Seis meses após a tempestade Kristin, a fase de emergência está ultrapassada em Tomar, mas a recuperação continua “longe do fim”, com prejuízos superiores a sete milhões de euros e obras por concluir, disse hoje o presidente da Câmara.
“Se a fase de emergência está efetivamente ultrapassada, há toda uma fase de recuperação que ainda temos muito para fazer”, disse à Lusa o presidente da Câmara de Tomar, no distrito de Santarém, Tiago Carrão, sublinhando que boa parte do território foi afetada, desde o património municipal e das famílias até à floresta e ao rio Nabão.
A floresta continua a ser uma das principais preocupações, face ao “rasto de destruição” provocado pela tempestade de 28 de janeiro e pelos temporais que se seguiram, agora que as temperaturas elevadas aumentam o risco de incêndio.
Os prejuízos na esfera municipal foram inicialmente estimados em cerca de sete milhões de euros, valor que poderá ainda aumentar à medida que forem concluídos os levantamentos de danos efetuados pelas juntas de freguesia e restantes entidades.
“É um prejuízo que não se resolve de um dia para o outro”, afirmou o autarca, indicando que permanecem por reparar danos em estradas, taludes, equipamentos municipais e património.
Entre os casos mais relevantes está a Escola Básica da Junceira, ainda encerrada devido aos estragos provocados pela tempestade. O município pretende lançar este ano a empreitada de recuperação, admitindo que alguns danos atualmente menos visíveis poderão agravar-se com o regresso da chuva.
Na Mata Nacional dos Sete Montes prosseguem os trabalhos de recuperação e limpeza e o município vai avançar com a reparação urgente de um muro cuja estabilidade foi afetada e que representa risco para habitações contíguas, mantendo igualmente em curso o processo de recuperação da Charolinha.
Segundo Tiago Carrão, centenas de árvores foram derrubadas e a reabertura depende da conclusão dos trabalhos necessários para garantir condições de segurança aos visitantes.
Antes da reabertura total da Mata, apontada para outubro, a autarquia pretende promover visitas condicionadas.
Seis meses depois da tempestade persistem igualmente problemas nas redes de energia e telecomunicações.
“Temos algumas zonas do concelho cuja iluminação pública ainda não está funcional” e continuam a existir “cabos e até alguns postes em situações um bocadinho precárias”, afirmou, considerando que as operadoras devem acelerar as intervenções por razões de segurança.
Quanto às telecomunicações, a generalidade dos serviços já foi reposta, embora subsistam situações pontuais, afirmou.
Sobre os apoios recebidos, Tiago Carrão indicou que o município recebeu, até ao momento, cerca de 800 mil euros, verba que considera insuficiente face aos prejuízos registados.
O autarca contabilizou cerca de mil candidaturas aos apoios da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) para recuperação de habitações permanentes, das quais cerca de 700 já receberam financiamento, num montante global próximo dos três milhões de euros.
Ao abrigo do regulamento municipal “Recuperar Tomar” foram ainda apoiadas cerca de 40 candidaturas.
O autarca acrescentou que duas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) continuam com prejuízos na ordem das centenas de milhares de euros, admitindo que o município poderá ter de encontrar soluções complementares.
As freguesias de Sabacheira, Além da Ribeira e Pedreira, Casais e Alviobeira e Olalhas foram as mais afetadas, embora a tempestade tenha provocado estragos em todo o concelho.
Como principal lição retirada da tempestade, Tiago Carrão defendeu o reforço da preparação para fenómenos extremos, através de investimentos nas comunicações, energia e proteção civil, destacando a resposta de bombeiros, forças de segurança, juntas de freguesia, trabalhadores municipais e voluntários durante a fase de emergência, sustentando que a reflexão iniciada após a tempestade “tem de passar à ação”.
Vários temporais, com destaque para as depressões Kristin, Leonardo e Marta, atingiram o território continental em três semanas a partir do final de janeiro, causando pelo menos 19 mortos, mais de metades deles durante trabalhos de recuperação, várias centenas de feridos, desalojados e deslocados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
Mais de 35 mil habitações foram afetadas no todo do país, um número superior a um milhão de pessoas ficaram sem eletricidade, meio milhão de clientes sem telecomunicações, mais de 18 mil sinistros ou ocorrências de emergência foram registadas até ao fim da primeira quinzena de fevereiro e foram apresentadas mais de 200 mil participações de sinistros.
Os prejuízos estimados são superiores a 5,3 mil milhões de euros.
O Governo decretou que 90 municípios nas zonas afetadas pela depressão Kristin estavam em situação de calamidade, uma declaração que implica uma série de apoios e de medidas de exceção, estendendo posteriormente a situação a todo o território desde que os danos se devam às tempestades.
Na sequência das tempestades foi anunciado, no final de abril, o programa PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, com um envelope financeiro global de 22,6 mil milhões de euros para executar 96 medidas, até 2035, para recuperação económica do país depois das consequências do mau tempo.
