CAMPO PEQUENO – 5ª feira, 6 de Agosto, às 21.45 horas – Corrida à Portuguesa – Alternativa de Duarte Fernandes. Cavaleiros: Rui Fernandes, Diego Ventura (rejoneador) e Duarte Fernandes; Forcados: Aposento da Moita e Amadores de Turlock (Califórnia); Ganadaria: Maria Guiomar Cortes Moura (592, 590, 620, 670, 554 e 644 kgs); Director de Corrida: Ricardo Dias; Médico Veterinário: Dr. José Luís da Cruz; Tempo: Ameno; Entrada de Público: Lotação Esgotada.
A alternativa portuguesa de Duarte Fernandes era aguardada com grande expectativa, sobretudo após este ter tomado a alternativa de rejoneador em 12 de Setembro de 2021, em Arles, apadrinhado por seu tio Rui Fernandes, com o testemunho de Diego Ventura – exactamente o mesmo cartel de Lisboa – e de haver somado tantos triunfos ao longo destes últimos cinco anos.
O público não se fez rogado e esgotou a lotação do Campo Pequeno quatro dias antes da corrida, o que comprova que quando os cartéis têm força o público encosta a barriga ao balcão e enche as praças Neste caso, o aliciante era a alternativa de Duarte Fernandes, mas não poderemos deixar de ter em conta que as presenças de Rui Fernandes e, sobretudo, de Diego Ventura foram determinantes para suscitar tão grande afluência de público.
Esta corrida tinha tudo para ser memorável do ponto de vista técnico e artístico, porém, o empresário põe e o toiro dispõe, pelo que os resultados ficaram muito aquém das expectativas, posto que os bonitos toiros de D. Guiomar Cortes de Moura não evidenciaram as condições de lide desejadas, excepção feita ao que foi lidado por Duarte Fernandes após a cerimónia da alternativa. No mais, tanto Rui Fernandes como, sobretudo, Diego Ventura tiveram manifesto azar com os lotes que lhes coube lidar.
E, antes de apreciarmos tecnicamente esta corrida, uma questão se coloca: será que a expectativa em torno de Duarte Fernandes, e que felizmente não saiu gorada, terá no futuro alguns efeitos práticos? Pondo a questão de outra maneira – quantas vezes ainda actuará este ano Duarte Fernandes em Portugal? É que se esta boa onda gerada no Campo Pequeno em torno deste jovem marialva não for aproveitada, de pouco terá valido este burburinho, pois a pasmaceira dos cartéis repetidos continuará…
Aguardemos com calma e paciência para ver no que isto dá, pois Duarte Fernandes, tal como seu tio Rui Fernandes, é dos poucos toureiros portugueses que têm mercado em Espanha e em França, onde se cobra mais, pelo que a opção parece fácil de seguir, a menos que os empresários portugueses estejam dispostos a abrir os cordões à bolsa…
Nesta noite, pautada pelo mau comportamento dos toiros, Duarte Fernandes esteve num plano notável, beneficiando da qualidade do “Triunfador”, toiro que lidou com uma classe pouco vista nas nossas arenas. Depois de ter brindado ao avô e ao tio, Duarte Fernandes lidou com muita categoria, elegendo terrenos, distâncias e andamentos que lhe permitiram desenhar uma lide onde o público esteve sempre pendente de cada momento, de cada cite, elegante e ousado, de cada reunião, apertada e emotiva, e da colocação da ferragem, a um tempo vistosa e correcta. Complementarmente seguiram-se os adornos desenhados com arte, alegria e entusiasmo. O mais emprestou o respeitável público com o seu respeito e entrega, transformados numa efusiva e constante ovação.
O último toiro da corrida já pouco tinha a ver com o primeiro, no entanto, o jovem Duarte Fernandes, talvez empolgado pela ambiência tão extraordinária em seu torno, inventou toiro e pôs-lhe o que ele não tinha, rubricando mais uma lide notável, em crescendo de interesse, pois o toiro não investia com muita transmissão mas tinha alguma nobreza, pelo que o jovem marialva evidenciou uma vez mais a sua competência na preparação de cada sorte, na verdade dos cites e no compromisso dos terrenos que pisou para colocar poderosa ferragem, culminando com adornos à base de arriscadas piruetas na cara do toiro, o que suscitou uma inusitada euforia do público, que premiou esta lide com duas voltas à arena, o que valeu a Duarte Fernandes a justa saída em ombros. Parabéns! Felicidades! Obrigado por esta noite magnífica!
Curiosamente, nesta noite de 6 de Agosto completavam-se vinte oito anos sobre a data de alternativa de Rui Fernandes, que ocorreu igualmente no Campo Pequeno, então apadrinhado por João Moura com o “testigo” de Pablo Hermozo de Mendoza.
Desta feita, Rui Fernandes teve pouca sorte com os toiros que enfrentou, que para muitos outros poderia representar um desaire completo, no entanto Rui Fernandes, pletórico de técnica e de ofício logrou superar a matéria-prima de que dispôs e rubricou duas lides muito meritórias. Naturalmente, não ao nível do que sempre se espera de si, mas onde faltou toiro sobrou toureiro e o que é verdade é que Rui Fernandes proporcionou momentos muito agradáveis de toureio. Sim, de toureio, porque tourear não é apenas espetar ferros.
Descobrindo os terrenos dos toiros e ajustando as distâncias para os cites, Rui Fernandes desenhou vistosas sortes, irrepreensivelmente consumadas em momentos de muita emoção e risco, pelo compromisso dos terrenos que teve de pisar. Não foram lides de apoteose, mas foram lições de toureio, conseguidas à base de muito querer, poder e saber.
Apesar de tudo, ainda houve quem tivesse mais razões de queixa – Diego Ventura, a quem, desta vez, calhou a fava. Bem sabemos que Ventura e as suas montadas têm recursos ilimitados, mas nisto também não há milagres. Louve-se a sua persistência e dignidade em tentar tirar água de um poço seco, mas os toiros não tiveram ponta por onde se pegasse. Parados, difíceis, muito complicados e o labor de Diego Ventura, cujo regresso ao Campo Pequeno era tão desejado, não passou das suas esforçadas tentativas para despachar a ferragem da ordem, entre momentos de belo efeito estético proporcionado pelas suas excelentes montadas.
Naturalmente, melhores tardes e noites hão-de vir, só esperemos que não haja um interregno tão longo de ausência da principal praça do seu país! Dignamente, recusou-se a dar volta em qualquer uma das lides.
E se os toiros não foram fáceis para os cavaleiros, também não facilitaram nada a vida aos dois Grupos de Forcados em praça – os Amadores do Aposento da Moita do Ribatejo e os Amadores de Turlock (Califórnia), que aqui vieram assinalar o 50.º aniversário da sua fundação.
Pelo Aposento da Moita foram solistas Luís Canto Moniz, o Cabo, que consumou com a perfeição habitual a sua sorte ao primeiro intento; António Lopes Cardoso, que alardeou uma imensidão de faculdades técnicas, tendo sido violentamente desfeiteado na primeira tentativa, com uma tardia e pouco clara investida do toiro, mas que se fechou com alma e coração consumando uma pega extraordinária, na sua segunda tentativa; e André Silva, que rubricou uma excelente pega, ao primeiro intento, com o Grupo a ajudar com muita eficácia e coesão.
Pelos Amadores de Turlock, Grupo da Califórnia onde tem dignificado a lusa arte de pegar toiros, foram solistas Bryce Rocha, que apenas logrou consumar a sua sorte à quarta tentativa, em sorte sesgada e com as ajudas carregadas; Joseph Pereira, que consumou rija pega ao primeiro intento, muito bem ajudado; e Fábio Vieira, que consumou uma valorosa pega, à primeira tentativa, suportando violentos derrotes, tendo sido muito vitoriado pelo público que vibrou com esta pega.
Boas intervenções das quadrilhas de bandarilheiros dos três cavaleiros: Hugo Silva, João Santos, Jorge Alegrias, João Silva, Pedro Noronha e Miguel Batista, e direcção atenta e serena de Ricardo Dias, coadjuvado pelo Dr. José Luís da Cruz.
No início da corrida foi respeitado um minuto de silêncio em memória de António José Zuzarte, antigo Cabo do Grupo de Forcados Amadores de Montemor, e nota de simpatia para a presença do Secretário de Estado da Agricultura, João Moura, num camarote.
