Apesar das guerras e dos terramotos, mesmo com os desaires da nossa selecção nacional de futebol, a maioria dos portugueses põe os olhos no Sul e afina o GPS para a estância balnear do seu destino. Depressa, que se faz tarde…
Todos pensam num paradisíaco lugar ao Sul… e, claro, na esperança de que, como consta da publicidade, nunca por lá falte o Sol. Mesmo a pensar em fugir do calor tórrido que nos tem assolado, ninguém imagina uma praia algarvia sem calor e sem água morna…
Bom, mas não é este o tema que queremos abordar, mesmo sabendo que o título pode parecer enganador. Provocatoriamente enganador, que me perdoem a maldade…
“Lugar ao Sul” é o nome do “mais belo programa da rádio jamais feito sobre a terra, as gentes, os costumes, a cultura do sul do continente português”, como se lhe referiu o conceituado jornalista Adelino Gomes, enquanto Provedor do Ouvinte da RDP – Antena 1, entre os anos de 2008 e 2010. Não posso estar mais de acordo com esta opinião!
“Lugar ao Sul” foi um icónico e premiado programa de rádio da Antena 1, criado e apresentado pelo locutor e realizador algarvio Rafael Correia, ao longo de quase três décadas. Durante este tempo o programa viajou pelo sul de Portugal continental para dar a conhecer o património, as gentes, os costumes e a cultura local, focando-se em descobrir pequenas aldeias, histórias de vida e tradições que muitas vezes passavam despercebidas, promovendo o interior e a região litoral do sul português.
Para uma viagem sonora e visual pelas gentes e tradições de uma localidade típica do sul do país, autêntico retrato de Portugal e das suas gentes, com destaque para o património local e para os usos e costumes das populações, poderá comodamente consultar o podcast da Antena 1 e deliciar-se com memoráveis conversas simples de Rafael Correia com os seus entrevistados de circunstância.
Rafael Correia nasceu em Santa Bárbara de Nexe (Faro) no ano de 1938 e viria a falecer, vítima de doença prolongada em Março de 2020, aos 82 anos de idade. Trabalhou na BBC, em Inglaterra e em França entre 1972 e 1974, tendo depois ingressado nos quadros da Emissora Nacional como jornalista. Um homem tímido, reservado, talentoso. Ao longo de décadas Rafael Correia dedicou grande parte da sua carreira a viajar pelo país mediterrânico para dar a conhecer recantos e histórias que de outra forma ficariam esquecidos. O Algarve e o Baixo Alentejo muito lhe ficaram a dever por tão bem haver resgatado do esquecimento as memórias identitárias destas regiões do interior profundo.
Numa crónica publicada no Diário de Notícias, quando o programa “Lugar ao Sul” saiu da grelha de programação da Antena 1, em 2008, a jornalista Fernanda Câncio divulgou a maneira tão peculiar de Rafael Correia trabalhar: “Passou décadas a percorrer o país à procura de pessoas, vozes, histórias, canções, usos e ofícios. A maior parte das vezes só, só ele e o seu gravador, só ele e o equipamento de som. Fez da solidão uma espécie de missão, talvez mesmo de fé. Dizem os colegas e os que o chefiaram que também no estúdio, a montar o programa, se fechava horas, só ele e o seu material”.
Esta bendita solidão que lhe dava força, ânimo e inspiração para se arriscar atrás do desconhecido, do inesperado, daquilo que tinha o valor de ser autêntico e genuíno, onde não havia tempo nem espaço para mistificações. No seu projecto radiofónico, que era muito mais do que um excelente programa de rádio, pois ali se dava voz a quem não a tinha, num misto de espaço de recolha e de divulgação da cultura popular, cabiam as tradições, as músicas e as gentes; no fundo, aquilo que conferia identidade a um território e a um povo.
Com o desfiar do tempo o programa de Rafael Correia foi evoluindo tecnicamente, num exercício de grande primor, no enquadramento de musicalidade espontânea e natural com sons e melodias criteriosamente escolhidas para reforçar a mensagem subjacente à conversação simples, despretensiosa, fluída, mas muito eloquente e cativante. Rafael Correia criou um estilo de abordagem dos seus interlocutores muito especial, sincronizando muito facilmente a sua expressão com a maneira de falar das pessoas simples com quem falava. Sobre tudo e sobre coisa nenhuma. Porém, nenhuma conversa era vazia ou sem sentido, bem pelo contrário, do pouco mais do que nada, aprendíamos tanto!
Para além dos lugares ao sul, Rafael Correia aventurou-se também a vir mais ao centro do país, tendo entrevistado gentes ribatejanas, nomeadamente o saudoso etnógrafo e poeta azambujense Sebastião Mateus Arenque, e também andou pela estância balnear da Nazaré, onde falou com peixeiras e com pescadores.
Adivinho a paixão que deve ter acompanhado Rafael Correia nestas suas deambulações pelas pequenas aldeias das serras algarvias e das planuras alentejanas, onde quase não vivia ninguém, mas onde quem ali tinha permanecido se mantinha fiel a um padrão de vida muito austero, singelo e puro. No que se possa entender por puro, como algo que, na medida do possível, ainda não tinha sido impregnado por modernas maneiras de viver e de sentir.
Escreveu Ernest Hemingway que nenhum homem é uma ilha isolada, porém, há circunstâncias em que os elos são muito ténues ou quase imperceptíveis, e Rafael Correia teve a sorte de os descobrir e de os desvendar, porém, sem os descaracterizar, ou seja, tentando apresentá-los na essência do seu ser.
Fui durante muitos anos um ouvinte assíduo e atento deste programa matinal, e um admirador convicto de Rafael Correia, personalidade que nunca conheci pessoalmente, mas por quem nutria um respeito a toda a prova e ainda hoje uma saudade profunda.
Há mais de trinta anos fui desafiado pela RDP, através da sua delegação de Santarém, para fazer um projecto radiofónico dentro destes termos e a minha primeira reacção foi a de recusar, pois sabia que não tinha capacidade nem competência para meter ombros a uma proeza desta envergadura. Mas face à insistência de José Augusto Cerdeira, ao tempo director da RDP – Rádio Santarém, aceitei a título experimental avaliar a exequibilidade do projecto, que não poderia sob nenhum pretexto desrespeitar a matriz do “Lugar ao Sul” de Rafael Correia.
Nascia assim o programa “Ribatejo em Pessoa”, que realizei e apresentei muitos anos na RDP – Rádio Santarém, depois passou pela Rádio Pernes e nos últimos anos integra a grelha de programas da RCA Ribatejo, de Almeirim, com transmissão em simultâneo nas manhãs de domingo na Rádio Bonfim, da Chamusca.
Como, com inteira razão, me dizia José Augusto Cerdeira, em rádio está tudo inventado, a questão é que cada pessoa empresta a sua sensibilidade àquilo que faz. E é verdade. Nos anos que levo de produção de “Ribatejo em Pessoa” já entrevistei centenas de pessoas simples do nosso Ribatejo, já produzi milhares de horas de rádio e estou em véspera de partilhar em livro a transcrição de algumas destas conversas tão ricas pelo seu conteúdo e tão genuínas pela sua mensagem.
Penso, modestamente, que não ofendi a dignidade e muito menos a grata memória de Rafael Correia, todavia o meu “Ribatejo em Pessoa” está a anos-luz do inolvidável “Lugar ao Sul”, para sempre um dos melhores programas de rádio de todos os tempos.
