Fidelidade às raízes

António Valdemar – Jornalista, investigador, sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa

O percurso de Joaquim Veríssimo Sessão evidenciou-se pela disponibilidade, pelo empenho, pelo entusiasmo e, ainda, pela frontalidade que marcaram, em todas as circunstâncias, o homem e o intelectual. Constituíram as características mais relevantes de uma conduta cultural e de uma opção cívica. Colocou sempre numa hierarquia de prioridades Santarém e o Ribatejo.

A história do Correio do Ribatejo, a partir da década de 40 do século passado, contou com o assíduo contributo de Joaquim Veríssimo Serrão. Era ainda estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra quando começou a ser um dos colaboradores mais assíduos de Virgilio Arruda filho do fundador do jornal e seu continuador durante 50 anos. O estudo, a investigação, o magistério universitário, a direção do Centro Cultural Gulbenkian de Paris e a presidência da Academia Portuguesa da História prencheram, uma extensa carreira que desempenhou em Portugal e no estrangeiro.

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Mas Santarém, onde nasceu, há 95 anos, ocupa um lugar muito especial, no seu espírito. Promoveu numerosas iniciativas, para a defesa do património citadino, do património regional e da sua integração no patrimonio nacional e internacional. Ao falarmos de património abrangemos tudo o que pode incluir: figuras, acontecimentos, tradições materiais e imateriais que se enraizam na propria paisagem.

E uma das tribunas onde Veríssimo Serrão afirmou a sua personalidade foi o Correio do Ribatejo. As suas relações além de Virgilio Arruda prosseguiram com os outros diretores que lhe sucederam. A coleção deste jornal centenário registou com todo o destaque as intervenções que proferiu, os livros que publicou, as muitas outras actividades que promoveu e que refletem a sua vigorosa presença humana e a sua imparável irradiação cultural.

A Academia Portuguesa da História editou Páginas da História de Santarém referindo que, a este volume, se seguiria mais outro volume com a mesma temática e abrangência. Está, em grande parte, nas colunas do Correio do Ribatejo em textos dispersos que mereciam ser reunidos. Será uma tarefa para investigar, realizar e concluir.

Veríssimo Serrão desenvolveu uma actividade multifacetada, até ser atingido, por grave doença que interrompeu o seu trabalho intelectual: Leitor de Português em Toulouse (1950-1960), diretor do Centro Cultural Gulbenkian de Paris (1967-1972), catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa (1972), reitor da Universidade de Lisboa (1973-1974), Presidente da Academia Portuguesa da História (1975-2006).

Cumpre ainda referir que se ficou a dever a Veríssimo Serrão a criação, a fundação e a primeira direção do Instituto Politécnico de Santarém. Fez tudo que estava ao seu alcance para dar á cidade e á região a possibilidade de habilitações profissionais a estudantes que não dispunham de recursos para frequentar as universidades de Lisboa e de Coimbra.

Tive o gosto de colaborar com Joaquim Veríssimo Serrão logo no princípio dos anos 80. Pelos cursos que lecionei passaram figuras que já tinham estatuto social em Santarém e numerosos jovens que, poucos anos depois, viriam a ter relevo em órgãos autárquicos, na administração publica e privada e muitos outros setores regionais e nacionais.

A obra de Veríssimo Serrão, com centenas de títulos introduziu novos caminhos no conhecimento da História de Portugal; e a acção pedagógica que exerceu, em Portugal e no estrangeiro, preparou três gerações de investigadores.

Coube-lhe, ainda, a reorganização da Academia Portuguesa de História – cuja continuidade tem sido assegurada pela competência, pela dedicação e pela capacidade de mobilização da Prof Doutora Manuela Mendonça – abrindo ao público as sessões, promovendo centenas de iniciativas, em múltiplos domínios de repercussão nacional e internacional.

Veríssimo Serrão teve, em vida, inúmeras homenagens locais, nacionais e internacionais. Mas também sofreu graves contrariedades e profundas desilusões. Foi traído e ignorado por muitos que lhe devem o acesso à carreira profissional na universidade e a admissão na Academia das Ciências e na Academia Portuguesa da História. Apesar de tudo isto, Joaquim Veríssimo Serrão em todas as funções procurou transpor todas as resistências, todas as manifestações de inveja, despeito, ressentimento e outros pecados capitais da condição humana.

Onde quer que fosse, privilegiou sempre a História de Santarém e a Memória do Ribatejo.

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