Conhecido como o “médico dos artistas”, o autor regressou à cidade onde tem raízes familiares para apresentar Dos Palcos da Vida até à Casa do Artista, obra solidária cujos direitos revertem para a instituição que acolhe antigos profissionais das artes.

Luís Paulino Pereira regressou a Santarém, no sábado, 16 de Maio, para apresentar o livro Dos Palcos da Vida até à Casa do Artista, numa sessão que juntou, na Sala dos Actos do Seminário, memória pessoal, cultura, medicina e solidariedade. Conhecido no meio artístico como o “médico dos artistas”, o autor levou à cidade uma obra que reúne episódios de vida, reflexão sobre a terceira idade, defesa da humanização da medicina e testemunhos ligados ao teatro português.

A sessão, promovida e apresentada por Susana Coimbra, contou com a presença de D. José Traquina, Bispo de Santarém, de José Raposo, presidente da direcção da APOIARTE — Casa do Artista, e de vários convidados ligados à vida cultural e institucional. Mais do que uma apresentação literária, o encontro assumiu uma dimensão solidária, uma vez que os direitos de autor da obra revertem integralmente para a Casa do Artista, instituição à qual Luís Paulino Pereira está ligado profissional e afectivamente.

Santarém foi apresentada como lugar de regresso. O autor recordou as raízes familiares na cidade, as visitas de infância com os pais e a associação entre a memória familiar e a história do país. “Voltar a Santarém significa, de alguma forma, voltar às raízes”, afirmou, lembrando que o avô paterno era de Santarém e que, em criança, vinha várias vezes visitar familiares.

José Traquina abriu a sessão recordando a amizade antiga com Luís Paulino Pereira e a presença do médico em Santarém no dia da sua entrada solene na diocese, a 26 de Novembro de 2018. Três anos depois, notou o Bispo, o autor publicou Vida Plena, livro onde dedicou algumas páginas a esse momento. “Não era preciso tanto, mas agradeço a sua atenção, esse cuidado”, disse D. José Traquina, sublinhando a proximidade, a valorização da pessoa humana e a disponibilidade do médico para “grandes causas”.

O próprio Luís Paulino Pereira retomou essa memória com humor. Contou que, no dia da entrada solene do Bispo, chegou cedo à igreja de Santa Clara, mas encontrou o espaço completamente cheio. Sem saber onde ficar, acabou conduzido para junto das autoridades, num lugar privilegiado. Enquanto cumprimentava alguns bispos que conhecia, ouviu alguém perguntar quem seria aquele homem. “Deve ser um representante do Vaticano”, terá dito uma pessoa. “Do Vaticano? Mas parece-me que ele fala português”, respondeu outra. O episódio, contou, ficou-lhe na memória como uma das suas passagens por Santarém.

Susana Coimbra, colaboradora da Casa do Artista e cronista do Correio do Ribatejo, conduziu a apresentação num registo pessoal, evocando Garrett, as viagens entre Lisboa e Santarém, a casa dos avós, a descoberta do Parque Mayer e o modo como chegou à Casa do Artista. Foi aí que conheceu Luís Paulino Pereira, primeiro com alguma cerimónia, depois numa relação de amizade construída em torno de almoços, conversas, memórias e afectos. “Percebi que o doutor Paulino é a excelência do humano. Consegue conciliar aquilo que de melhor há no científico e tecnológico com o humano”, afirmou.

O “médico dos artistas” e os palcos de uma vida

O título pelo qual Luís Paulino Pereira é conhecido nasceu num dos momentos mais difíceis da história recente do Parque Mayer. O médico recordou que a expressão “médico dos artistas” remonta a 10 de Maio de 1986, dia em que ardeu o Teatro Maria Vitória, em Lisboa. Estava então em Setúbal, em casa dos pais, onde, por ironia do destino, se encontrava também Hélder Freire Costa. A notícia chegou por volta da meia-noite e Luís Paulino Pereira seguiu de imediato para o Parque Mayer, para se disponibilizar como médico.

Quando chegou ao local, encontrou o perímetro de segurança montado, bombeiros, polícia, fumo e o ambiente carregado de um teatro atingido por um incêndio. Tentou passar, explicou que era médico, mas foi inicialmente travado. Do outro lado, uma voz acabou por resolver a situação: “Deixem entrar, por favor. É o médico dos artistas.” Era Henrique Santana, recordou o autor, fixando nessa memória a origem de uma designação que, desde então, ficou ligada ao seu nome e ao modo como passou a ser reconhecido entre actores, técnicos e gente do espectáculo.

A relação com o teatro não surgiu, assim, como aproximação episódica, mas como presença continuada junto de quem fazia e vivia os palcos. José Raposo, presidente da direcção da APOIARTE — Casa do Artista, sublinhou precisamente essa ligação, lembrando que Luís Paulino Pereira “sempre esteve muito ligado às artes, aos teatros” e que era muitas vezes chamado para acudir a artistas ou técnicos quando surgia algum problema de saúde. Foi também nesse contexto que se conheceram, no Teatro Maria Vitória.

Essa proximidade tornou-se relação de confiança, primeiro nos bastidores e nos teatros, depois na Casa do Artista. José Raposo evocou vários nomes da história do teatro português que passaram pela vida de Luís Paulino Pereira, entre eles Henrique Santana, de quem disse ter sido grande amigo do médico, e outros actores que este acompanhou em momentos de doença. Mais do que um percurso clínico, o que emerge destas memórias é uma forma de medicina praticada junto de uma comunidade particular: a dos artistas, muitas vezes expostos ao brilho público, mas também à fragilidade, à doença, ao envelhecimento e à solidão.

É dessa experiência que nasce Dos Palcos da Vida até à Casa do Artista. Luís Paulino Pereira fez questão de clarificar que o livro não é uma autobiografia, nem um livro de memórias, nem sequer “um currículo para um concurso”. É, antes, uma obra que reúne episódios da vida de um médico “virados para a área teatral” e que retrata, nas suas palavras, os “palcos” que foi pisando ao longo da vida até chegar ao último, a Casa do Artista.

A própria concepção visual do livro ajuda a explicar essa ideia. O autor contou que, quando convidou António Homem Cardoso para colaborar no projecto, o fotógrafo começou a trabalhar a partir do título e da imagem simbólica da bata médica projectada sobre um palco. A bata que aparece na obra é a sua verdadeira bata de trabalho, usada diariamente, cruzando assim dois universos que atravessam todo o livro: o da medicina e o do espectáculo.

A obra organiza-se em torno de uma entrevista em que Luís Paulino Pereira se dá a conhecer, de textos de reflexão sobre a terceira idade — área em que reconhece ter maior experiência — e de artigos seleccionados ligados ao universo artístico. O percurso conduz naturalmente à Casa do Artista, espaço onde hoje exerce uma medicina que não se limita ao diagnóstico ou à prescrição, mas passa pela escuta, pela disponibilidade e pela atenção às histórias de vida daqueles que ali residem.

Um gesto solidário

A ligação de Luís Paulino Pereira à Casa do Artista ganhou nova dimensão há cerca de cinco anos, quando a actual direcção da APOIARTE tomou posse e decidiu reforçar o acompanhamento clínico dos residentes. José Raposo recordou que, até então, havia uma médica que se deslocava duas vezes por semana à instituição, mas a nova equipa entendeu que era necessário garantir presença médica diária junto de uma população residente que conta actualmente com 76 pessoas.

A escolha de Luís Paulino Pereira surgiu nesse contexto e foi sugerida também por Luís Aleluia, que conhecia bem a sensibilidade humana exigida por uma casa com estas características. “O Doutor Paulino é a pessoa ideal”, recordou José Raposo, explicando que a opção se justificava não apenas por se tratar de “um excelente médico”, mas também por ter “uma paciência incrível” e uma disponibilidade que vai muito além da consulta clínica.

Na Casa do Artista, sublinhou José Raposo, o médico não se limita a observar sintomas, prescrever medicamentos ou acompanhar processos clínicos. Passa tempo com os residentes, ouve-os, recolhe histórias e partilha com eles uma relação de proximidade. Muitos desses residentes são figuras que transportam consigo décadas de teatro, televisão, música e espectáculo. “A Manuela Maria, a Simone de Oliveira, a Lourdes Norberto, essas pessoas carregam em si a história do teatro”, afirmou o presidente da Casa do Artista, dando conta do património humano que ali se reúne.

É também por isso que a presença de Luís Paulino Pereira é vista como um privilégio pela instituição. Para José Raposo, a Casa do Artista precisa de profissionais capazes de compreender que o envelhecimento de um artista não apaga a sua identidade, a sua memória ou o seu lugar na cultura portuguesa. A medicina praticada naquele contexto exige, por isso, tempo, escuta e respeito pelas histórias pessoais de cada residente.

A dimensão solidária do livro foi outro dos pontos destacados. Dos Palcos da Vida até à Casa do Artista tem os direitos de autor integralmente destinados à instituição, gesto que José Raposo leu como expressão directa do carácter do autor. “Só isto é um gesto que define o carácter de uma pessoa”, afirmou, acrescentando que, enquanto presidente da direcção, estará sempre grato a Luís Paulino Pereira, mas que, enquanto amigo, essa generosidade não o surpreende.

Para José Raposo, o livro vale também pelo modo como fixa histórias ligadas ao teatro e aos seus protagonistas. Não se trata apenas de uma obra sobre um médico que acompanhou artistas, mas de um registo de memórias que ajuda a preservar percursos, afectos e episódios de uma comunidade muitas vezes lembrada pelo público apenas no momento da representação, mas que continua a existir para além do palco.

Luís Aleluia, dedicação e saúde mental

Dos Palcos da Vida até à Casa do Artista é dedicado à memória de Luís Aleluia, actor com quem Luís Paulino Pereira partilhou não apenas o nome próprio, mas também Setúbal e a Casa do Artista. Na intervenção que encerrou a sessão, o médico explicou a razão dessa dedicatória, sublinhando que há pessoas que passam pela vida sem deixar rasto e outras que deixam uma marca profunda. “O Luís foi uma delas”, afirmou.

A evocação de Luís Aleluia atravessou várias intervenções. José Raposo recordou-o como amigo de muitos anos, desde os anos 80, ligado à Casa do Artista por uma disponibilidade permanente para estar com os residentes, ouvi-los, ajudá-los e dar-lhes carinho. Era também, segundo o presidente da APOIARTE, uma das pessoas que melhor divulgava a instituição, levando consigo impressos de inscrição para novos sócios e apelando à participação de todos na vida da Casa.

Para Luís Paulino Pereira, a memória de Luís Aleluia fica associada à simplicidade, às convicções, às causas e aos valores. O médico destacou, em particular, o facto de o actor nunca ter renegado o seu passado como rapaz da Casa do Gaiato, em Setúbal, e as suas preocupações sociais. “Doutor, não pode faltar nada a ninguém aqui dentro desta casa”, recordou Paulino, citando uma frase que ouviu várias vezes ao actor e que resume, no seu entender, a forma como Luís Aleluia olhava para a Casa do Artista.

A última vez que se encontraram foi lembrada com particular emoção. Luís Paulino Pereira contou que almoçou com Luís Aleluia uma semana antes da sua morte. Nesse encontro, o actor falou-lhe de projectos, planos e ideias, quis saber a sua opinião e partilhou preocupações ligadas à instituição. “Mal sabia eu que era a última vez que nos encontrávamos”, disse o médico, associando essa memória ao destino solidário do livro, cujos direitos revertem integralmente para a Casa do Artista. Onde quer que esteja, acrescentou, Luís Aleluia “de certeza” desejará o maior êxito à obra, por ser uma forma de ajudar a casa que tanto amava.

Mas a dedicatória não se esgota na homenagem pessoal. A morte de Luís Aleluia levou Luís Paulino Pereira a uma reflexão mais ampla sobre saúde mental, envelhecimento e fragilidade humana. Ao falar da terceira idade, o médico questionou se o país está preparado para responder às exigências desse período da vida e se a sociedade olha com a devida atenção para áreas como cuidados continuados, cuidados paliativos, lares e saúde mental.

“A saúde mental, na minha opinião, não está assegurada, nem no sector público, nem no sector privado”, afirmou, considerando que a partida de Luís Aleluia obriga a pensar nessa lacuna da sociedade portuguesa. A frase surgiu no contexto de uma intervenção em que o autor defendeu a necessidade de olhar para a terceira idade não como uma sobrecarga, mas como uma etapa da vida que exige acompanhamento, escuta, dignidade e resposta concreta.

A Casa do Artista aparece, neste quadro, como exemplo de uma resposta diferente. Não apenas por acolher artistas envelhecidos, mas por tentar preservar neles aquilo que foram e continuam a ser. A instituição é apresentada no livro e nas palavras de Luís Paulino Pereira como um lugar onde a pessoa não se reduz à idade, à doença ou à dependência. É antes um espaço de memória viva, de afectos, de convívio e de permanência da identidade artística.

Terceira idade, SNS e humanização da medicina

A reflexão sobre a terceira idade ocupou uma parte central da intervenção de Luís Paulino Pereira. O médico retomou uma das ideias fortes do livro — “Na terceira idade todos somos artistas” — para defender que envelhecer exige capacidade de adaptação, improviso e resistência perante os imprevistos da vida. Como no teatro, afirmou, é necessário estar preparado para mudanças de texto, alterações de cena e soluções de última hora.

A partir dessa metáfora, o autor colocou várias perguntas sobre a forma como o país responde ao envelhecimento. “Será que o país está preparado para a terceira idade? E nós estamos preparados para aceitar as exigências da terceira idade?”, questionou, alargando a reflexão ao Serviço Nacional de Saúde, ao sector privado, aos cuidados continuados, aos cuidados paliativos, aos lares e à saúde mental. Para Luís Paulino Pereira, a resposta continua insuficiente, sobretudo numa sociedade onde o envelhecimento é muitas vezes tratado como peso e não como etapa da vida que exige dignidade, acompanhamento e presença.

A Casa do Artista surge, neste contexto, como contraponto e exemplo. Citando a expressão lembrada por Júlio Isidro no prefácio do livro, Luís Paulino Pereira afirmou que aquele é “um espaço onde não é permitido envelhecer”. A frase, explicou, não nega a passagem dos anos, mas afirma uma obrigação ética e humana: a de não deixar que a idade apague a identidade, os sonhos e a capacidade de cada pessoa continuar a participar na vida.

O médico deu exemplos concretos de residentes da Casa do Artista que continuam activos, ligados à representação, à música ou a novos projectos. Referiu artistas que trabalham em televisão, teatro ou composição musical, e contou ainda que uma das figurantes de uma peça recente tem 97 anos e vive na instituição. “Isto prova que, na terceira idade, também há luz, também há sonhos, também há vida, também há esperança”, afirmou.

Foi também a partir da experiência diária na Casa do Artista que Luís Paulino Pereira deixou uma defesa clara da humanização da medicina. Para o autor, exercer medicina é “muito mais do que receitar medicamentos, ver análises ou pedir radiografias”. Em primeiro lugar, disse, é preciso “saber ouvir”, uma capacidade que considera cada vez mais rara, mas absolutamente fundamental para quem está doente. “Os doentes sentem isso e queixam-se disso. Têm que ser ouvidos e é preciso tempo para isso”, afirmou.

A crítica à medicina contemporânea foi uma das passagens mais incisivas da sessão. Luís Paulino Pereira reconheceu os avanços científicos e tecnológicos, mas lamentou que esse progresso tenha sido acompanhado por perda de proximidade humana. Recordou uma frase do pai, também médico, segundo a qual se passou “do doente com nome para o doente com número”, acrescentando que hoje se passou “da medicina da bata branca para a medicina do computador”. Para o autor, a medicina que herdou e praticou assentava no doente; a actual, afirmou, assenta muitas vezes em “indicadores estatísticos” que não substituem a atenção à pessoa concreta.

No final, Luís Paulino Pereira sintetizou os valores que atravessam o livro: a defesa da vida, da família, da fé, dos amigos e de um Serviço Nacional de Saúde que considera indispensável, mas que entende precisar de ser “completamente reestruturado” para responder aos portugueses. O médico não defendeu o abandono do SNS; pelo contrário, afirmou-se favorável a esse bem público, mas advertiu que o actual modelo está “gasto” e não pode continuar a ser remendado sem uma reforma profunda.

A sessão terminou num registo íntimo, ligado ao mês de Maio, que Luís Paulino Pereira descreveu como mês das mães, das flores e da luz, mas também de memórias dolorosas. 

Foi esse o tom que marcou a apresentação em Santarém: a celebração de um livro solidário, mas também de uma forma de estar na medicina e na vida. Entre os palcos do teatro, a memória dos artistas, a Casa do Artista e a cidade onde reencontrou raízes familiares, Luís Paulino Pereira apresentou uma obra que é menos balanço pessoal do que testemunho de uma ideia de cuidado: ouvir, acompanhar, preservar a dignidade e não deixar que a idade, a doença ou o esquecimento apaguem aquilo que cada pessoa foi e continua a ser.

Filipe Mendes

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