Em 2017, numa passagem pela Toscânia e sobretudo por Florença, tive oportunidade de visitar a Basílica da Santa Cruz (Santa Croce) e nela me deter alguns minutos frente ao túmulo de Nicolau Maquiavel. A foto que acompanha este artigo foi tirada nesse momento.
Nicolau Maquiavel era um florentino de gema, nascido em 1469 e falecido em 1527 na Cidade Florida, aos 58 anos. Filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico, Maquiavel foi um Homem do Renascimento, corrente que teve em Florença o seu berço. Por ter escrito sobre o Estado e o Governo tal como eram, com objetividade prática e não com a subjetividade teórica com que estas matérias eram abordadas (e muitas vezes ainda são), Maquiavel é também reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna.
O livro “O Príncipe” foi o seu principal contributo no estudo do Estado e da governação, uma obra que ainda hoje influencia e norteia lideranças um pouco por todo o mundo. Escrito em 1513 e apenas publicado após a sua morte, Maquiavel dedicou o livro a Lourenço II de Medici, o Príncipe de Florença, procurando encorajá-lo a lutar pela unificação da Itália e pela robustez da sua defesa contra invasores estrangeiros. Quando o terminou, já Juliano de Medici e o Papa Leão X negociavam esta possibilidade, que só alguns séculos depois se viria a concretizar.
Dividido em 26 capítulos, “O Príncipe” apresenta os tipos de Estado (ou principado) existentes e as características de cada um deles. No livro, Maquiavel defende a necessidade do chefe de Estado (príncipe) basear a sua força em exércitos próprios e não em mercenários. De seguida, trata do governo propriamente dito e dos motivos por trás da fraqueza do Estado (focado nos estados italianos) e conclui a obra exortando o novo príncipe a que conquiste e liberte a Itália.
Para muitos especialistas, “O Príncipe” funciona como manual prático para governantes conquistarem e manterem o poder absoluto. Esta convicção surge devido ao realismo político da obra, que ignora utopias e idealismos morais, mas também devido a algumas polémicas ilações retiradas do texto. Maquiavel nunca referiu que “os fins justificam os meios”, embora esta observação se possa extrair do conteúdo do livro. O que o autor efetivamente disse foi que o governante deve preferir ser temido a ser amado e que deve agir por vezes como o leão (usando quando necessário a força bruta) e outras vezes como a raposa (recorrendo sempre que possível à astúcia mental e à inteligência estratégica). A teoria de Maquiavel no livro assenta em dois conceitos base: a Virtu, entendida como a habilidade política, sagacidade e determinação do governante, e a Fortuna, entendida como a capacidade de gerir elementos imprevistos e de usar o fator sorte.
Estas interpretações, que esquecem o contexto histórico em que a obra foi escrita, moldaram definitivamente o estilo de governação que se lhe seguiu. O peso deste livro na teoria (e prática) da governação foi tal que levou até ao aparecimento de um adjetivo que dele decorre, maquiavélico, algo que denota frieza, maldade intencional ou manipulação sem escrúpulos. Se aos escritos de Maquiavel juntarmos os grandes teóricos da disciplina militar (Sun Tzu, Romanos, Bonet, Vauban, Saxe, Guibert, Jomini e sobretudo Von Clausewitz), ficamos com uma imagem bastante precisa de como países, instituições e até empresas têm sido governados nos últimos 500 anos.
Passando aos nossos dias, devemos assumir que os pressupostos do maquiavelismo continuam bem vivos em diversos setores das nossas sociedades, sobretudo na medida em que possam favorecer o absolutismo de determinadas lideranças. Isso é visível em altos órgãos do Estado, na Administração Pública Central e Autárquica, nos partidos políticos, na Academia, nas instituições e até nas empresas, das maiores até às micro. Laurence Peter, autor e investigador ligado à Teoria Estruturalista (uma síntese integradora entre a Teoria Clássica e a Teoria das Relações Humanas), enunciou em 1969 o seu célebre Princípio de Peter, que se traduz por “Num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência”.
O absolutismo e a incompetência encontram-se historicamente ligados: a concentração de poder num só governante tem gerado com frequência graves problemas de administração. Sem instituições de controlo, a governação baseava-se em caprichos reais, o que impulsionou crises, corrupção e estagnação, culminando nas revoluções que derrubaram estes sistemas. A combinação entre poder absoluto e má capacidade governativa tem dado aso a inúmeros impactos, destacando-se a irresponsabilização, a arbitrariedade, a corrupção e o compadrio.
Tudo isto nos traz a situações bastante concretas. Nas sociedades presentes, as tecnologias de informação, a transformação digital e a inteligência artificial permitem automatizar tarefas cada vez mais complexas dentro das organizações. Os clientes/utentes (detesto esta palavra …) sentem-se cada vez mais solitários e desprotegidos à medida que são gradualmente empurrados para relacionamentos de self-service, nos quais a interação humana com as organizações é cada vez mais reduzida. A exaustão digital, um fenómeno que começa a ser estudado por investigadores em todo o mundo, é uma dura realidade e um forte obstáculo à invasão tecnológica.
Tudo isto decorre num mundo em que, como referia Peter Drucker, as pessoas são “trabalhadores do conhecimento”. Isto quer dizer que quanto mais a tecnologia faz, mais reduzida, mas sobretudo mais fundamental é a intervenção humana. Aos trabalhadores dos nossos dias o que se pede é compromisso, determinação e resiliência, mas também simpatia, disponibilidade e sobretudo proatividade. Entenda-se que tudo isto se torna complicado quando as Famílias se debatem para equilibrar o seu orçamento familiar mês após mês, com os preços a subir cada vez mais frequentemente e as perspetivas de aumentos ou promoções cada vez mais remotas.
Mas se a tudo isto juntarmos o binómio absolutismo/autoritarismo versus incompetência, então temos a tempestade perfeita. Governar o que quer que seja, desde o parlamento a um qualquer talho ou café, com base no medo, na intimidação, na arbitrariedade e no compadrio, só pode levar a resultados desastrosos. A falta de qualidade da maioria dos gestores, a sua incapacidade para lidar com a mudança e motivar o grupo, é hoje gritante e escandalosa e, se o lugar for de nomeação política, muito pior.
Nada se obtém com pessoas tristes, deprimidas, amedrontadas, mal pagas ou pressionadas por ambientes tóxicos. Não há produtividade que valha a organizações onde a chantagem por causa de horários, de escalas, de regulamentos, de aumentos e promoções ou de outros fenómenos ainda mais macabros sejam o dia-a-dia das pessoas. Ninguém consegue trabalhar nestas condições e por isso as baixas surgem em cascata, as greves são todas aproveitadas até ao último minuto. As pessoas precisam de se libertar, de viver, de ter prazer, de respirar ar fresco. O trabalho hoje não dá nada disso.
Sei bem que vivemos tempos conturbados, fruto de doenças, conflitos, reduções drásticas no poder de compra das Famílias e outros efeitos. Sei bem até que ponto tudo isto afeta a sanidade mental das pessoas, que tentam desesperadamente sobreviver, manter as suas vantagens, ganhar brilho junto de superiores hierárquicos. O que não entendo, nem aceito, é que estes objetivos sejam cada vez mais alcançados à custa do prejuízo de colegas, de amigos (?) ou até de vizinhos, esquecendo deveres básicos de convivência e relacionamento social tal a voracidade dos seus objetivos e interesses. Hoje espezinha-se o parceiro do lado por um qualquer motivo, porque existe, porque respira ou porque tem um lugar que quero para mim ou para um amigo.
Mais que as guerras, as doenças, a pobreza e a solidão, é esta deterioração das relações sociais que está a destruir as nossas sociedades. Todos temos direitos, mas ninguém tem deveres, todos nos vemos como monarcas absolutos cujas decisões todos devem acatar. O potencial de conflitualidade destas ações, cada vez mais frequentes, é enorme e produz rombos enormes na produtividade, na Felicidade e no Bem Estar. Porque, afinal, não viemos a este mundo para sermos servos nem patrões, mas apenas para fazermos o Bem e vivermos assim numa sociedade melhor.
Trago em mim valores éticos bastante fortes, que aprendi em casa dos meus Pais. Entre inúmeras conversas sobre estes temas, lembro-me sempre de uma frase que o meu Pai me dizia: “A tua liberdade termina onde começa a liberdade dos outros”. É assim que tenho vivido e creio que mais pessoas deveriam seguir este caminho. Fica a proposta.
