida. Verdade, Tolerância, Solidariedade e Honra são valores fundamentais, verdadeiros alicerces para uma sociedade melhor. É para ela que precisamos de trabalhar, de unir esforços, de lutar e de ganhar.
