Num momento em que a Carta Social 2026 e os mais recentes estudos nacionais sobre o impacto económico e social das instituições particulares de solidariedade social — designadamente o relatório “A importância económica e social das IPSS em Portugal: Central de Balanços 2022 e 2023” — confirmam o papel estruturante do sector social na coesão territorial, na resposta às desigualdades e na sustentabilidade das comunidades, a tomada de posse de Luís Jacob como presidente da União das IPSS do Distrito de Santarém (UDIPSS Santarém) marca o início de um novo ciclo de liderança numa das estruturas mais relevantes do ecossistema social do distrito. À frente de uma organização que representa mais de duas centenas de instituições, responsáveis por respostas essenciais nas áreas da infância, deficiência, envelhecimento e intervenção comunitária, o novo presidente assume o mandato em regime de voluntariado, com uma visão que coloca os utentes no centro das políticas públicas, defende a capacitação das direcções, a valorização dos profissionais e voluntários e a modernização das respostas sociais. Com um percurso académico e profissional ligado à economia social, à educação e ao envelhecimento activo, Luís Jacob propõe uma liderança assente em evidência, inovação social e trabalho em rede, num território marcado por fortes assimetrias demográficas e sociais e por desafios estruturais crescentes ao nível do financiamento, dos recursos humanos e da adequação dos modelos tradicionais de resposta às novas realidades da população.
Considera que a sociedade está preparada para responder à problemática do envelhecimento?
A sociedade portuguesa tem hoje uma consciência muito maior sobre o envelhecimento do que há duas ou três décadas, mas continua longe de estar verdadeiramente preparada, lembrar que quase 5% da nossa população tem mais de 50 anos. Ainda reagimos mais do que planeamos. O envelhecimento é previsível, estrutural e irreversível, mas muitas decisões continuam a ser tomadas em cima do problema e não com base na antecipação. Falta uma visão integrada que articule saúde, acção social, habitação, mobilidade, educação ao longo da vida e participação cívica. Enquanto o envelhecimento for tratado apenas como um “problema social” e não como uma transformação profunda da sociedade, estaremos sempre um passo atrás.
As respostas existentes (Lares, Apoio Domiciliário, Centros de Dia) são suficientes e adequadas?
São respostas absolutamente essenciais e insubstituíveis, mas claramente insuficientes e, em muitos casos, desajustadas à realidade actual. A população idosa de hoje é muito mais diversa, mais exigente e vive contextos sociais e culturais muito diferentes do passado. Temos mais pessoas dependentes, mas também mais pessoas autónomas que não se revêm nas respostas tradicionais. Acresce a isto um nível de exigência burocrática e infra-estrutural extremamente elevado, muitas vezes excessivo, que dificulta a criação de novas respostas e a adaptação das existentes. O foco excessivo no betão e nos processos administrativos acaba por afastar energia, tempo e recursos daquilo que deveria estar no centro: as pessoas. Temos respostas sociais que precisam de ser repensadas (ex: Centro de Dia) e outras que precisam ser mais promovidas (ex: Habitação colaborativa).
Os profissionais e dirigentes das IPSS estão bem preparados ou precisam de mais formação?
Existe um nível muito elevado de dedicação, compromisso e profissionalismo no sector social. No entanto, os desafios actuais exigem reforço claro da formação contínua, tanto dos técnicos como das direcções. Hoje não basta boa vontade: é necessário conhecimento actualizado em gestão, liderança, sustentabilidade financeira, inovação social, recursos humanos e transformação digital. Muitas direcções são voluntárias, acumulam funções e enfrentam contextos extremamente complexos. Investir na formação destas pessoas não é um luxo, é uma condição essencial para garantir qualidade, sustentabilidade e dignidade nas respostas sociais.
O envelhecimento activo é uma realidade ou apenas um conjunto de boas intenções?
O envelhecimento activo já é uma realidade em muitos territórios, projectos e instituições, mas ainda de forma desigual. Continua muito dependente da iniciativa local, do dinamismo das IPSS, das autarquias ou das próprias pessoas mais velhas. Falta transformá-lo numa política pública consistente, estruturada e acessível a todos, e não apenas a quem já está mais informado, integrado ou vive em determinados contextos urbanos. O envelhecimento activo não pode ser um privilégio, deve ser um direito ao longo de todo o ciclo de vida.
As Universidades Seniores são uma resposta ao isolamento na idade maior?
Sem qualquer dúvida. As Universidades Seniores são uma das respostas mais eficazes no combate ao isolamento social, promovendo aprendizagem contínua, participação activa, criação de redes sociais, auto-estima e bem-estar. Existem dezenas de estudos nacionais e internacionais que comprovam o impacto positivo destas estruturas na saúde mental, na autonomia e na qualidade de vida das pessoas mais velhas. Para além disso, são espaços de cidadania activa, onde os seniores deixam de ser vistos como destinatários passivos e passam a ser protagonistas. Com mais de 400 organizações, 75.000 alunos e 8.000 professores voluntários as Universidades Seniores são o maior projecto da sociedade civil em prol do envelhecimento activo.
As cidades estão preparadas para uma população cada vez mais envelhecida?
Ainda não. Falta planeamento urbano verdadeiramente inclusivo e pensado para todas as idades. Transportes públicos pouco acessíveis, passeios mal conservados, ausência de casas de banho públicas, espaços verdes mal-adaptados e mobiliário urbano inadequado são exemplos claros disso. Ao longo do tempo as cidades foram perdendo os espaços comuns de convívio e socialização, esses espaços comercializaram-se onde conviver é sinónimo de consumo. Um detalhe aparentemente simples ilustra bem esta realidade: muitos bancos colocados no espaço público são de pedra, frios, sem costas e desconfortáveis, o que afasta precisamente quem mais precisa de parar, descansar e conviver. Uma cidade amiga das pessoas mais velhas é, na verdade, uma cidade melhor para todos.
Que medidas deveriam ser tomadas?
É fundamental investir em políticas locais de envelhecimento activo, adaptar o espaço público (tornar as praças e os largos em locais activos de animação comunitária através da arquitectura e design), reforçar os serviços de proximidade e, sobretudo, ouvir mais as pessoas mais velhas na definição das soluções. Elas conhecem melhor do que ninguém as suas necessidades e dificuldades. É também essencial reforçar o trabalho em rede entre IPSS, autarquias, serviços de saúde, educação e comunidade, criando respostas flexíveis, próximas e humanas. Muitas cidades em todo o mundo têm vindo a adaptar-se às alterações climáticas através de transformações profundas no desenho urbano, tornando-se mais verdes e resilientes. A aposta passa pela plantação de árvores, pela criação de zonas húmidas e pela devolução de espaço à natureza. No nosso território, porém, continua a prevalecer uma lógica assente na pedra e no cimento nos passeios e largos, que intensifica o efeito de ilhas de calor e torna o espaço urbano cada vez mais impermeável. Pequenas mudanças no espaço público, como o aumento da sombra, a redução de superfícies duras (pedra, cimento) e a integração de soluções naturais, podem baixar significativamente a temperatura e humidade nas cidades, tornando-as mais confortáveis, inclusivas e acessíveis para todos. Gerimos os espaços públicos como há 30 anos atrás, sem pensar nas boas práticas que já existem.
O que pesou na decisão de aceitar a presidência da União das IPSS do Distrito de Santarém?
Pesou sobretudo o sentido de responsabilidade social e a vontade de contribuir, de forma voluntária, para o reforço de um sector absolutamente fundamental para a coesão social do território. Acredito que, em conjunto com esta direcção e os corpos sociais, posso ser um elemento útil para trazer reflexão estratégica, novas ideias, parcerias e uma visão centrada nas pessoas, sem perder o contacto com a realidade concreta das IPSS. A nossa missão será acrescentar valor as IPSS e a todo o seu ecossistema (organizações, dirigentes, funcionários, comunidade e principalmente utentes).
Que diagnóstico faz da realidade das IPSS do distrito?
As mais de 200 IPSS do distrito de Santarém desempenham um papel insubstituível, mas enfrentam dificuldades crescentes. Destacam-se os constrangimentos financeiros, a escassez de recursos humanos, o envelhecimento das equipas e das direcções e o aumento contínuo das exigências legais e administrativas. Somos um dos distritos com maior número de IPSS activas, o que é um sinal muito positivo, mas também temos realidades territoriais muito distintas entre o norte e o sul do distrito, o que exige respostas diferenciadas e sensíveis ao contexto.
O que gostaria para o sector social?
A nível distrital e nacional, considero fundamental que as comparticipações públicas — que representam cerca de 40% das receitas das IPSS passassem a beneficiar de um regime de discriminação positiva. Actualmente, o valor pago pelo Estado é uniforme para todas as instituições, não reflectindo as fortes discrepâncias territoriais, nomeadamente no valor das mensalidades suportadas pelos utentes, que correspondem a cerca de 50% das receitas das IPSS e variam significativamente de região para região. Paralelamente, é indispensável uma redução efectiva da burocracia no sector, tornando mais simples, ágeis e céleres os processos de licenciamento de equipamentos, a legislação aplicável e a activação de novas respostas sociais, de forma a permitir uma resposta mais rápida às necessidades das populações. É igualmente prioritário criar condições para uma valorização salarial dos trabalhadores do sector social, reconhecendo o papel essencial que desempenham diariamente. É fundamental que exista uma compreensão alargada de que o dinheiro dos contribuintes é, em muitos casos, mais eficientemente aplicado nas respostas sociais asseguradas pelas IPSS do que na gestão directa por parte do Estado. A título de exemplo, o custo por criança em pré-escolar numa IPSS pode ser cerca de 50% inferior ao de uma criança integrada no pré-escolar público, ao mesmo tempo que as IPSS oferecem, regra geral, horários de funcionamento mais alargados e adaptados às necessidades das famílias. Por fim, defendo um reforço do respeito, da atenção e da qualidade do acompanhamento prestado aos utentes, que devem permanecer no centro de todas as políticas e decisões públicas no domínio da acção social.
Quais são as prioridades estratégicas do mandato na UDIPSS Santarém?
A nossa missão central será acrescentar valor aos serviços prestados, promovendo maior inovação, reforçando a formação e dinamizando iniciativas e eventos dirigidos ao sector social, com especial enfoque na valorização dos recursos humanos. As nossas prioridades passam pelo reforço da capacitação das direcções, pelo reconhecimento e valorização dos profissionais e voluntários, pela melhoria da articulação e comunicação institucional, pela angariação de parceiros estratégicos e pela criação de espaços de encontro, partilha e cooperação entre as IPSS. Paralelamente, assumimos o compromisso de apoiar as famílias e de promover mais dignidade, bem-estar e qualidade de vida para os utentes. Queremos construir uma União mais próxima das instituições, mais útil no apoio quotidiano, financeiramente sustentável e com um impacto efectivo e visível no terreno. Temos que ser o exemplo da atitude, da mudança, da gestão eficiente e racional e na diferenciação que queremos as IPSS sejam.
De que forma a experiência na RUTIS e o percurso académico podem contribuir para a UDIPSS?
A minha experiência no sector social, como director técnico, dirigente e investigador, assim como o meu percurso de docente do ensino superior permitem-me trazer uma visão estratégica, conhecimento técnico, ligação à investigação e capacidade de inovação. Essa combinação ajuda a colocar a formação, os serviços prestados às IPSS e a valorização das pessoas (dirigentes, profissionais e utentes) no centro da missão da UDIPSS, sempre com base em evidência e boas práticas.
Que relação pretende estabelecer com autarquias, Segurança Social e outras entidades?
Uma relação de proximidade, cooperação e diálogo permanente, assente na confiança e na construção conjunta de soluções para o território. Trabalhar em rede, activar parcerias reais e envolver mais pessoas no dirigismo associativo que é essencial para garantir respostas sociais mais fortes e sustentáveis.
Que mensagem deixa às direcções, trabalhadores e voluntários das IPSS?
Deixo uma palavra profunda de reconhecimento, respeito e incentivo. Apesar das dificuldades permanentes, o trabalho desenvolvido diariamente é absolutamente essencial para milhares de pessoas e famílias. É fundamental mantermos a união, continuarmos a inovar, cuidarmos de quem cuida e acreditarmos que investir nas pessoas e nas comunidades vale sempre a pena. Do mesmo modo, é indispensável melhorar as condições financeiras dos nossos colaboradores e valorizar o papel insubstituível dos voluntários, dirigentes e não dirigentes, que sustentam grande parte deste trabalho. Custa-me ouvir, por vezes, discursos que colocam em causa a integridade dos dirigentes e das instituições sociais, insinuando que se apropriam dos recursos dos utentes. A realidade é bem diferente: a maioria dos dirigentes enfrenta diariamente enormes desafios para cumprir as suas responsabilidades, muitas vezes em contextos de grande pressão e escassez de recursos. Cerca de 40% das IPSS vive com défices financeiros estruturais, precisamente porque a sua missão é cuidar de quem mais precisa (famílias monoparentais, idosos com pensões muito baixas, sobretudo em territórios de menor capacidade económica, pessoas portadoras de deficiência, imigrantes) que em muitos casos já não têm qualquer apoio familiar. Este trabalho não é feito por interesse, mas por compromisso, responsabilidade e sentido profundo de serviço público.
Filipe Mendes
