O presidente da União das Misericórdias denunciou a existência de empresas que drenaram pessoas internadas indevidamente nos hospitais para o sector social ganhando dinheiro com isso, face à diferença de preços pagos pelas unidades hospitalares.

Manuel Lemos falava na Comissão Parlamentar de Saúde, onde ontem foi ouvido sobre o barómetro dos internamentos sociais, na qual aludiu à portaria de 2023 que definiu os termos da articulação entre os vários setores para escoar dos hospitais públicos os utentes que, já tendo alta médica, permaneciam internados.

“Quando se pediu aos parceiros que ajudassem a drenar camas de utentes que não precisavam de estar internados (…) encontrámos dois problemas: primeiro, a falta vagas em lares e, depois, os administradores hospitalares, para resolverem esse problema, estavam a contratar equipamentos a preços muito mais elevados do que o Estado estava disposto a pagar ao setor social”, contou.

Deu o exemplo de uma empresa que contactou o setor social – uma unidade em Salvaterra de Magos – que pagava 1.500 euros/mês/utente, “quando o Estado pagava 1.350 euros”.

“Ou seja, estavam a drenar pessoas dos hospitais e a ganhar dinheiro com isso”, acrescentou.

Manuel Lemos sublinhou a urgência de a gestão de altas nos hospitais ter em atenção as pessoas com demência, especialmente os casos de utentes mais novos que, tendo alguma demência caem e partem um braço. “Esta pessoa quando recebe alta, recebe alta por causa do braço, mas não da demência”, exemplificou.

Relatou ainda problemas que as misericórdias enfrentarem ao tentar colocar estas pessoas em instituições: “Pusemos algumas destas pessoas nos lares e tivemos muitas complicações. (…) É muito perigoso meter estas pessoas em lares. Bem sei que é uma reposta de emergência, mas não é resposta”.

“Os lares estão cheios de pessoas com demência, mas é uma demência que se criou no lar, conhecemos estes utentes”, disse.

Pediu confiança nas instituições – “quando dizemos que os custos aumentaram 13% é porque aumentaram mesmo, não pode vir de lá um acréscimo de 7% [no financiamento]” – e apelou a uma atenção redobrada às demências, considerando que “tem hoje um peso muito maior do que quando a rede de cuidados continuados foi criada”.

A propósito das camas para cuidados continuados estimadas aquando da criação da rede afirmou: “quando se fez o estudo [2006] previa-se que fossem necessárias 16.000 camas em 2015. Na altura, por um lado, usaram a média de envelhecimento da UE e Portugal já estava acima, depois, não consideraram as demências”

“Tudo isto mudou e o problema das demências não tinha a força que tem hoje. (…) Se fossem tidas em conta as necessidades destas pessoas com demências, já seriam precisas 25 mil camas. E ninguém estudou essa matéria”, avisou.

Sobre o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que prevê mais 5.500 camas para cuidados continuados, Manuel Lemos considerou que, pelo valor definido, “é um risco financeiro [as instituições] meterem-se a fazer camas”.

“Há instituições que assinaram protocolos que não têm hipótese de fazer cumprir, ou vão fechar a meio. (…) O financiamento da rede é ridículo e não parte da atual realidade. Não é com o rendimento da rede que se vai pagar a diferença na construção”, considerou.

Insistiu ainda que os cuidados continuados são “uma resposta de saúde” e que só drenar os casos considerados internamentos sociais para a rede se está a “perverter o sistema”.

Para ajudar a melhorar a drenagem destes casos para o sitio correto, sugeriu que, quando a pessoa fosse transferida do hospital, a reforma o acompanhasse: “Isto para não acontecer o que aconteceu em Ribeira de Frades, em que o utente foi para a misericórdia, conseguiu que o táxi o levasse à família – afinal tinha família – e na manhã seguinte devolveram-no porque dele só queriam a reforma”.

Leia também...

ULS Lezíria e Refood Santarém unidas contra o desperdício alimentar

A ULS Lezíria e a Refood Santarém reforçaram a parceria iniciada em dezembro de 2024 com uma sessão no Hospital Distrital de Santarém, no…

Sismo de 2,4 na escala de Richter sentido no distrito de Santarém

m sismo de magnitude 2,4 na escala de Richter foi hoje de madrugada sentido próximo de Benavente, sem causar danos pessoais ou materiais, segundo…

Rio Maior marca presença na BTL

Uma comitiva de Rio Maior marcou presença, na tarde de ontem, no Stand do Turismo de Rio Maior, na BTL – Bolsa de Turismo…

Almoço de Natal do Núcleo de Santarém da Liga dos Combatentes

O Núcleo de Santarém da Liga dos Combatentes realizou no passado dia 14 de Dezembro, o seu tradicional almoço de confraternização de Natal que…