A senhora Presidente da Academia Portuguesa de História, Prof. Manuela Mendonça (1948-2025), partiu do nosso convívio no passado dia de Natal, com grande consternação dos seus pares e amigos, deixando mais uma baixa no já de si desguarnecido corpo de investigadores do campo da História-Ciência portuguesa.
De seu nome completo Manuela Mendonça de Matos Fernandes, era natural da aldeia de S. Cristóvão, no Concelho de Montemor-o-Novo, e tornou-se uma especialista na História da Baixa Idade Média e dos primórdios da Era Moderna, tendo produzido uma obra considerada de referência sobre essas épocas, tanto no âmbito nacional como no das relações peninsulares. Entre os seus livros, constam títulos como “D. João II. Um percurso Humano e Político nas Origens da Modernidade em Portugal” (1991), “As Relações Externas de Portugal nos Finais da Idade Média” (1994), “A Guerra Luso-Castelhana no Século XV. A Batalha de Toro” (2006) e “História dos Reis de Portugal. Da Fundação à Perda da Independência” (coordenação sua, 2010), e outras.
A Prof. Manuela Mendonça dirigiu desde 2006 a Academia Portuguesa de História como sua activíssima Presidente, criando uma instituição com grande dinamismo e projecção internacional. Era Doutorada em História Moderna e Contemporânea e foi Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa bem como Subdirectora-Geral dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo.
Também se notabilizou pela sua acção social à frente de instituições de solidariedade, tendo sido Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) e, também, do Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional Pastoral dos Ciganos e do Comité Catholique International pour les Tsiganes. Era considerada, aliás, uma historiadora especialmente amiga da comunidade cigana, por cujos direitos e integração muito se bateu.
Ao deixar-nos na manhã deste Natal, Manuela Mendonça deixa um vácuo no panorama historiográfico nacional, como académica de prestígio e académica de renome, com obra científica de relevância. Muito ligada a Santarém por profunda amizade com o Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, seu antecessor na direcção da Academia, contribuiu para que o Centro de Investigação Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS), entretanto criado, e dirigido pelo Prof. Martinho Vicente Rodrigues, se viesse a afirmar no panorama da historiografia portuguesa.
Além de ter realizado obra notável no campo da integração das comunidades e demais faixas marginalizadas, é o percurso de historiadora que notabilizou Manuela Mendonça, com estudos de referência, em alguns casos premiados, sobre temas de História medieval e moderna.
Perante a evidência de que a comunidade portuguesa dos historiadores e investigadores se mostra cada vez mais depauperada, a partida de Manuela Mendonça ocorrida no próprio dia de Natal aduz uma nota de maior tristeza por quem tanto aliou, em vida, a busca de saberes históricos com a assistência social junto dos mais desfavorecidos. A Ciência História só faz sentido, de facto, quando sabe extravasar a sua dimensão mais oficial para campos mais vastos de partilha de saber e de dinamização de um alargado humanismo.
À Academia Portuguesa da História e à sua famílias e amigos, o Correio do Ribatejo exprime as suas profundas condolências.
