Os directores da companhia Hotel Europa instalaram-se na aldeia de Pontével, no concelho do Cartaxo, para ouvirem histórias de amor passadas no período colonial, fonte de inspiração para o espectáculo que vão estrear em Fevereiro em Lisboa.

Foi na Sociedade Filarmónica Incrível Pontavelense, mas também em algumas casas, que André Amálio e Tereza Havlikova escutaram, nos últimos seis dias, as histórias, sobretudo de antigos soldados “que foram para África e envolveram-se com mulheres africanas, alguns tiveram filhos, outros não, alguns tiveram só uma envolvência rápida”, ou que “foram para lá e conheceram a sua mulher através de cartas de madrinhas de guerra e a sua mulher era uma das madrinhas”.

“Amores Pós-Coloniais” é uma peça que “inicia um novo capítulo de investigação” da companhia sobre este período da História de Portugal – depois da trilogia “Portugal não é um país pequeno” (sobre os chamados “retornados”), “Passa-Porte” (a chegada, os documentos) e “Libertação” (sobre o conflito armado) -, procurando estender o olhar até à actualidade.

“Nós queremos ver isto de um ponto de vista bastante amplo, olhando até para os dias de hoje, como é que as relações amorosas ainda hoje são condicionadas por um pensamento colonial, e o nosso propósito é, desde o princípio, descolonizar hoje”, disse André Amálio à Lusa.

“Achamos que a descolonização já foi feita historicamente, mas a descolonização do pensamento ainda não foi feita, sobretudo nos países imperialistas, o pensamento colonial manteve-se e então estamos nesta tentativa de mostrar esse tipo de pensamento que nós achamos que ficou lá atrás, mas que na verdade ainda está bastante presente nas nossas relações pessoais, na maneira como contamos a nossa história, na maneira como colocamos as pessoas em lugares de poder”.

O interesse pelo tema surgiu depois do trabalho final do mestrado na Goldsmiths, Universidade de Londres, em que integrou um colectivo de três pessoas de países com passados marcados pelo fascismo (Portugal), pelo comunismo (República Checa) e por uma democracia monárquica (Inglaterra).

A peça Hotel Europa, que acabou por dar o nome à companhia que criou com a coreógrafa checa Tereza Havlikova, “falava sobre a vida dos pais das pessoas que faziam parte do espectáculo” e que perceberam ser “um produto daquele tipo de organização” política.

Seguiu-se a tese de doutoramento, na Universidade de Roehampton, “Re-Escrever a História Colonial Portuguesa Através do Teatro Documental”.

“Isto nasceu tudo desta experiência de estar fora e foi precisamente ao estar fora que comecei a ser confrontado com coisas do meu passado, do passado do meu país [sobre o qual] eu nunca tinha reflectido”, disse.

“Falava-se muito dos descobrimentos, a parte final do século XX praticamente não se tinha dado nas aulas de História, pouco se sabia do Estado Novo, pouco se sabia do colonialismo”.

O espectáculo “Amores Pós-Coloniais” é “sobre o amor enquanto espaço político”, procurando “ver como é que o amor e as relações amorosas entre as pessoas eram condicionadas pela estrutura, pelo pensamento e pela violência colonial”.

André e Tereza vão estar em palco com outro casal, os músicos Selma Uamusse (moçambicana, que já tinha participado em “Passa-Porte”) e Toni Fortuna (português), que vão fazer e interpretar ao vivo a música do espectáculo.

A recolha de testemunhos, que além de antigos soldados, inclui também mulheres de origem portuguesa que se apaixonaram por homens negros pertencentes aos movimentos de libertação e filhos que saíram dessas relações, vai prosseguir noutros pontos do país depois da residência artística em Pontével, apoiada pela associação Materiais Diversos.

A peça que vai estrear a 07 de Fevereiro no Teatro Nacional D. Maria II será construída a partir das palavras exactas dos entrevistados, respeitando o seu anonimato, na tradição do “teatro verbatim”, frisou.

“Temos conseguido levar a que as pessoas que nos vêm ver que pensem sobre isto, que vão para casa perguntar aos pais, aos avós, que reflictam” sobre esta “História não contada”.

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