Historiadora e administradora do Correio do Ribatejo lança livro sobre Santarém

“Sem Memória não há História, são duas companheiras inseparáveis”

Teresa Lopes Moreira reuniu em livro 53 textos escritos e publicados no Correio do Ribatejo entre 2009 e 2017. Chamou-lhe “As Memórias da Cidade de Santarém”, obra que tem lançamento agendado para a próxima terça-feira, dia 29, pelas 18:30, na sede do Jornal Correio do Ribatejo, na Rua Serpa Pinto: ponto de partida e chegada de muita da investigação agora coligida neste volume que nasceu, segundo a autora, por estímulo dos leitores destas crónicas que lhe pediram que estes pedaços da nossa memória colectiva fossem reunidos num só local “para que não se voltassem a perder”

Nas páginas desta espécie de ‘antologia da memória’, resultado de uma aturada investigação de décadas, Teresa Moreira dá conta, entre muitos outros aspectos, da superstição que ainda existe sobre a rua das Linheiras, “onde nem a mudança do nome da rua esqueceu os momentos ligados à bebida e à luxúria”, recorda a Pensão Rapideza “como factor de resistência à Ditadura Militar e ao Estado Novo” e dá a conhecer a loja e o cabeleireiro da sua infância: a Casa Cabral e o Cabeleireiro José.

Dividida em quatro partes; “as memórias”, “o comércio”, “os homens” e “o Correio do Ribatejo”, a obra foi prefaciada por Vítor Serrão e conta, na capa, com um desenho original de Fernanda Narciso

O que a levou a editar este livro?

Escrevo há cerca de duas décadas no Correio do Ribatejo sobre as memórias da cidade de Santarém. Felizmente, muitos dos meus textos têm tido grande receptividade entre os leitores que por vezes me contactam quer por escrito quer em presença. Muitos admitem que recortam os artigos, o que não me espanta porque também o faço, e pedem-me que as “minhas histórias” que são as “suas histórias” sejam publicadas em livro para que não se voltem a perder. Do estímulo passei à acção e eis “As Memórias da Cidade de Santarém” que é o meu primeiro livro.

Como foi o processo de recolha destas “memórias”? A que fontes recorreu?

O ponto de partida é percorrer as folhas do Correio da Extremadura / do Ribatejo à procura de temas de interesse. Por vezes, são os leitores que dão sugestões que eu avalio cruzando com as notícias publicadas no referido Jornal. Como escrevo essencialmente sobre o século XX, procuro fontes orais cada vez mais escassas. Aí, o João Gomes Moreira foi uma ajuda preciosa graças aos seus longos anos de vida e à sua memória prodigiosa. Não posso ignorar o apoio de Custódio Alexandre Silva, no seu profundo conhecimento das massas escalabitanas e de Joaquim Martinho da Silva, especialmente na pesquisa gráfica. Também recorro a fontes impressas e, no caso de biografias, pesquiso nos registos paroquiais. Felizmente, muitos arquivos e bibliotecas já disponibilizam muita informação na internet o que facilita bastante o trabalho de pesquisa. Ao longo de várias décadas de pesquisa, fui elaborando um ficheiro com entradas direccionadas para os temas locais que me interessam, assim como os seus protagonistas. Por fim, a parte que para mim é “mais dolorosa”, escrever o texto, até porque sou muito exigente e crítica comigo própria. Quando o texto é publicado fica alguma ansiedade de saber como é recebido e que nova informação posso obter. A maioria dos meus textos pode ser rescrita graças aos contributos que leitores anónimos me enviam.

Que factos curiosos encontrou no decorrer da sua investigação?

A superstição que ainda existente sobre a rua das Linheiras, onde nem a mudança do nome da rua esqueceu os momentos ligados à bebida e à luxúria. A memória da Pensão Rapideza como factor de resistência à Ditadura Militar e ao Estado Novo. Conhecer melhor a loja e o cabeleireiro da minha infância, a Casa Cabral e o Cabeleireiro José. E especialmente encontrar descendentes e/ou amigos dos personagens que historiei.

Como é que estruturou a obra?

A obra é constituída por cinquenta e três textos escritos e publicados no Correio do Ribatejo entre 2009 e 2017. Esta está dividida em quatro partes: “as memórias”, “o comércio”, “os homens” e “o Correio do Ribatejo”, unidas por um prefácio de Vítor Serrão e por uma capa de Fernanda Narciso. “As memórias” recordam vários episódios que unem o colectivo escalabitano como defesa patrimonial, actos eleitorais, homenagens, mudanças políticas, sem ignorar os conflitos sociais. “O comércio”, especialmente a publicidade que o promove, são um meio privilegiado para pesquisar a evolução de uma cidade que sempre se olhou como agrícola. Pensões, farmácias cabeleireiros, alfaiatarias, pastelarias, lojas a retalho de tecidos permitem caracterizar a vida social e económica da cidade. “Os Homens” construíram a identidade da cidade fossem eles políticos, pintores, cineastas, historiadores, poetas daí que sejam relembrados com frequência nos meus textos, até porque gosto de escrever biografias. Apenas um desses “homens” foi alvo de dois artigos pela importância que teve na minha formação enquanto oficial da História e ao qual pretendo prestar homenagem, Joaquim Veríssimo Serrão. “O Correio do Ribatejo” foi o meu ponto de partida, a minha âncora em muitos dos textos que escrevi, daí que a quarta parte lhe seja dedicada, homenageando os seus fundadores e continuadores, a tipografia e os tipógrafos, alguns dos colaboradores, enfim, o próprio Jornal, enquanto instituição com 127 anos.

“Um povo sem Memória é um povo sem História”. Concorda?

Sem Memória não há História, são duas companheiras inseparáveis. O passado traz-nos sempre ensinamentos e prova disso mesmo é a actualidade de muitos textos escritos no Correio do Ribatejo e publicados há várias décadas. Os nossos políticos deviam conhecer melhor a nossa História e evitar que as nossas vidas de transformem num longo “Alzheimer”.

A cidade de Santarém precisa de se conhecer melhor?

Penso que sim e valorizar o património, talvez uma das maiores riquezas da nossa cidade. A história da cidade do século XX continua a ser pouco estudada. A política de publicações sobre Santarém é pobre.

Como vê o actual momento da cidade?

A cidade padece de alguns males que são transversais a outros centros urbanos, como a desertificação do centro histórico. O que eu não compreendo é a falta de bairrismo da cidade, cada qual vive para si e prefere criticar a fazer. Nós precisamos de uma liderança forte e determinada que tenha orgulho na sua urbe e que se identifique com o Ribatejo. O turismo e o nosso património podem e devem ser fios condutores para nos unir e desenvolver a cidade. Se olharmos à nossa volta, nos últimos anos, mesmos as localidades mais pequenas construíram uma biblioteca / arquivo e criaram ou desenvolveram um museu. Onde está o Museu Municipal de Santarém? Fechado numa rica reserva museológica? E uma nova biblioteca? O que fazemos para promover o nosso património? Como justificar que as pinturas de Josefa de Óbidos sejam mais conhecidas no estrangeiro do que em Santarém, fiel depositário de três delas?

É professora, cronista, historiadora. Como é que gosta mais de se ver?

Recentemente, um aluno meu confidenciou-me que gostaria de ter o meu quotidiano porque “estou sempre a falar de História”. Claro que ele quer ser historiador. Na verdade, só posso falar de História se estiver a leccionar. Portanto estamos perante “uma pescadinha de rabo na boca”! Quanto às crónicas vêm por acréscimo e não são de todo o meu ponto mais forte!

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