O dia 2 de Fevereiro é devotado no calendário religioso a Nossa Senhora das Candeias, festividade que está associada a inúmeras tradições populares, nomeadamente as que predominam no meio rural.
Esta festividade parece ter a sua origem num culto celta em honra da deusa Brígida, instituído a meio da estação do inverno, sendo, assim, um primeiro sinal de que esta estação começa a declinar e que a primavera se aproxima. Esta é também a altura em que parecem despertar as terras, quando as sementes começam a germinar e as plantas a vegetar.
Entre nós, o culto a Nossa Senhora das Candeias, também invocada como Nossa Senhora da Luz, entre outras designações, remonta ao século XV, altura em que, segundo reza a tradição, na localidade de Carnide, nas proximidades de Lisboa, um devoto a Nossa Senhora encontrou, graças a uma estranha luz, uma imagem da Mãe de Jesus.
A sua ocorrência veio a dar origem à construção de um convento e uma igreja em torno da qual ainda se realiza uma das feiras mais pitorescas dos arredores de Lisboa. O culto expandiu-se um pouco por todo o país, graças ao patrocínio da Infanta D. Maria e de D. Leonor de Áustria, respectivamente a filha e a terceira esposa do rei D. Manuel I.
Na região do Bairro ribatejano, onde a cultura da oliveira tem mais expressão, estas celebrações estão intimamente ligadas à produção do azeite, de tal modo que a própria flor da azeitona se chama candeia, nome, igualmente, atribuído a um pequeno aparelho de iluminação artesanal, que tem como combustível o azeite.
Nesta região ribatejana era hábito a população utilizar cascas de caracóis secas onde se introduzia uma torcida de algodão imbuído em azeite, que se acendia, dependurando-as, depois, nos ramos das oliveiras, o que produzia um efeito muito agradável à vista, e que, segundo a crença popular, se destinava a augurar uma boa produção de azeite.
Com idêntico propósito, era comum neste dia em todas as casas fritar-se qualquer coisa, nem que fossem apenas umas fatias de pão, não sendo raro, quando as posses o permitiam, que se fritassem alguns coscorões ou filhoses, que acompanhariam o café das borras.
Curiosa é também a tradição da Nossa Senhora das Candeias cultuada em Covão do Coelho, pequena localidade na freguesia de Minde (Alcanena), onde no dia 2 de Fevereiro se celebra uma missa à noite, na qual se faz a bênção das grávidas e dos bebés de colo, seguida de procissão das velas, onde o andor sai da igreja e vai pelas ruas enfeitadas com colchas e velas até ao nicho em honra da Nossa Senhora das Candeias.
A imagem é guardada e ali fica, junto à estrada nacional, durante o ano inteiro, a iluminar a povoação de Covão do Coelho. No final da procissão, a comissão de festas oferece um beberete à população, onde não faltam filhoses, bolos, café e chá… o que acontece quase sempre num gesto de partilha no seio da própria comunidade.
De facto, neste dia é tradição comer fritos, pois simboliza o dia da luz e o azeite a iluminar, porque outrora também as velas eram feitas com azeite. Em Covão do Coelho conta-se um episódio relacionado com esta particularidade, que pode ser fruto do acaso, porém, ajusta-se plenamente à espiritualidade da devoção – “antigamente havia muitos olivais nesta serra de Minde e vários proprietários tinham ranchos de azeitoneiros por sua conta até finais de Janeiro a apanhar azeitona. Num ano em que a safra foi farta, a apanha durou até ao dia dois de Fevereiro e o rancho de rapazes e raparigas vinha do olival todo contente pelo trabalho acabado, pelo que dançavam e cantavam pelo caminho, entrando assim na povoação, cheios de alegria. Chegaram à casa do patrão e, em jeito de adiafa, os camponeses tinham à sua espera filhoses acabadas de fazer pela patroa, que, deste modo lhes agradecia o final da colheita. Daí em diante sempre se manteve o costume de fazer filhoses, ou outro frito, neste dia em agradecimento à Senhora das Candeias”.
Também o adagiário popular nos dá conta de um detalhe meteorológico curioso, pois, “se a Nossa Senhora das Candeias estiver a rir está o Inverno para vir, se estiver a chorar está o Inverno a passar”, isto é, a presença de um dia ensolarado pode ser mau auspício, pois, tal sugere que ainda teremos pela frente mais uns tempos de invernia, enquanto se ainda estiver a chover é porque os dias de maior precipitação estarão a chegar ao seu termo, podendo esperar-se por um tempo menos chuvoso, o que é bom para não atrasar as sementeiras.
Porém, o simbolismo da luz que alumia os povos – a fé em Cristo – está igualmente presente, e em algumas regiões do nosso país também esta data é invocada como o dia de Nossa Senhora da Luz, da Candelária ou, até, da Piedade. Neste dia comemora-se a Purificação de Nossa Senhora, quarenta dias após o nascimento de Jesus, quando se apresentou no Templo, cumprindo uma das leis de Moisés que Deus impôs no Antigo Testamento.
A primeira dessas Leis impunha à mulher que desse à luz uma criança do sexo masculino que ficasse privada de entrar no Templo durante quarenta dias após o parto, e oitenta dias se se tratasse de uma filha. A segunda lei obrigava todos os pais da tribo de Levi a dedicarem o filho primogénito ao serviço de Deus, enquanto os pais das crianças que não pertenciam a essa tribo ficavam obrigados ao pagamento de um tributo. A Virgem Maria sujeitou-se humildemente ao cumprimento desta lei, ainda que, em bom rigor, a tal não estivesse obrigada, porque a sua maternidade era diferente da maternidade das outras mulheres.
Uma das localidades onde ainda hoje as Festas em Honra de Nossa Senhora das Candeias têm mais devoção é em Mourão, no Alentejo, tendo as festividades início a 24 de Janeiro, com uma novena, que se repete durante as oito noites seguintes, terminando no dia 3 de Fevereiro, Dia de São Brás. Contudo, e como se compreende, o momento mais importante desta festividade é a procissão das velas no dia de Nossa Senhora das Candeias.
Note-se, no entanto, que a data da celebração de Nossa Senhora da Luz não é a mesma em todos os lugares, posto que, por exemplo, as Festas da Aldeia da Luz, no concelho de Moura, em honra de Nossa Senhora da Luz, que é a padroeira, decorrem ali no primeiro fim-de-semana de Setembro. Segunda consta na tradição local, Nossa Senhora apareceu a Santo Adriano quando este guardava o seu rebanho no pasto. Surgida em cima de uma azinheira, rodeada de anjos e de resplendor, confidenciou-lhe ser a Senhora da Luz. Com entusiasmo e devoção, o Pastor relatou o sucedido e logo se espalhou a vontade da Santa e concretizou-se a edificação da igreja. O Altar-Mor situava-se, precisamente, no lugar onde Nossa Senhora da Luz teria aparecido.
Do programa das festas populares em honra da Senhora da Luz, constam uma garraiada nocturna, a procissão do Santuário de Nossa Senhora da Luz para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, uma tourada e um espectáculo de música popular.
Enfim, cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso!
